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Conflito

A Israel colonialista

por Willian Vieira — publicado 21/10/2010 16h05, última modificação 21/10/2010 16h07
Mais extremistas e dispostos ao confronto, os colonos judeus são um enorme entrave ao processo de paz na região

Mais extremistas e dispostos ao confronto, os colonos judeus são um enorme entrave ao processo de paz na região

Está no Antigo Testamento – Números, capítulo 34, versículos 1 a 12 –, que a Terra Prometida por Deus ao povo de Israel abarca todo o espaço entre o Egito, o Mediterrâneo e a Síria. É no que creem muitos dos que vivem nos assentamentos judaicos na Cisjordânia, terras em sua maioria ocupadas por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, e cerne de um dos maiores imbróglios diplomáticos da História. Hoje vivem aqui, semeados entre 2 milhões de palestinos, 313 mil judeus, atraídos pela crença na hereditariedade da terra e pelo suporte financeiro do Estado. São gerações autóctones ou que migraram há cem anos, dez meses, dez dias. Longe do secularismo de Tel-Aviv, aqui se vive de crenças, sonhos e promessas.

“Você vai ter uma surpresa”, garante Chaim Moskovitz, de 21 anos, ao entrar no carro do casal de amigos rumo à colônia. Migrante dos EUA, o casal quer um lugar barato para criar o filho a caminho. “Há apartamentos novinhos na última seção de Efrat, com mercado, escola, sinagogas. Por que não mudar para Gush Etzion?” O nome, que suscita uma compilação bíblica – por aqui teriam passado Davi, os macabeus e o próprio Abraão –, batiza o bloco de colônias a 15 quilômetros de Jerusalém, onde os judeus, que vão e vêm desde 1925, se fixaram em 1967. Hoje são 60 mil em 18 comunidades, às quais se chega pelo túnel recém-construído para ligá-los à capital sem cruzar terras árabes. Percorre-se então a rodovia protegida por muros e sentinelas, acena-se aos guardas com metralhadoras M-26 na entrada e se chega a Efrat, onde 8 mil vivem em sete colinas da Judeia, entre as palmeiras e as casas de pedra de Jerusalém.

Chaim vive lá com a família, que deixou Nova York há 15 anos. “Meu pai queria construir o lar dos sonhos, então fez tudo sob medida”, diz Chaim, na casa de três andares com três salas, quatro quartos, piscina aquecida. “Quando leio que querem que Israel ceda Efrat tenho vontade de rir. Cresci aqui, isto é Israel pra mim.” Os quadros na parede atestam a veracidade. Ele vai à varanda e então aponta para a cerca da colônia. “Semana passada dois árabes entraram aqui. O guarda atirou entre as pernas. Eles foram à polícia e a arma foi apreendida. É sempre assim. Não sei por que, se eles têm sua terra, insistir em invadir a nossa.”

A Cisjordânia tem hoje 121 colônias judaicas reconhecidas por Israel, mais cerca de cem assentamentos teoricamente temporários, segundo a ONG B’Tselem. “O principal método usado para tomar as terras (palestinas) é decretá-las ‘terras do Estado’ (israelense)”, afirma um relatório da B’Tselem, que menciona ainda a expropriação de terras “de interesse público” e “por razões militares”, além do suposto apoio para “comprar terras no mercado privado”.

Para a comunidade internacional, as colônias judaicas além da Linha Verde, estabelecida após a fundação de Israel, sempre foram ilegais, por desrespeitar as Convenções de Genebra. Mas a situação vem se deteriorando. O sionismo que trouxe judeus para colonizar a então Palestina era bem diferente da atual mistura de fanatismo religioso e interesse estratégico estatal, analisa Rafael Reuveny, professor de Política Internacional da Universidade de Indiana, nos EUA. Era uma colonização sem colonialismo. “Foi só em 1967 e especialmente após 1977 (a subida do Likud ao poder) que o Estado de Israel disse: agora queremos tudo e tomaremos à força e mandaremos o Exército defender os colonos às nossas expensas: daí tem-se colonialismo. Hoje Israel é uma potência colonialista no sentido estrito do termo, com os EUA como apoiadores.” Israel recebeu 54 bilhões de dólares, desde 1949, em ajuda militar americana, valor que deverá chegar a 3,5 bilhões somente em 2010.

