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A paralisação do governo inicia a corrida presidencial nos EUA

por Eduardo Graça — publicado 01/10/2013 03h40
Às vésperas da eleição de meio-termo que pode jogar o Senado no colo dos republicanos, potenciais candidatos à sucessão de Barack Obama se movimentam com extrema atenção
AFP
Obama

Barack Obama sofre derrota no Congresso e governo dos EUA é paralisado

De Nova York

Um presidente impopular e um Congresso ainda mais, com índices recordes de desaprovação. Oitocentos mil funcionários públicos alijados, nesta terça-feira 1, tanto de seu dia de trabalho quanto do equivalente a seus salários no fim do mês. Cerca de um milhão de servidores convidados a trabalhar sem receber. Serviços públicos essenciais cortados indefinidamente. Um prejuízo estimado pela Casa Branca em 10 bilhões de dólares por semana. E o tic-tac dos relógios - onipresentes na cobertura televisiva nos EUA das 24 horas anteriores à paralisação do governo da maior economia do planeta. E os relógios já estão reposicionados para a contagem regressiva ainda mais assustadora da economia mundial: em 17 de outubro acaba o prazo para o Legislativo autorizar a elevação do teto de endividamento de Washington.

O cenário catastrófico, justamente no momento em que a economia americana oferece sinais de recuperação mais sólidos, não é, porém, resultado apenas de um processo de chantagem política orquestrada pela oposição - narrativa preferida da administração Obama -, e sim de um gigantesco impasse político desenhado no segundo governo Bill Clinton e cristalizado na Era Obama. Às vésperas da eleição de meio-termo que pode jogar o Senado no colo dos republicanos, potenciais candidatos à sucessão de Barack Obama se movimentam com extrema atenção naquela que parece ser a semana política mais importante de 2013 para democratas e republicanos (Leia mais abaixo).

O ‘fechamento’ do governo americano não é fato inédito. Ocorreu pela última vez há quase duas décadas, justamente quando uma leva de republicanos conservadores ocupou postos na Câmara Baixa do Legislativo na onda anti-Clinton. Depois de 40 anos de domínio democrata, a direita conseguiu não apenas uma histórica maioria, como o poder de desenhar, desde então, os distritos eleitorais do país.

O resultado prático é a disparidade entre o voto popular e a eleição de representantes legislativos, estado a estado. Computados de forma nacional, ou estado a estado, os votos das eleições-gerais do ano passado, que garantiu a reeleição de Barack Obama, também foram majoritariamente para os governistas. Os democratas tiveram 1.4 milhões de votos para a Câmara dos Representates a mais do que os Republicanos, mas, por conta do mapa eleitoral, que decide o tamanho e a composição étnica dos distritos, seguiram minoritários.

O pleito de 2012, se analisado com cuidado, revela uma tendência preocupante para a democracia americana: por conta do crescimento do poder de voto das minorias étnicas, parcela da população mais afinada com a defesa do arremedo de Estado de Bem-Estar Social cerzido pelos governos democratas de F.D.Roosevelt, Lyndon Johnson e Obama, é quase impossível um republicano moldado nos anos George W. Bush – crítico do neo-conservadorismo de ‘compaixão’ pregado pelo ex-governador do Texas, estigmatizado como traidor do reaganismo ao aumentar de forma decisiva o tamanho e a importância do Estado – ser eleito presidente.

Ao mesmo tempo, se as manobras republicanas reduziram para 79 as cadeiras de fato em disputa para a Câmara durante a Era Clinton, hoje, de acordo com especialistas dos dois lados do flanco político, este número não passa de 17. As outras 418 cadeiras estão em distritos majoritariamente democratas (193) ou republicanas (225). Somente um cataclismo eleitoral, quiçá resultante de uma obstrução tal do governo que leve a maioria da população a culpar os republicanos, alteraria o quadro. As verdadeiras disputas eleitorais se dão, de fato, antes das eleições, nas primárias partidárias, com a radicalização ideológica, mais marcada, desde 2010, no flanco republicano. Moderados são uma espécie em extinção na Casa dos Representantes, o que dificulta enormemente quaisquer tentativas de acordos com a Casa Branca.

