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México

A militarização da guerra às drogas é a culpada por sequestros e assassinatos

por Agência Pública — publicado 17/03/2011 08h40, última modificação 17/03/2011 08h44
O homicídio da defensora de direitos humanos Josefina Reyes Salazar, na cidade de Juárez, foi seguido de contínuos ataques à sua família

O homicídio da defensora de direitos humanos Josefina Reyes Salazar, na cidade de Juárez, foi seguido de contínuos ataques à sua família

Por Fernando León e Erin Rosa, do Narco News

O recente sequestro e assassinato de três familiares relacionados com a morte da defensora de direitos humanos em Chihuahua trouxe à luz o papel do Exército mexicano em seu trabalho policial e de luta na guerra contra as drogas. Nas reportagens sobre o tema em meios nacionais e internacionais, ficaram escondidas as informações de que os soldados na cidade de Juárez estão envolvidos com assassinatos e sequestros para silenciar aqueles que os acusam de corrupção.

Os membros da família Reyes Salazar acusaram o Exército de um grande número de atos ilegais, incluindo extorsões, assédio e assassinatos. Nos últimos três anos, seis membros da família foram assassinados. Todos os incidentes envolvem circunstâncias suspeitas, ocorridos depois que a família começou a denunciar o Exército por abusos aos direitos humanos.

“Quero que saibam que a militarização é, em grande parte, a culpada por tanta extorsão, sequestros e assassinatos que estão ocorrendo na cidade de Juárez”, disse Marisela Reyes Salazar em uma entrevista à Narco News. A irmã de Maristela, Malena, seu irmão Elías e sua esposa, Luisa Ornelas Soto, foram sequestrados no dia 7 de fevereiro por seis homens fortemente armados e encapuzados, quando dirigiam numa estrada próxima à cidade.

Imediatamente depois do sequestro, a família organizou um plantão do lado de fora do gabinete do procurador na cidade de Juárez para pedir uma investigação sobre o incidente, e para pedir a imediata liberação de Malena, Elías e Luisa.

“Eles desceram do caminhão, se aproximaram e apontaram suas armas para nós. Quatro das pessoas tinham essas armas grandes e os outros dois portavam armas menores. Desceram do carro, atiraram duas vezes ao ar e gritaram para descermos”, recorda-se Sara Salazar Hernández, mãe dos sequestrados e que se encontrava no carro com sua neta de onze anos quando seus filhos foram levados.

“Abriram a porta do meu lado, me tiraram do carro e me jogaram no chão. Fizeram o mesmo com minha neta”. Minutos depois, os três familiares tinham desaparecido.

A família vive na cidade de Guadalupe, fora de Cidade Juárez, a mais violenta do país. Como muitas áreas do norte do México, Guadalupe e Cidade Juárez estão ocupadas por militares que foram enviados pelo governo federal para combater as drogas, depois que o presidente Felipe Calderón declarou guerra às organizações narcotraficantes, em 2006. O ano de 2010 foi o mais mortífero na Cidade Juárez, com uma média de oito assassinatos ao dia.

Sara não pôde identificar os homens que abordaram o veículo da família aproximadamente dois quilômetros depois de um posto de controle militar. “Não pude ver quem era, pois estavam encapuzados. Vestiam capuz e roupas negras” disse Sara. “Ninguém era reconhecível”.

Os membros da família suspeitam da participação dos militares devido à proximidade entre o posto de controle e o local do sequestro, e também porque eles dizem que os militares estão ligados a outros assassinatos e assédios contra membros da família.

Oito dias após o sequestro, a casa de Sara foi incendiada, horas após a família ter organizado um evento público para pedir a liberação dos três desaparecidos.

O Exército vai atrás de seus críticos
“Quando estávamos no plantão em Cidade Juárez, uma vizinha veio nos avisar que a casa da minha mãe estava pegando fogo”, conta Marisela. “O que é estranho nesse caso é que a casa de minha mãe está a 100 metros de um ginásio municipal que agora funciona como um quartel militar improvisado, onde há mais de 40 militares. Não é possível que não tenham visto que alguém se aproximava para incendiar a casa”.

A defensora de direitos humanos Josefina Reyes, irmã de Marisela, foi assassinada no dia 3 de janeiro, do lado de fora da Cidade Juárez e próximo da cidade de El Sauzal. “Uma testemunha que estava dentro do restaurante onde minha irmã entrou para comprar comida – de onde eles se aproximaram para assassiná-la – nos conta que foi um automóvel particular e uma caminhonete que são de propriedade do Exército”, disse Maristela. “Essas pessoas desceram, tanto militares como outros vestidos como civis, e a levaram. Ela começou a lutar e quando viram que ela começava a se afastar, pegaram a pistola e deram quatro tiros em sua cabeça”.

Josefina havia começado a fazer campanha contra a militarização de Chihuahua quando um de seus filhos, Miguel Ángel, foi tirado de sua casa por soldados sem ordem judicial em agosto de 2008. Mais tarde foi acusado de ser narcotraficante, mas, de acordo com o Exército, ele foi liberado alguns dias depois.

Josefina organizou uma manifestação para pedir sua libertação. Após as denúncias, ela virou alvo dos militares. “Quando minha irmã ainda vivia em Guadalupe foi quando começou a perseguição. Os militares constantemente iam à sua casa, entravam, mexiam nas suas coisas”, disse Marisela, que assinala que em uma das ocasiões, os soldados tentaram levar outro filho de Josefina. “Eles não pediram permissão, não tinham motivo, não tinham ordem judicial para entrar nas casas”.

