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Direitos humanos

A questão da imigração ressurge nos Estados Unidos

por Eduardo Graça — publicado 04/07/2014 03h53, última modificação 04/07/2014 04h10
Centenas de menores de idade da América Central são detidos diariamente na fronteira do Texas com o México. Republicanos pressionam por mais restrições e Obama tenta ações emergenciais
Orlando Sierra / AFP
Imigrante Honduras

Em 2 de julho, garoto hondurenho olha pela janela de um ônibus em San Pedro Sula, em Honduras, após ser deportado dos Estados Unidos

De Nova York

Os avanços pareciam claros. Depois de ter, na prática, deixado o tema de lado em seu primeiro mandato, o então recém-reeleito Barack Obama anunciou que a reforma do sistema de imigração dos Estados Unidos seria a prioridade a partir de 2013. Um arremedo de projeto chegou a ser anunciado no ano passado, entre sorrisos de Obama e do presidente da Câmara, o deputado John Boehner. Nada deu certo.

A semana termina com Obama enviando um pedido de verba emergencial ao Congresso, em recesso por conta do feriado do Dia da Independência, na sexta-feira 4, para combater o que diz ser uma ‘crise humanitária’ com a detenção de milhares de menores de idade oriundos majoritariamente da América Central na fronteira sudoeste do país; denúncias de abusos sexuais e mal tratos a menores nas localidades federais para onde são enviados; uma gafe de proporções gigantescas da principal candidata à sucessão presidencial no flanco democrata; e o reconhecimento do líder do Partido Republicano na Casa dos Representantes de que nenhum projeto será aprovado até a eleição de meio de mandato, em novembro, quando todas as cadeiras da câmara baixa, hoje controlada pela oposição, e um terço do dividido Senado, estarão em jogo.

Ainda que esperado, o impasse se dá em momento delicado, com centenas de menores de idade, em sua maioria oriundos da Guatemala, El Salvador e Honduras, detidos diariamente na fronteira do Texas com o México e a pressão da direita, canal de tevê Fox News à frente, para um endurecimento do combate à imigração ilegal no país, com repercussão clara na corrida presidencial de 2016 e nas eleições de novembro. A direita americana vive dilema labiríntico: ao mesmo tempo em que bravatas xenófobas, como ‘deportação voluntária’, funcionam bem em pleitos locais, como o de novembro, estas se traduzem em suicídio eleitoral nas disputas majoritárias, com os hispânicos sendo o grupo étnico que mais cresce nos EUA.

Por outro lado, a diminuição da imigração mexicana desde a crise financeira global, que parecia ter arrefecido o ânimo de comentaristas ultraconservadores, foi substituída na agenda da direita nativista pela aparição dos menores de idade na fronteira sul do império. Os democratas, de olho na fatia maior do eleitorado, e os independentes de centro se equilibram entre o combate à imigração ilegal e a necessidade de transformarem em eleitores trabalhadores que pagam impostos mas não desfrutam de qualquer direito – inclusive o do voto – na vida semilegal na América.

E a imagem produzida pelo New York Times e reproduzida na quinta-feira 3 por vários órgãos da imprensa local, incluindo o site Daily Beast, revela a singularidade – e o aumento do poder de comoção – da nova leva de imigração ilegal via Rio Grande: dezenas de crianças de todas as idades, uma com a camisa de um time de futebol centro-americano em plena Copa do Mundo, se protegem do sol inclemente do verão do Hemisfério Norte – a sensação térmica, no sul do Texas, na primeira semana de julho, chega a 40 graus – enquanto dois oficiais armados escutam suas histórias, anotam seus dados, se preparam para enviá-los para centros de detenção já funcionando em capacidade máxima.

De acordo com o Los Angeles Times, até dezembro pelo menos 90 mil imigrantes ilegais, em sua esmagadora maioria menores de idade e oriundos da América Central, deverão tentar cruzar a fronteira norte-americana. Estes se subdividem em grupos de até 200 meninos e meninas – acompanhados por poucos adultos, em sua maioria mães mais zelosas e desesperadas o suficiente para se arriscarem na travessia por todo o México e enfrentarem os riscos de entregarem suas vidas nas mãos de coiotes cuja clientela nas últimas duas décadas era majoritariamente mexicana. Como a travessia tem extensão maior, as estimativas são as de que, para cada criança enviada, as famílias paguem mil dólares, excluídas despesas com alimentação. Na reportagem do principal diário do oeste dos EUA, uma das mães entrevistadas disse que não temia ser detida pela Imigração, já que pretendia ficar no país tempo suficiente para garantir uma cirurgia ocular para o filho de nove anos, inexistente em seu país natal.

Epidemia para a direita, crise humanitária para o governo Obama, o fato é que a chegada, de acordo com as autoridades locais, de em média de 35 mil menores e mães ao Vale do Rio Grande a cada mês desde o começo da primavera já contaminou a disputa política. Sinal disso é o reaparecimento da recorrente referência à entrada e assimilação de populações bárbaras no Império Romano e a mais original comparação à romanceada narrativa da Cruzada dos Meninos na Idade Média.