A disputa de fato pela balança de poder nos EUA, hoje, com a Suprema Corte de maioria conservadora e a maioria dos juízes federais apontados por presidentes republicanos, se dá no Senado. Por isso a decisão da extrema-direita de cerrar barricada na aprovação do orçamento para o ano fiscal vindouro desde que os democratas concordem em adiar em um ano – justamente no mês final de campanha das eleições de meio-termo que renovarão a Câmara Alta do Legislativo em 2014 – o início do funcionamento do novo sistema de saúde batizado pelos republicanos, em tom pejorativo, de Obamacare.

Principal legado em política interna da administração Obama, a reforma da Saúde, mal vendida por Washington e repleta de concessões à indústria dos planos privados, se tornou bandeira eleitoral preciosa para os republicanos, especialmente por ser centrada na obrigatoriedade – o “mandato” – da aquisição do plano por todo cidadão maior de idade e com renda acima do nível de pobreza. A lógica econômica possível acabou galvanizando tanto o Tea Party quanto os libertários, avessos a qualquer ingerência do governo em suas vidas. Se em um ano a opinião da maioria da população, ainda desconfiada dos resultados práticos do novo sistema, for favorável ao Obamacare, os republicanos perderão sua principal galinha dos ovos de ouro e a possibilidade de tomarem o Senado das mãos dos democratas.

Daí o risco, mais ou menos calculado, e não compartilhado por todos os presidenciáveis do partido de se jogar com o fechamento, por mais paradoxal que pareça para uma agremiação política, de uma atividade por eles considerada supervalorizada: a administração do Estado.

 

Rumo a 2016

Os pré-candidatos Republicanos


Chris Christie –
O gorducho governador de Nova Jersey foi das vozes mais críticas à direita da possibilidade de fechamento do governo. Alertou para os resultados práticos do impasse no momento em que a economia americana, e a de seu estado, começam a melhorar de forma mais sólida. Christie disputa a reeleição em Jersey este ano contra uma candidata democrata menos popular e precisa, alavancado pela ação decisiva, ao lado de Obama, na recuperação da orla depois da tragédia do furacão Sandy, vencer com uma vantagem larga para se posicionar como a alternativa natural ao centro, capaz de angariar votos de independentes e democratas insatisfeitos com o candidato governista à sucessão de Obama. Também aposta em uma repetição do cenário de 2011-12, quando a ala mais conservadora do partido se dividiu entre candidatos regionais, sem projeção nacional, abrindo alas para Mitt Romney. Ao contrário do ex-governador de Massachusetts, no entanto, Christie não tem tradição de ceder à extrema-direita, sendo comumente hostilizado pelo Tea Party.

Pontos fracos: a radicalização da militância republicana, que deve ser ainda mais forte nas primárias do que há quatro anos, e a recente decisão de uma juíza federal do estado de exigir que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja reconhecido, com base na decisão da Suprema Corte no início do ano. Christie é favorável a um plebiscito sobre o tema. Os democratas o acusam de querer que a população decida um direito civil de minoria, atitude anti-democrática, e transforaram o tema em bandeira eleitoral.

Ron Paul – Quem cobriu as eleições de 2012 sabe que não houve militância mais animada e dedicada no flanco republicano do que os libertários da tropa do ex-deputado texano Ron Paul. Até o ano passado o médico do Kentucky era conhecido justamente pela postura política heterodoxa de seu pai, um defensor ardoroso das liberdades individuais (entre seus devotos estão tanto favoráveis ao consumo liberado da maconha quanto isolacionistas em política externa, além de nacionalistas xenófobos anti-imigração). Sua atividade política no Senado, no entanto, ampliou a base política do pai. Crítico fervoroso tanto dos programas de espionagem da NSA quanto de qualquer aumento em impostos e um dos mais ardorosos opositores do Obamacare, ele aposta em uma união entre libertários e Tea Partiers para cristalizar sua candidatura.