Consequentemente, Josefina saiu de Guadalupe e chegou a Juárez para evitar as ameaças e abusos. Quando o assédio chegou ao limite, outro filho seu, Julio César, foi assassinado a tiros por desconhecidos. Foi um ano depois que Miguel Ángel havia sido levado pelos militares. Os familiares acreditam que é possível que o Exército tenha levado a cabo os assassinatos tanto de Júlio César como de Josefina, ou que estejam envolvidos de alguma maneira. “Se não for diretamente, essas pessoas estão indiretamente envolvidas no que está acontecendo: nos desalojando da nossa cidade e aniquilando a nossa família. Definitivamente, não há dúvidas”, disse Marisela.

Antes de sua morte, Josefina havia apresentado duas denúncias contra os militares em Guadalupe, na secretaria de Defesa Nacional, solicitando ao organismo militar que intervisse e impedisse a perseguição. Nada foi feito. Seis meses depois que Josefina foi assassinada, seu irmão, Rubén, foi assassinado com 19 tiros em Guadalupe. Pouco mais de seis meses depois, outros três membros da família foram sequestrados, no fim de fevereiro. Apareceram mortos. Nos últimos três anos, muitas pessoas da mesma família foram assassinadas para que seja uma coincidência. Até o momento, as autoridades de Chihuahua não resolveram os casos de Julio César, Josefina, Rubén, Malena, Elías e Luisa Ornelas.

Sabendo que as autoridades em Chihuahua não fariam nada para encontrar seus familiares desaparecidos, Marisela, Sara e outros que apoiam sua causa foram à Cidade do México em 21 de fevereiro para atrair atenção ao caso. Tendo participado de uma greve de fome desde os sequestros de 7 de fevereiro, os membros da família organizaram outro plantão do lado de fora do Senado mexicano para pedir aos legisladores que investiguem o caso. Narco News entrevistou Marisela e Sara no dia 24 de fevereiro, um dia antes dos corpos de Malena, Elías e Luisa serem encontrados em uma rodovia fora da cidade de Juárez.

“A principal razão de estarmos aqui é para exigir das altas autoridades que procurem meus filhos que foram tirados de mim e os devolvam a mim”, diz Sara, sentada sob uma tenda que foi armada como parte do acampamento na Cidade do México. Tanto Sara quanto Marisela estavam sob supervisão médica durante a greve de fome.

“É importante ressaltar que os três são deficientes”, diz Marisela, ao falar sobre seus irmãos e cunhada. “Meu irmão Elías teve uma embolia em 13 de dezembro. Apenas cinquenta por cento de seu corpo funciona. Ele não tem mobilidade e não pode andar sozinho. Minha irmã tem uma placa de aço em seu quadril, e o outro é muito prejudicado. Ela anda muito lentamente e com a ajuda de uma bengala. Minha cunhada tem placas nas pernas, abaixo do quadril em decorrência de um acidente de carro. Eles precisam urgentemente de remédios para evitar o agravamento da saúde”.

Um dia depois de a família Reyes Salazar chegar à Cidade do México, a Promotoria do estado de Chihuahua lançou o que chamou de uma “megaoperação” para procurar os membros da família sequestrada, mais de duas semanas depois do ocorrido. O trabalho foi realizado pelos militares com a ajuda da Polícia Federal e helicópteros. “Eu não acredito em nada que esses homens dizem”, diz Marisela. “O dia em que eles chegarem e me disserem ‘aqui estão seus irmãos’, então eu acreditarei que eles estavam procurando por meus irmãos e trabalhando.”

No dia 25 de fevereiro, começou a circular a informação de que os corpos dos sequestrados da família Reyes-Salazar tinham sido encontrados. Eles já estavam mortos há aproximadamente duas semanas e aparentemente foram enterrados e desenterrados novamente, de acordo com o governo.

As autoridades usaram uma tática comum de depreciar as vítimas, ao se referir a uma nota que tinha sido encontrada perto dos corpos, que supostamente ligava os mortos (três pessoas com problemas físicas e de mobilidade) com o crime organizado. A causa da morte ainda está sendo investigada. Na esteira dos assassinatos mais recentes, os membros da família Reyes Salazar dizem que pode estar à procura de asilo fora do México.

Com a mídia local e internacional usando o lema da guerra às drogas, que opõe os “mocinhos” aos “maus” em uma luta de alto risco para livrar o México do tráfico, é inconveniente publicar matérias que sugiram que tanto as forças da lei quanto as organizações de tráfico de drogas na país são igualmente injustos e violentos. Em um ambiente onde não há prestação de contas para os membros das Forças Armadas, apesar da disparada reclamações de direitos humanos, há realmente um lado “bom”?

As operações militares e ações de policiamento, muitas delas apoiadas pelos Estados Unidos, apenas aumentaram a violência do narcotráfico no México. Como a história da família Reyes Salazar indica, também aumentou a violência contra pessoas que não estão envolvidas com tráfico de drogas. Quando questionado sobre como a violência em Ciudad Juárez poderia ser reduzida, Marisela diz: “Eu acho que vai ser possível quando tirarem todos os policiais militares e federais de Ciudad Juárez e de Chihuahua… É claro, então a paz e a tranquilidade voltarão, não só para Juárez, mas também para todo o país".

Texto publicado na Agência Pública

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