A ex-secretária de Estado Hillary Clinton, em meio ao lançamento de sua auto-biografia, em entrevista à CNN, disse que “Washington precisa mandar uma mensagem clara aos pais destas crianças: não é porque elas conseguem passar pela fronteira que viverão nos EUA”. A declaração causou celeuma entre ativistas hispânicos, especialmente quando dados iniciais oferecidos pelos próprios agentes da fronteira revelaram um número significativo de crianças e mães dispostas a cruzarem o México – também ilegalmente – para entrar nos EUA com o objetivo de viverem ao lado dos pais e maridos, já inseridos, ainda que sem documentação legal, na economia americana. Um claro aceno para o eleitorado mais conservador, a declaração foi interpretada como mais um sinal de que a campanha Hillary-2016 (a todo vapor, embora a ex-primeira-dama não tenha ainda anunciado se vai disputar as primárias democratas) se pautará pelas diferenças políticas entre a mulher de Bill Clinton e a atual administração democrata.

Já durante a disputa contra Mitt Romney, Barack Obama exerceu a prerrogativa do poder executivo para, sem necessidade de confirmação na obstrucionista Casa dos Representantes de maioria republicana, anunciar o programa de estudos de terceiro grau para os ‘dreamers’. A medida lhe ajudou a garantir 71% do voto dos eleitores hispânicos, fundamentais para garantir sua vitória em novembro de 2012. Os ‘sonhadores’, como se autodenominam, são estudantes trazidos ilegalmente para os EUA quando menores de idade, em sua maioria de origem latino-americana, impedidos, por não serem documentados, de receber um diploma universitário. A medida já é apontada à direita como possível motivadora para o aumento de imigração ilegal infantil na fronteira sudoeste do país.

Na mesma entrevista para a CNN, Hillary Clinton afirmou que as deportações de imigrantes, uma constante nos anos Bush, no auge das chamadas ‘guerras culturais’ que pautaram o debate político – incluindo o casamento gay, o direito ao aborto e a descriminalização das drogas – vinham diminuindo gradualmente na administração Obama. Uma inverdade apontada imediatamente pela organização United We Dream. Jamais na história deste país tantas famílias foram separadas por conta do impasse na reforma do sistema de imigração. À esquerda, esta é, juntamente com a deterioração social e política dos três países centro-americanos – especialmente Honduras, que sofre um período de crise institucional desde o golpe de Estado de 2009, apoiado por Washington – a justificativa para “a maior leva de imigração ilegal que vi nos últimos 14 anos” de acordo com um oficial de fronteira do Vale do Rio Grande entrevistado pelo Los Angeles Times. Até a última semana de junho, foram detidos 52.193 menores de idade na fronteira texana, um aumento de quase 100% em relação ao mesmo período em 2013.

O mesmo entrevistado tem de interromper a conversa com a repórter para resgatar uma família de guatemaltecos – mãe, filho adolescente, e filha de colo  – de uma área pantanosa, repleta de tarântulas e cobras. Uma menina hondurenha de 12 anos conta que pior do que a travessia por 15 dias ao lado da irmã de oito foram os dias de detenção no lotado Centro McAllen, no Texas, “em que passamos quatro dias sem poder tomar banho ou sequer escovar os dentes”. Criados para ocupação de no máximo 250 imigrantes/dia, os centros da fronteira estão recebendo até 1.500 pessoas no mesmo período, em sua maioria menores de idade.

Mais grave: em uma denúncia oficial protocolada no dia 11 de junho, a American Civil Liberties Union (ACLU), juntamente com outras quatro entidades voltadas para a defesa de imigrantes nos EUA, dá conta de relatos de abusos sexuais e físicos, exposição a temperaturas desumanas, privação de água e de alimentação adequada, por menores de 5 a 17 anos sob custódia do governo americano.

De olho nas eleições de novembro, a principal resposta do governo Obama foi o anúncio da abertura imediata de mais um centro de detenção provisória na região – por lei, as autoridades não podem deter menores não-documentados por mais de 72 horas – e o envio, na segunda-feira, ao Congresso, de um pedido de fundo de emergência de 2 bilhões de dólares para acelerar a deportação de menores não-mexicanos de volta a seus países de origem. Os mexicanos, por conta da fronteira, já fazem parte do ‘programa acelerado’. A resposta da American Civil Liberties Union (ACLU) veio de bate-pronto: o foco da discussão deveriam ser os direitos e o bem-estar de crianças e adolescentes em risco em seus países de origem, ao atravessar o México e, quando conseguem, ao adentrarem os EUA, muitas vezes em buscas de seus pais. “Boa parte das crianças que atravessam as fronteiras buscam proteção, refúgio contra a violência que as aflige em seus países de origem. A lei internacional prevê que o clamor destes menores de idade seja considerado de forma justa pelas autoridades americanas. Eles não podem ser jogados em linhas de produção, escutados de forma improvisada e devolvidos imediatamente para seus países”, denunciou a diretora do escritório da entidade em Washington, Laura W.Murphy.