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Ai, ai, ai, caramba!

por Gerson Freitas Jr — publicado 05/04/2011 09h07, última modificação 07/04/2011 10h38
Queridinho nos anos 1990, o México fica para trás e vira a antítese do Brasil, segundo o BID
Ai, ai, ai, caramba!

Queridinho nos anos 1990, o México fica para trás e vira a antítese do Brasil, segundo o BID. O que deu errado na terra do sombrero? Para os economistas do banco, o apego ao receituário neoliberal e o completo atrelamento aos Estados Unidos. Por Gerson Freitas Jr. Foto: Scott Olson/Getty Images/AFP

Nos anos 1990, auge da hegemonia neoliberal, o México era o modelo a ser seguido pelo Brasil. Descrito por muitos como um exemplo de economia moderna, aberta ao exterior e integrada aos Estados Unidos, o maior e mais dinânico mercado do mundo, os mexicanos pareciam ter mais a ensinar do que a aprender com os brasileiros no mundo globalizado. Em apenas uma década, suas exportações multiplicaram-se por quatro, especialmente após a adesão ao Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta). O presidente da abertura, Carlos Salinas de Gortari, envolvido em sucessivos escândalos de corrupção, era tratado como celebridade, símbolo das boas práticas recomendadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Todos os presidentes latino-americanos daquele período seriam, de alguma forma, clones de Gortari.

A década seguinte marcou uma mudança radical. Com o declínio da economia dos EUA, o estouro da crise financeira, em 2008, e a ascensão da China como principal exportador de bens manufaturados, os mexicanos perderam o norte – literalmente. Se o Brasil se notabilizou pela retomada do crescimento e do otimismo, às vezes exagerado, os mexicanos enfrentam uma situação de profundo desânimo em meio ao desemprego, à escalada da violência ante o domínio crescente de territórios por parte do narcotráfico e o fracasso retumbante das ações coordenadas pelo presidente Felipe Calderón. Além do tráfico, o México só é lembrado quando a Forbes divulga anualmente a lista dos bilionários encabeçada por Carlos Slim, o homem mais rico do mundo.

O fato é que as trajetórias de Brasil e México, as duas maiores economias latino-americanas, se descolaram. É o que mostra um estudo divulgado na segunda-feira- 28 pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre as oportunidades e desafios que se colocam para os países latino-americanos em uma nova configuração econômica mundial.

Coordenado pelos economistas Alejandro Izquierdo e Ernesto Talvi, o trabalho apresenta logo no título a pergunta que pretende responder em suas 57 páginas: “Uma região, duas velocidades?” De acordo com a pesquisa, o mundo pós-crise dividiu os países latino--americanos em dois grupos, de acordo com suas características estruturais e sua inserção no mercado global. Seus ícones são justamente Brasil e México.

O México, assim como as nações que optaram por ser maquiladoras das indústrias dos EUA, foi duramente castigado pela crise por meio dos mesmos canais que lhe conferiam uma vantagem competitiva sobre o Brasil nos anos 1990. Além de possuir fortes laços comerciais, tanto em produtos como em serviços, com as economias industrializadas – notadamente, a norte--americana – eram grandes receptores de remessas, exportavam manufaturas, de maior valor agregado, e importavam matérias-primas.

O cenário mudou definitivamente com a crise de 2008. Nos Estados Unidos, mostra o estudo do BID, o consumo privado, o investimento e as exportações – os três principais componentes da chamada demanda agregada – encontram-se, respectivamente, 8%, 29% e 10% abaixo dos níveis para os quais apontava a tendência observada antes da crise. A consequência foi a deterioração das contas públicas. O déficit fiscal norte-americano atingiu o equivalente a 9% do PIB, o que empurrou a dívida pública para um patamar próximo a 95%.

