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Inspiração árabe leva jovens às ruas em Israel

por Clara Roman — publicado 27/07/2011 14h53, última modificação 02/08/2011 09h56
Manifestações unem médicos, religiosos e classe média na revolta contra preço de alugueis e cortes em benefícios sociais
Inspiração árabe leva jovens às ruas em Israel

Manifestações unem médicos, religiosos, classe média e imigrantes na revolta contra preço de alugueis e cortes em benefícios sociais. Por Clara Romam, em Tel Aviv. Foto: David Buimovitch/AFP

Em Tel Aviv

Depois das revoluções no Oriente Médio que inspiraram protestos em diversas cidades na Europa, chegou a vez de Israel viver a sua “primavera” de manifestações. Desde a quinta-feira 21, israelenses montam suas barracas na avenida Rothschild, uma das principais vias de Tel Aviv, para protestar contra o aumento no preço dos aluguéis e o corte de benefícios sociais.

O movimento segue o formato dos demais: convocado pelo Facebook, não há lideranças políticas definidas nem porta-vozes. Tudo começou quando Daphni Leef expôs a sua revolta com o aumento do seu contrato de aluguel na rede social e anunciou que iria montar uma barraca na avenida Rothschild. Em pouco tempo, 30 mil prometiam continuar o movimento e se instalar na via, símbolo histórico e ponto turístico da cidade. O movimento se espalhou pelo interior do país e já pressiona as autoridades.

"É um movimento espontâneo" diz Lily Gilan, uma das participantes. Para Phelipe Zundeloxitch, os protestos sinalizam que a grande questão do país é interna e que as pessoas estão começando a perceber isso. O movimento tem como alvo, por exemplo, a precarização dos serviços de saúde e educação, intensificada com as privatizações promovidas pelo governo israelense nos últimos anos.

Zundeloxitch, de 25 anos e recepcionista de hotel, reclama que teve de voltar a morar com os pais algum tempo depois de concluir o serviço obrigatório no exército por não conseguir mais pagar o aluguel.

O discurso, e as reivindicações, expõem um movimento que deixa clara a insatisfação da classe média com os governantes locais. Ao longo dos dias, os protestos ganharam a simpatia e o apoio – exemplo disso é que os manifestantes são abastecidos com alimentos fornecidos por um supermercado da região. O preparo da comida é feito em uma cozinha coletiva improvisada na avenida. Banheiros químicos também foram instalados para atender os acampados.

"Não podemos mais confiar nesse governo", diz Zundeloxitch, que acredita que as pessoas só deixarão o local depois de derrubar o governo de Benjamin Netanyahu. "Estamos assistindo a um momento histórico de mudanças no país".

Netanyahu já anunciou que fará modificações no modelo de moradia, segundo informações da agência Associates Press. Ele propõe, por exemplo, instituir benefícios sociais para que os estudantes possam bancar a própria moradia. O projeto, no entanto, é considerado insuficiente pelos manifestantes. Para Zundeloxitch, a intenção do governante é unicamente esvaziar o movimento.

As barracas ocupam quase toda a extensão da avenida. Em cada esquina, rodas de leituras e discussões se alternam com grupos tocando música clássica; caixas de som com canções latinas são ouvidas no último volume. O movimento conta com a participação até mesmo de judeus ortodoxos, já que até mesmo os religiosos se dizem prejudicados com reformas recentes implementadas pelo governo Netanyahu. Até pouco tempo, argumentam eles, os estudiosos da Torah eram subsidiados quase que completamente pelo governo de Israel para dedicar a vida à religião. Agora, no entanto, parte desse beneficio foi cortado e muitos tentam agora se inserir no mercado, depois de uma vida inteira desconectados da educação formal. Médicos residentes também fazem coro aos protestos com uma greve por aumento de salário e melhoria das condições de trabalho.

Os efeitos dos protestos já podem ser notados por quem anda em Tel Aviv. Nas últimas semanas, por exemplo, caíram os preços da gasolina e do queijo cotage, espécie de patrimônio nacional.

No sul

A alguns minutos da elegante Rothschild, em Levinski, no sul de Tel Aviv, o cenário se modifica. No bairro, onde mora a maioria dos refugiados sudaneses e não-judeus, a preocupação é com a situação dos imigrantes. Políticos conservadores afirmam que desde a chegada dos sudaneses, a criminalidade e a pobreza têm aumentado. O aumento da população não-judia é visto com preocupação por parte dos israelenses, enquanto os movimentos progressistas lutam para  expandir os direitos dos imigrantes – que ainda não têm seus direitos civis garantidos, são usados como mão-de-obra barata e usufruem de péssimas condições de moradia e infraestrutura urbana.

Uma das críticas ao protestos que eclodiram no pais foi justamente o fato de as reivindicações terem partido de classes mais abastadas. Por isso, alguns ativistas e militantes da causa dos refugiados tentam inserir nesse movimento a população pobre da cidade.

Na terça-feira 26, um grupo iniciou a montagem de barracas em uma praça em Levinski, onde usualmente dormem os moradores de rua da região. "Eles sofrem com os mesmos problemas que os mais ricos", diz Amalya Siton, 41. "Quando querem deslegitimar o movimento, os políticos sugerem: ‘vão morar no sul de Tel Aviv, onde o aluguel é mais barato’”.

“Queremos mostrar que as coisas aqui também são problemáticas", diz Zundeloxitch.

A praça fica ao lado de um posto da polícia, que já desmontou barracas montadas em dias anteriores. "Não importa. Se eles desmontam, nós montamos de novo", diz Zundeloxitch.

Ao lado de um parquinho, onde naquela tarde brincavam crianças sudanesas, os ativistas montavam suas barracas. O objetivo era atrair os moradores da região, que legitimaria o movimento criticado até aqui por reunir apenas demandas da elite.

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