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Eleições no EUA

Ainda na corrida maluca

por Eduardo Graça — publicado 31/08/2011 10h36, última modificação 31/08/2011 11h03
Com a entrada de Rick Perry, a seara republicana se esmera em produzir as mais desatadas bobagens do pensamento político

A novidade mais recente na corrida presidencial nos Estados Unidos foi a entrada formal do governador do Texas, Rick Perry, na disputa pela vaga republicana na eleição do ano que vem. Um dos políticos mais populares da ala conservadora do Partido Republicano, Perry foi eleito para o posto ocupado por George W. Bush até 2000 e as similaridades com o ex-presidente, com quem mantém uma relação distante, não param por aí. Entre seus possíveis trunfos, ele conta com a criação recorde de empregos no Texas, embora a oposição lembre que as vagas são, em sua maioria, para postos com salários abaixo da média nacional e profissionais não sindicalizados. E com uma moderna máquina de campanha estabelecida em 2006, com inserção nas mídias sociais tão ou mais forte do que a de Barack Obama, e uma retórica populista combinada aos 11 anos no comando da administração de um dos estados mais importantes da federação.

Entre os problemas de Perry, o principal, de acordo com repórteres e analistas políticos, é sua língua solta. Na quinta-feira 25, ao responder sobre a decisão de Obama de tirar férias de verão no balneário de classe média alta Martha’s Vineyard, uma das ilhas mais exclusivas do país, localizada na Nova Inglaterra, enquanto a economia segue cambaleante, Perry saiu-se com uma pérola, em um programa de rádio de grande audiência entre os conservadores: “Eu prometo ao povo americano que jamais tirarei férias lá. Agora, para ser bem sincero, eu nem sei onde isso fica”.

Já na primeira semana de campanha ele ofereceu sua visão peculiaríssima sobre a teoria da evolução e o aquecimento global. “Os cientistas estão manipulando dados para aumentar o financiamento de suas pesquisas. Não quero os EUA investindo um grande montante de capital em uma mera teoria científica que não só não foi provada como está cada vez mais sendo questionada.” Em campanha no estado de New Hampshire, um dos primeiros a realizar primárias, ele revelou como seria a abordagem da ciência em um governo Perry, em conversa animada com um jovem aluno de uma escola pública: “Veja bem, a evolução é uma teoria e tem lá seus furos. Por isso, no Texas, ensinamos tanto a teoria de Darwin quanto o criacionismo. Aposto que você é esperto o suficiente para decidir qual é a mais correta”, disse, enquanto uma voz feminina ao fundo provocava: “Pergunte por que ele não acredita na ciência! Pergunte, vai!”

Para não ficar atrás, a candidata favorita do Tea Party, a deputada Michele Bachmann, de Minnesota, acaba de anunciar em um comício na Carolina do Sul uma de suas principais plataformas: “Quando Obama assumiu o governo, o galão da gasolina custava 1 dólar e 79 centavos. Veja o preço hoje (chega a 3,7 dólares na Califórnia)! Em meu governo a gasolina vai voltar a custar- menos de 2 dólares novamente”. Ela só não explicou como. Bachmann é a mesma que, em 2006, enfatizou, feliz, em uma igreja evangélica, proferir a fé no “Deus que nos disse: esposas, sejam submissas, submetam-se à vontade de seus maridos”.

“Mas vamos deixar bem claro, Bachmann não será eleita. Embora pesquisas sérias realizadas em anos recentes mostrem que apenas 30% dos americanos acreditam na teoria da evolução, ainda creio, contra toda evidência, que os norte-americanos não são insanos. Porém, no caso de estar equivocada, deixe-me ser a primeira a afirmar: só nos EUA a primeira presidenta eleita seria uma cidadã que prega a importância religiosa da submissão das esposas a seus maridos”, desabafa na última edição da revista The Nation Katha Pollitt, colunista do diário The Washington Post.

Rival de Bachmann e Perry na corrida presidencial, o ex-governador John- Huntsman reagiu de pronto: “Não sei em que universo paralelo essa mulher vive. Nós, que estamos no mundo real, sabemos que os preços da gasolina, por exemplo, não vão simplesmente despencar se ela for eleita presidenta. É uma promessa completamente irreal, que pode até agradar a determinados setores da população, mas não é verdadeiro”. E também não perdoou o texano ao escrever no Twitter: “Para ficar bem claro, eu acredito na teoria da evolução e também creio nos cientistas quando eles falam do aquecimento global. Podem me chamar de maluco!”

A movimentação de Huntsman, um dos poucos republicanos a participarem do governo Obama, como embaixador na China-, revela o nível intelectual da disputa pela Casa Branca. O ex-governador de Utah bateu, em entrevista recente ao canal ABC, na tecla de que “a ala extremista” do Partido Republicano não conseguirá atrair os independentes para derrotar Obama em novembro, classificando-os de “candidatos inelegíveis”. “Ele está tentando se posicionar no centro, já que a extrema-direita está repleta de candidatos, não há mais espaço por ali. O que ele tenta dizer, competindo com Mitt Romney, é: ‘Vocês contam com extremistas em todos os flancos do partido, eu sou o único que pode ser palatável para os eleitores americanos nas eleições do ano que vem’”, pondera Lois Romano, analista política da Newsweek.

Huntsman tem, porém, apenas 1% das intenções de voto dos eleitores republicanos, de acordo com os principais institutos de pesquisa. O Gallup anunciou na quarta 24 a sua mais recente sondagem: pela primeira vez Rick Perry aparece à frente, com 29% das intenções de voto, contra 17% do ex-governador de Massachusetts Mitt Romney, 13% do padrinho do Tea Party, o deputado libertário Ron Paul, 10% para a ultraconservadora Michele Bachmann e 3% para o ex-senador da Pensilvânia, e também radical de direita, Rick Santorum.

Mais: mesmo a ex-governadora Sarah Palin e o ex-prefeito Rudy Giuliani, que ainda não decidiram se entram na disputa, ficam bem atrás de Perry e Romney, o que pode indicar o início de uma possível polarização entre o texano conservador e o mórmon da Nova Inglaterra.

Romney teve uma semana difícil, depois de tentar entrar na retórica populista contra as férias da família Obama e ser atacado por ser dono de quatro casarões espalhados pelo país, inclusive um avaliado em 10 milhões de dólares, à beira do lago Winnipesauke, em New Hampshire, e outro estimado em 12 milhões de dólares na praia de La Jolla, na Califórnia. Pior: o diá-rio Boston Herald informou que o ex-governador realizaria no sábado 27, na mesma Martha’s Vineyard onde Obama passa férias, um evento para recolher doações de campanha, a 2,5 mil dólares por cabeça.

Obama assiste a tudo de camarote, apesar do baixo porcentual de aprovação de seu governo (42%) e do desemprego nas alturas (9%).

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