Se em 2006 as economias industrializadas respondiam por pouco mais da metade (51%) do crescimento mundial, em 2010, sua participação caiu para apenas um quarto. É para esses países, aparentemente condenados a uma década de crescimento anêmico e a ajustes, que o México exporta 91% de suas mercadorias. “Os Estados Unidos respondem por quase metade de todo o PIB mexicano”, observa Ernesto Lozardo, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Não à toa a crise norte-americana produziu efeitos tão devastadores no país vizinho: em 2009, a economia registrou uma contração de 7,4%, a maior desde 1995. No ano passado, o consumo privado no México ficou 12% abaixo do nível para o qual apontava a tendência antes da crise. O investimento, 20%, e as exportações, 15%.

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Em situação semelhante estão Panamá, Costa Rica, Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador. O “grupo mexicano”, assim denominado no estudo do BID, terá crescido, em média, apenas 2,7% ao fim do biênio 2010-2011 – pouco acima do ritmo ditado pelas economias centrais. “A implicação natural é que os países assemelhados ao México, onde a capacidade de exportação é orientada essencialmente para os países industrializados, terão de arcar com o peso de promover uma reestruturação substancial nos próximos anos”, conclui o estudo. “A crise mexicana não é só financeira ou fiscal, é de identidade. Eles precisarão se reconstruir”, afirma Lozardo.

A situação é diametralmente oposta para o Brasil e os países que reúnem características parecidas, caso de Argentina, Peru e Chile. Em comum têm o fato de não dependerem das remessas de residentes no exterior, serem exportadores líquidos de matérias-primas e destinarem uma fatia cada vez maior de suas exportações para outras economias emergentes, especialmente a Ásia. Para o BID, entre os países latino-americanos, este é o grupo que mais tem a ganhar em um cenário no qual o consumo mundial se descola para os países em rápida industrialização. O estudo permite concluir que a política Sul-Sul adotada durante o governo Lula e a gestão de Celso Amorim no Itamaraty, baseada na diversificação de mercados e abertura de novas fronteiras comerciais, é a que promete o futuro mais promissor. O que dirá o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia, o guru dos críticos mais ferozes da opção brasileira, aquela turma que tem um impulso incontrolável para fazer genuflexões quando encontra alguma autoridade europeia ou norte-americana?

Os números impressionam. Liderados pela China, os mercados emergentes, que em 2006 respondiam por metade do crescimento econômico mundial, foram responsáveis por 75% da expansão registrada em 2010. Diante do rápido aumento da renda interna e do acelerado processo de urbanização, são vorazes consumidores de commodities como grãos, carnes, minério de ferro, cobre e petróleo. A inclinação no eixo do crescimento mundial, combinada com o excesso de liquidez, fez com que essas commodities se recuperassem rapidamente do tombo sofrido em 2008 e voltassem a se aproximar das máximas históricas. Os preços do petróleo, dos metais e dos alimentos estavam, ao fim de 2010, 23%, 8% e 35% mais altos, respectivamente, do que em 2006, enquanto o preço dos produtos manufaturados apenas caiu ao longo da última década.

Tal fenômeno criou um cenário novo para os países ricos em recursos naturais, e o Brasil é o exemplo mais evidente. A participação das economias desenvolvidas nas nossas exportações, que era de 50%, em 2006, caiu para 44%, no ano passado. Já a fatia destinada aos emergentes subiu de 50% para 56%. Enquanto as vendas para ricos recuaram 4%, os embarques do Brasil para seus parceiros no BRIC (acrônimo para Brasil, Rússia, Índia e China) quase dobraram, de 9% para 17% do total. Até 2013, preveem os economistas do BID, essa fatia deverá ser de 25%.

O pequeno grau de abertura da economia brasileira às economias centrais, antes apontado como uma fraqueza, mostrou-se uma virtude na crise. Segundo o estudo, entre todos os países da América Latina, o Brasil é o menos exposto à dinâmica dos países desenvolvidos. As exportações de bens e serviços para esses mercados, que no México chega a 28% do PIB, não passa de 5,4% na experiência brasileira.

