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A resposta do Brasil à crise na Venezuela é adequada?

por Deutsche Welle publicado 18/06/2015 04h13
Enquanto o governo brasileiro opta pela neutralidade em relação à crise política da Venezuela, senadores da oposição vão a Caracas prestar apoio aos presos políticos
Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Maria Corina Machado e Aécio Neves

E ex-deputada venezuelana Maria Corina Machado durante audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, ao lado do senador Aécio Neves (PSDB-MG)

A Venezuela passa por uma forte crise política há mais de um ano. O governo do presidente Nicolás Maduro tem agido duramente contra as vozes críticas. Vários líderes da oposição foram presos, acusados de incitação à violência em protestos e de conspirar para depô-lo. Organizações de direitos humanos afirmam que as detenções têm motivação política.

Nesse cenário, o governo brasileiro segue a tradicional postura de não intervenção em assuntos internos de outros países. "Nós não somos golpistas no Brasil, nós não somos a favor de interferências e intervenções dentro de países irmãos", afirmou Dilma Rousseff em entrevista à DW Brasil.

A postura cautelosa da presidente tem sido alvo de críticas no Congresso Nacional. Enquanto o governo mantém o tom conciliador, parlamentares brasileiros assumiram uma posição mais contundente: nesta quinta-feira (18/06) senadores do PSBD e do DEM, liderados por Aécio Neves, vão a Caracas em um avião da Força Aérea Brasileira prestar apoio aos oposicionistas presos e pressionar o governo para marcar eleições.

Para analistas ouvidos pela DW Brasil, o governo tem suas razões para agir com prudência em relação à crise política venezuelana. Na opinião de Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, manter-se neutro dá ao Brasil legitimidade para atuar como mediador no conflito.

"O grande desafio em relação à Venezuela não é dizer quem está certo e quem está errado, mas viabilizar uma situação para que o país possa se estabilizar, política e economicamente", afirma, ressaltando que o governo de Maduro foi eleito democraticamente e precisa ser respeitado como tal.

O limiar para interferir nas questões internas de outros países é muito tênue, diz Thiago Gehre Galvão, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB). "Qualquer tipo de declaração dada pode gerar sensibilidade no governo vizinho."

A iniciativa do Senado é positiva, consideram os especialistas, por mostrar que existe uma preocupação de vários setores da sociedade com a crise venezuelana. Eles alertam, porém, que a situação no país vizinho pode acabar sendo instrumentalizada em uma disputa política que pouco tem a ver com a Venezuela em si.

"Os senadores continuam atacando o governo brasileiro, agora no campo da política exterior. Querem pressionar para que o governo se expresse de maneira firme em um conflito que requer certa sensibilidade", diz Thomas Manz, representante no Brasil da Fundação Friedrich Ebert – ligada ao Partido Social Democrata (SPD) alemão. "Essa viagem é voltada para o Brasil, para marcar uma diferença de posições com o governo, não está muito relacionada à busca de uma solução concreta para o conflito na Venezuela", afirma.

Apesar de concordar que a diplomacia brasileira esteja no caminho certo, Stuenkel acredita que o governo poderia fazer mais. "O Brasil tem potencial para uma maior atuação do que a exercida neste momento." Segundo o especialista, o governo deveria usar sua influência como potência regional para pressionar o governo venezuelano a convocar eleições transparentes e garantir um julgamento justo para os presos políticos. Além disso, Stuenkel acredita que Dilma poderia trabalhar para dissuadir a oposição de tentativas de golpe.

Deutsche Welle