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A primeira resposta

por Ricardo Carvalho — publicado 28/09/2011 17h15, última modificação 28/09/2011 18h19
Israel anuncia novos assentamentos na Cisjordânia, sinalizando que, ao contrário do defendido por Benjamin Netanyahu, tem pouca disposição para dialogar

Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, se convenceu de que os Estados Unidos não são mediadores, mas parte do conflito Israel-Palestina. A frase, do colunista do jornal espanhol El País M. Á. Bastenier, ilustra bem os motivos que levaram Abbas a propor unilateralmente o reconhecimento do Estado Palestino diante da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (Onu). Quando foi eleito presidente, Barack Obama, então dono de um discurso a prometer aproximação e diálogo com os povos do Oriente Médio, era visto por Abbas e pelos palestinos como a esperança por novas abordagens nas negociações de paz. Por fim um governante norte-americano estaria disposto a pressionar Jerusalém pelo fim das construções de assentamentos judeus em território ocupado, pré-condição palestina para a retomada do diálogo. Não foi o que aconteceu. Como seus antecessores, Obama percebeu que é preciso mais do que palavras de boa vontade para avançar em qualquer resolução da disputa e que, diante da proximidade de sua tentativa de reeleição em 2012, seria demasiadamente imprudente descontentar os interesses do lobby pró-Israel em seu país. 

Caso venha a se sentar à mesma mesa do premiê Benjamin Netanyahu e dialogar sem pré-condições, como defendeu cinicamente o líder israelense em Nova York, Abbas será conivente com as constantes agressões israelenses no território ocupado, isto é, para além da linha verde, demarcação territorial das fronteiras anteriores à guerra de 1967. Agressões que, mal o documento pelo reconhecimento palestino foi apresentado à Onu, na sexta-feira 23, ganharam um novo capítulo.

O comitê regional de habitação de Jerusalém aprovou, nesta terça-feira 27, a construção de 1,1 mil novas residências para colonos judeus em Gilo, bairro na zona oriental da capital e em território que pertenceria ao futuro Estado Palestino. Um porta-voz do Ministério do Interior israelense argumentou que o plano de expansão estava há 60 dias em estágio de consulta pública e que seu anúncio se deve ao cronograma do projeto, não a pressões políticas. Entretanto, não faltaram vozes a acusar a medida como a primeira retaliação israelense contra a jogada dos palestinos na Onu, um sinal de que algo profetizado pelo próprio Abbas pode vir a acontecer. Como um Davi que desafia um Golias, tempos difíceis esperam a população palestina da Cisjordânia. A construção dos novos assentamentos deve ocorrer a partir de 2013.

O anúncio da ampliação dos assentamentos ocorre um dia depois de o Conselho de Segurança da Onu concordar em designar uma comissão para estudar o pleito pelo reconhecimento de um estado da Palestina. Normalmente, o processo levado a cabo pela comissão integrada por todos os 15 países membros do Conselho dura ao redor de 35 dias, mas diplomatas ocidentais já admitiram que o prazo pode ser bastante ampliado para o atual caso.

Principal aliado de Israel, os Estados Unidos se limitaram a protestar e classificar os novos assentamentos de “contraproducentes para o reinício de negociações diretas”. O Departamento de Estado defendeu que a expansão das construções em solo ocupado é corrosiva para o próprio Estado israelense.

A retórica norte-americana parece cada vez mais frágil. Na Assembleia Geral da Onu, Obama repetiu mais uma vez o mantra de que a paz não virá de nenhuma ação unilateral por parte dos palestinos. Acontece que a Palestina convive diariamente com ações unilaterais do outro lado, como mostra a expansão dos assentamentos e o constante relato de ataques por partes de colonos a mesquitas na Cisjordânia. Obama afirmou neste ano que acreditava num acordo de paz baseado nas fronteiras anteriores a 1967, simbolicamente um dos maiores avanços já dado por um líder norte-americano. Mas seu discurso perde credibilidade na medida em que praticamente nenhum avanço é alcançado na contenção dos assentamentos judeus na Cisjordânia, o principal pleito palestino para reiniciar as conversações.

Apesar do discurso de Benjamin Netanyahu ter sido uma tentativa bastante evidente de vitimar-se perante a comunidade internacional, alegando que seu governo sempre esteve disposto a estender a mão aos palestinos, Ramallah também tem pontos frágeis a serem resolvidos que, de certa forma, dão combustível à intransigência israelense. À sombra da aliança política que permitiu a reconciliação entre Hamas e Fatah, a insistência do grupo que governa a Faixa de Gaza em não reconhecer a existência do Estado judeu serve de justificativa para Jerusalém alegar que o retorno às fronteiras de 1967 trariam insegurança a Israel.

Após uma moratória de dez meses, o governo israelense retomou a construção de assentamentos judeus na Cisjordânia há um ano. O reinicio do avanços dos assentamentos foi a justificativa da Autoridade Palestina para abandonar a negociações pela paz.

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