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A opressão na Palestina

por Emiliano José — publicado 13/01/2009 17h17, última modificação 01/09/2010 17h22
Fico aqui refletindo sobre o sentimento do mundo.

Fico aqui refletindo sobre o sentimento do mundo. Penso em Hannah Arendt , judia, intelectual, que escreveu obra magistral sobre o totalitarismo. Ela, que se opunha à barbárie, adepta da civilização, contra a aniquilação do ser humano, naturalmente contra o massacre perpetrado contra judeus, comunistas, homossexuais e outros tantos que se considerassem distantes da raça ariana, o que diria do genocídio bárbaro praticado pelo Estado de Israel nesses dias? Tenho certeza que o condenaria, sem vacilações, tanto quanto o fez em relação ao terror nazista.

Tenho lido, assistido algumas manifestações em variados países contra os crimes do Estado israelense. Nada, no entanto, proporcional à violência genocida, que não escolhe vítimas, e que tem implicado no assassinato – e há outro nome possível? – de dezenas de crianças inocentes. Há ou não há semelhança com as práticas nazistas? Tem algo a ver ou não com o holocausto? Os cadáveres infantis chocam a todos os que tenham alguma sensibilidade.

Até o dia 12 de janeiro deste ano da graça de 2009 registravam-se aproximadamente mil vítimas, a maioria civis. Dirigentes da ONU tiveram que ordenar a suspensão de suas atividades na área devido ao assassinato de um de seus funcionários durante um dos ataques israelenses. Minha sensação, e não creio estar errado, é que há amortecimento da sensibilidade diante desses horrores.

Volto a Hannah Arendt, e recupero a idéia da banalidade do mal. Parece que há, neste momento, uma razoável dose de insensibilidade diante do terrorismo do Estado israelense. Sim, terrorismo. Matar tantos civis, e, sobretudo, tantas crianças, nessa incursão na faixa de Gaza é sem dúvida terrorismo. Por definição óbvia. Por que há tanto silêncio? Por que há quem diga que se trata apenas de uma reação? Por que, neste caso, a condenação é tão débil? E por que, me pergunto, há esse silêncio atordoante dos intelectuais? No Brasil e no mundo.

Será que poderíamos dizer que não temos nada com isso? Será que podemos, todos nós, bancar Pôncio Pilatos, para recuperar a tradição cristã? Lavar as mãos, como se o sangue dos inocentes não nos dissesse respeito? Reflito sobre o sentimento do mundo. E creio que a sensibilidade não é algo que venha naturalmente do coração de cada um. É construída socialmente. Vivemos num mundo midiático, onde vale a muito mais a emoção construída por uma novela – ao menos no caso brasileiro – do que a morte de tantos inocentes, mesmo que essa morte apareça na nossa cara a cada minuto. Banalidade do mal.

Lembro-me de Victor Meyer, militante do PT, intelectual, que morreu em 2001 precocemente. Em 1999, ele estava em Paris, fazendo o seu doutorado. Assistia a barbárie da guerra contra a Iugoslávia. Contei isso num livro que lancei recentemente – Galeria F – Lembranças do mar cinzento, terceira parte. Victor viu tudo do começo ao fim, num camarote de horrores, e o camarote era uma cadeirinha em frente à TV. Na tela, Victor via diariamente aquele terror sem limites. E para estupefação de Victor, o Le Monde publicou uma pesquisa que revelava o apoio da maioria dos parisienses aos bombardeios da OTAN, com a participação francesa.
Victor Meyer, às vésperas de viajar para a França, lera uma retrospectiva dos manifestos dos intelectuais franceses, suposta tradição de independência crítica simbolizada com o Eu acuso, de Zola. Imaginava ele, agora, diante daquela guerra de horrores, que chovessem manifestos da intelectualidade francesa contra tudo aquilo. Não choveu. Reinou, isso sim, um notável silêncio dos grandes intelectuais diante da guerra. Foi-se o tempo do Eu acuso. Foi-se o tempo de Zola. Era o tempo da omissão, que fazia par com a cumplicidade. Recupero isso de modo a desenvolver a reflexão sobre a barbárie do Estado israelense.

O silêncio de grande parte da intelectualidade, a quase conivência, seria explicado de que maneira? Será que isso se deve ao fato de os judeus terem sido vítimas do holocausto, da barbárie nazista? Será parte de alguma consciência culpada? Não, nada explica. Que se reafirme a revolta contra o holocausto praticado pelos nazistas, se necessário for. Mas que não se justifique outro, como esse praticado pelo Estado israelense, esse genocídio inconcebível.

Para outra vez recuperar tradições bíblicas, trata-se de uma verdadeira guerra de David contra Golias. As imagens falam por si. Meninos com pedras contra a mortífera máquina de guerra de Israel, sempre alimentada e apoiada pelos EUA. Há, paralelamente ao massacre sangrento perpetrado pelo Estado israelense, também um massacre ideológico, pretendendo que no caso de Israel trate-se apenas de uma reação defensiva, enquanto que as iniciativas dos palestinos devam ser rotuladas de ações terroristas.

Claro que aqui o Estado israelense conta com a participação decisiva da mídia, que endossa essa visão, embora não tenha como esconder a matança de inocentes, particularmente de crianças. O terrorismo sempre está associado aos palestinos. Israel escapa desse conceito, mesmo que do ponto de vista concreto, sua máquina de guerra execute uma bárbara incursão terrorista, atacando civis de maneira indiscriminada, como provado está.

O governo brasileiro tem tido uma atitude firme, positiva, trabalhando pela paz, e não vacilando em condenar a matança de civis. Não basta apenas dizer que deva haver uma convivência entre o Estado israelense e os palestinos.

O que cabe, particularmente à sociedade civil, num momento como este, de matança indiscriminada de civis e de crianças, é a condenação sem meios-termos desse terrorismo, dessa barbárie absurda. Não é o primeiro massacre de palestinos. Não é a primeira agressão do Estado israelense. É necessário encontrar os caminhos para a paz, de fato. No entanto, isso só será possível com outra atitude de Israel. Enquanto persistir a solução militar, enquanto perdurar a matança de inocentes, não haverá solução política. Nunca.

A paz só virá como conseqüência de uma postura genuinamente política, de um esforço verdadeiro em favor da negociação, da disposição de ouvir. A força das armas não impõe a paz, por maiores que sejam as armas. As lições da história estão aí para provar isso. Os EUA patinam no Iraque, como já foi derrotado no Vietnã, apesar de sua fabulosa máquina de guerra. Os massacres repetidos de Israel não pacificaram a região. Paz, só pela política. A guerra não interessa à humanidade.