Isso ajuda a explicar por que o País se recuperou tão rapidamente da crise. Após um leve recuo de 0,2%, em 2009, a produção nacional registrou crescimento de 7,5%, em 2010, com emprego recorde e razoável equilíbrio nas contas públicas. Na média, as economias assemelhadas à brasileira deverão fechar o biênio 2010-2011 com um crescimento de 4,4%. O “grupo brasileiro”, assegura o estudo do BID, está “muito bem posicionado em uma economia em que os emergentes são o motor do crescimento, os preços das commodities são elevados e os capitais internacionais procuram tirar vantagem das perspectivas otimistas”.

Embora promissor, o cenário reserva desafios aos latino-americanos que seguem a trilha brasileira. Se a necessidade na década passada era acelerar o crescimento, após os ajustes realizados nos anos 1990, a tarefa que se apresenta agora é a de conter o otimismo e evitar o sobreaquecimento da economia. Embora tenham secado após a quebra do Lehman Brothers, os fluxos de capital para a região se recuperaram rapidamente e bateram o recorde de 266 bilhões de dólares em 2010. A região já capta um quarto de todo o fluxo de capitais para as economias emergentes – em 2006, respondia por apenas 12%.

Os economistas do BID alertam: a entrada de dólares tende a expandir as linhas de crédito e impulsionar o consumo interno além do desejado, culminando em pressões inflacionárias e na formação de bolhas especulativas. Além disso, tende a apreciar ainda mais as moedas locais, o que pode comprometer a sobrevivência da indústria local – fenômeno conhecido como doença holandesa. Para lidar com o problema, os bancos centrais terão de dispor de uma gama de ferramentas mais ampla do que a simples manipulação das taxas de juro.

A elevação dos juros básicos, como pedem os mercados financeiros, pode ter efeitos colaterais indesejados, como o de atrair ainda mais capitais. Neste contexto, diz o BID, as chamadas “políticas macroprudenciais contracíclicas” podem ser mais bem-sucedidas. A mensagem é clara: medidas como as adotadas recentemente pelo BC brasileiro, como a elevação do compulsório bancário, podem ser mais eficazes se o objetivo é frear a demanda e reduzir o risco de bolhas, embora as tentativas de se controlar a entrada de capitais tenham se mostrado frustradas.

O Brasil tem boas chances de experimentar ao menos uma década de prosperidade, mas não possui qualquer razão para dormir em berço esplêndido. O País ainda carece de uma estratégia de crescimento e inserção internacional de longo prazo. “O Brasil optou por não entrar na Alca, o que me pareceu uma decisão correta, mas o crescimento do comércio com a China foi muito mais um golpe de sorte do que um acerto de estratégia”, afirma Daniela Magalhães Prates, professora do Instituto de Economia da Unicamp.

Lozardo, da FGV, avalia que os governos FHC e Lula concentraram seus esforços na economia interna, primeiro na estabilização, depois na retomada do crescimento e na distribuição da renda. O pesquisador acredita que Dilma Rousseff deverá ser mais ativa no que diz respeito às estratégias de comércio exterior. “Ela vai manter o discurso do multilateralismo, mas deverá buscar parcerias, nos países em desenvolvimento, para explorar os recursos naturais.”

De todo modo, é o caso de se perguntar: que tipo de inserção o Brasil pretende ter nessa nova economia? O convite a exportar matérias-primas para a China, em troca de bens manufaturados, embora tentador, traz riscos não desprezíveis no longo prazo. “Na área industrial, o Brasil enfrenta desafios muito maiores do que antes da crise. Perdemos competitividade e ficamos mais dependentes dos produtos primários. O que uma economia ancorada em commodities pode oferecer do ponto de vista dos ganhos tecnológicos, de produtividade, renda e emprego?”, pergunta Daniela Prates. Para ela, o País precisa não só aumentar sua produtividade industrial como buscar nichos de atuação em que a China não seja a grande concorrente. “Que lugar será ocupado pelo Brasil é a grande questão a ser respondida”, diz a economista. “Tal como o México, nos anos 1990, o Brasil está construindo seu sonho, mas não vai concretizá-lo exportando matéria-prima para a China”, alerta Lozardo. •

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