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Internacional

Al Jazira

Alvejada por todos os lados

por Clara Roman — publicado 04/10/2011 10h52, última modificação 04/10/2011 11h29
A invasão de sua sede no Egito e a demissão do diretor-geral somam-se ao emaranhado de críticas que a rede tem recebido

Na última semana, o escritório da rede de televisão Al Jazira no Cairo (Egito) foi invadido de forma violenta por policiais. Os invasores alegavam que a emissora não tinha licença para funcionar.  Poucos dias antes, Wadah Khanfar, diretor-geral de jornalismo da rede, havia se demitido depois que o site Wikileaks revelou um diálogo consistente entre ele e o serviço de inteligência americano e que resultou em um acordo sobre conteúdo da programação.

Com isso, o canal, símbolo de independência em uma região cuja mídia é dominda por ditadores, tem tido que lidar com críticas ferozes sobre sua conduta. O episódio de Khanfar ilustra uma das vertentes do emaranhado de denúncias e boatos que tem atingido a rede nos últimos meses. Muitos deles, ainda não comprovados. Entre elas, o fato de o conteúdo do canal em inglês ser mais "leve" do que o em árabe – alguns atribuem essa característica a uma tentativa de amenizar as informações para o público americano.

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Com audiência e influência consolidadas, a Al Jazira é hoje uma empresa multinacional, com correspondentes espalhados por todos os continentes. Destaque na cobertura dos episódios da Primavera Árabe,foi assumidamente entusiasta dos movimentos pró-democracia no Oriente Médio.

Além da aproximação com Washington, um boato acusa a rede de ter colaboradores da Irmandade Muçulmana, principal grupo islâmico do Oriente Médio, o que colocaria em xeque a credibilidade da emissora. Informação que não se confirma, segundo Arlene Elizabeth Clemesha, professora de História Árabe do departamento de Letras Orientais da USP e que mantém contato com a rede. Outro ponto de crítica é que, desde seu nascimento em 1996, a rede não toca em assuntos-chave de seu país natal, o Qatar, cujo dinheiro do petróleo patrocina as incursões jornalísticas da Al- Jazira.

Para se justificar, a empresa explica que se dedica apenas à cobertura internacional e que não seria pertinente falar sobre questões locais. Mas o mesmo foi percebido em relação à inserção do canal no movimento democrático do Bahrein, vizinho do Qatar, como explica Clemesha. A Al Jazira afirma que não teve condições de mandar jornalistas para o país e nem de contatar “repórteres-cidadãos” (pessoas que relatam suas próprias experiências nas situações), como fez no Egito.  Mas, segundo Clemesha, a explicação não convenceu ninguém, já que, sem dúvidas, a revolução no Bahrein assustou a monarquia qatare.

O petróleo da pequena península é uma das razões do sucesso da Al Jazira, que nasceu como rede estatal na década de 1990, como uma ilha de independência em meio ao cenário tomado por emissoras aparelhadas e submetidas a censura de ditadores. A rede despontou na guerra do Iraque em 2003, quando foi capaz de transmitir o lado oriental com uma isenção e clareza superior ao de outros canais. “A Al Jazira traz um contraponto a tudo que existia antes, com um ponto de vista sobre o Oriente Médio que não fosse exclusivmente europeu”, explica Clemesha.

É dessa época também a suposta associação da Al Jazira com o terrorismo. O canal acabou como porta-voz da Al-Qeda ao transmitir os primeiros vídeos de Osama Bin-laden depois dos atentados de 11 de setembro. Ainda que não exista nenhuma ligação entre o grupo radical e o veículo, a cena do terrorista, somado aos dois “Al” dos nomes em um período que o mundo árabe – até então, pouco conhecido – despontou na mídia, ficou carimbada na imagem da tevê. Os vídeos, no entanto, eram deixados anonimamente na porta da empresa, que, cumprindo com suas funções jornalísticas, os tornou públicos. Foi nesse contexto que o cinegrafista da rede Sami al-Haj foi preso, quando atravessava  a fronteira entre Paquistão e Afeganistão em 2001, possivelmente confudido com um inimigo de guerra. No lugar e hora errada, al-Haj foi transferido para Guantanamo em 2002, onde permaneceu seis anos, sem nunca ser julgado ou ter acusações concretas.

Anos depois, a tevê se libertou da associação com o terrorismo, mas é odiada pelos governantes depostos nas revoluções que ocorrerm desde o início do ano no mundo árabe. Para eles, a Al Jazira não apenas veiculou os fatos como também foi agitadora do movimento. “O próprio diretor já esclareceu em entrevista que a rede não foi propulsora de movimenteo nenhum e que apenas pôs o alto falante com a voz dos egípcios na mídia”, afirma Clemesha.

Mamede Mustafá Jarouche, do Departamento de Letras Orientais da USP e que vivenciou no Cairo toda a movimentação da praça Tahrir, epicentro dos protestos no Egito, afirma que a rede exagerou na cobertura em alguns momentos. Ele conta que, da janela do hotel onde estava hospedado, podia ver o local e lembra que, um dia, enquanto o canal veiculava imagens de uma grande manifestação, Mamede via poucas pessoas na praça.

O episódio com os policiais egípcios é reflexo da relação conturbada com os governos locais. A rede já havia sido expulsa do país durante o governo Mubarak. E agora é hostilizada pelos organismos ainda ligados ao governo deposto, como a polícia militar - que, segundo a professora, não se renovou com o fim do regime.

Assista a vídeo da emissora sobre a morte de Osama Bin Laden:

e sobre a revolução na Praça Tahrir

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