Ponto fraco: Paul é do Kentucky, um estado sulista, de peso eleitoral pequeno, já na base do partido, e tem projeção ainda local. Sua visão econômica e política, especialmente sua oposição ao aparato militar americano, é vista com extrema desconfiança tanto pelo empresariado quanto pela classe média branca trabalhadora, militares aí incluídos, duas bases importantes do partido.

Ted Cruz – O senador do Texas se transformou no principal defensor da paralisação do governo esta semana no flanco republicano. De origem hispânica, tem criticado tanto democratas quanto republicanos moderados, favoráveis ao estabelecimento de uma ponte com Washington, especialmente as lideranças na Casa dos Representantes e no Senado. Radical, celebrado pelos puristas do Tea Party, parece jogar ora com a possibilidade de se tornar o representante natural da extrema-direita na disputa de 2016, ora com a estratégia de usar sua primeira temporada no Senado, onde segue cada vez mais isolado, para assumir a liderança do partido no estado de maior importância do eixo sul-oeste dos EUA.

Pontos fracos: É constantemente criticado por setores mais experimentados do próprio partido como um arrivista, mais oportunista do que fato interessado em um aprofundamento do debate em torno das grandes questões nacionais.

Outros Nomes – Coincidência ou não, dois dos nomes mais lembrados para a sucessão de Obama na oposição, o ex-candidato a vice-presidente na chapa de Mitt Romney, deputado Paul Ryan, e o senador Marco Rubio, da Flórida, nome de destaque na discussão da reforma da Imigração, mantiveram postura mais discreta durante o debate em torno da paralisação do governo. Os dois são críticos ferrenhos do Obamacare, campeões do Tea Party, afinados com a ala mais conservadora do partido, mas parecem mais interessados em se apresentarem como articuladores possíveis em uma resolução da crise de governança federal. Será interessante observar a movimentação dos dois nos próximos dias.

 

Candidata Democrata

 

Hillary Clinton – A comparação não é exata, mas é a que melhor ilustra o momento político da ex-secretária de Estado em relação à sucessão presidencial. Chappaqua, a cidade do estado de NY onde vivem os Clinton, está para a candidata derrotada por Obama nas primárias em 2008 como São Borja estava para Getúlio Vargas em 1949. Ninguém duvida de que os Clinton estão interessados em 2016, mas eles gostariam de disputar, desta vez, não apenas com o apoio da Casa Branca e da máquina dos Obama, a quem Hillary Clinton serviu com dedicação, como com a de todo o partido. A desejada unanimidade pode ser complicada especialmente pelas ambições do vice-presidente Joe Biden, visto como uma figura popular e mais afinada com a classe média. No momento, no entanto, não há outro nome no flanco democrata tão forte que já não seja, ele próprio, afinado com os Clinton, como o governador de Nova York, Andrew Cuomo, afilhado político de Bill, e o candidato-líder nas pesquisas à prefeitura da maior cidade do país, Bill de Blasio, cujo batismo de fogo na política nacional foi justamente o comando da campanha de Hillary ao Senado em 2000.

Pontos Fracos: A idade (terá 68 anos na campanha), a derrota nas primárias em 2008, a sombra de corrupção e favoritismo pessoal que acompanha os Clinton desde sempre e a certeza de que, em tempos de polarização do eleitorado, Hillary Clinton não atrai votos do flanco republicano. Mas, no momento, não há candidato tão forte quanto a ex-senadora. Por isso mesmo, de Chappaqua, somente Bill tratou das querelas entre democratas e republicanos em torno do fechamento do governo. Hillary preferiu aparecer, belíssima, na capa da "New York", em um sorriso, afirmando na capa que "eu e Bill estamos apenas aproveitando as coisas ordinárias do dia-a-dia".