“Ao longo dos anos, tudo foi feito em nível de governo para esconder os investimentos nos territórios, como se ninguém soubesse que Israel está envolvido numa atividade ilegal e criminosa”, afirma a pesquisadora Idith- Zertal, autora do livro Lords of The Land: The War Over Israel’s Settlements in The Occupied Territories. “Os investimentos tomaram formas para que não pudessem ser rastreados. E a situação é pior com os gastos militares canalizados para os territórios. O cálculo é difícil. Mas é possível afirmar que o investimento per capita nas colônias é sete vezes maior que o feito dentro da Linha Verde.”

Há duas razões. A primeira é uma imposição política: o lobby dos colonos- é poderoso. A segunda é um afago pragmático. “As colônias são parte de uma política deliberada de colonizar a Cisjordânia e minar as possibilidades de um Estado palestino soberano”, afirma Victor Kattan, pesquisador da Universidade de Londres e autor do livro From Coexistence to Conquest: International Law and the Origins of the Arab-Israeli Conflict. O que ajuda a entender os gastos do governo, via Ministério da Absorção de Imigrantes e diversos fundos para convencer judeus a emigrarem para Israel – foram 17 mil em 2009, 17% a mais que em 2008 – e especialmente para as colônias. Cada família recebe até 30 mil dólares, mais 9 mil por filho, plano de saúde, auxílio-moradia, redução de impostos, bilhete aéreo. Como comprar um imóvel nas cidades pode custar milhões, sobram as cidades incrustadas no deserto ou as colônias. Por causa do incentivo e do cunho religioso, há um boom populacional nos assentamentos.

O conservadorismo diluído nas ruas de Tel-Aviv ou nos kibutzim socialistas floresce nas colônias. Sem a certeza de que o governo do próprio país os deixará viver na terra onde nasceram seus filhos, resta-lhes lutar pelo discurso da “Grande Israel”. Cada comunidade monitora suas fronteiras com torres de vigilância e guardas armados. Mas monitoram também o cenário político – e de perto, quando se trata da política externa, alertando quando a Casa Branca menciona algo que possa ser interpretado como diminuição das colônias.

Todas têm seus periódicos com críticas ao governo e dicas para captar doações para se expandir. Gush Etzion foi além. Sua revista Voices é mais que um panfleto sionista: traz histórias de vida vitoriosas, de gente que fez aliyah (o retorno) e hoje vive uma vida entre jardins de um Éden (assim são as fotos) do futuro, em uma casa de subúrbio americano numa Judeia cercada por bandeiras de Israel. Sharon Katz, diretora da publicação, afirma: “Vamos crescer, crescer e crescer. É a saída. Já não se acha mais apartamento para comprar aqui. Temos uma vida melhor do que nunca, vivemos em casas maiores do que teríamos em New Jersey. Quando visitamos uma colônia num morro e as pessoas prometem 5 mil novas casas, você pode rir, dizer que sonham. Mas olhe para Efrat: estávamos sonhando?”

Era o verão de 1982. A jornalista e o marido aceitaram o convite, subiram no jipe 4x4 e chacoalharam até o terreno baldio. “É aqui”, disse o construtor. “Em breve haverá uma bela cidade.” Sharon, “garota mimada que sempre teve empregada, três carros na garagem e uma vida perfeita em Nova York”, desgostou-se. Mas, três anos depois, erguia a casa em que vive hoje, em Efrat. “Se você crê que Deus vai juntar os judeus na Terra Prometida, a profecia concretiza-se. Quando mudamos, pensamos: o grande templo será reconstruído em breve, melhor morar perto. Então pegamos o mapa de Israel e desenhamos um círculo ao redor de Jerusalém onde poderíamos viver a 20 minutos dali. A terra era barata, o lugar, pacífico. Quando vi famílias vivendo suas tradições, pensei: é aqui que quero criar meus filhos.”

Um deles surge na porta. Sobretudo, sapatos e chapéu pretos fazem o rosto, encoberto pela barba ruiva, suar; as tzitzit,- franjas brancas, balançam nas pernas, enquanto carrega o neto de Sharon no carrinho de bebê, a caminho da sinagoga. “Ele é rabino”, diz ela, ao tomar em mãos o mapa de Efrat. O dedo passeia. “Primeiro construímos neste morro, depois neste. Acabava um e começava outro. E Efrat foi crescendo. Até que veio esse congelamento absurdo.”

No fim de 2009, Israel acatou os esforços americanos para um acordo de paz e congelou o crescimento nas colônias (retomados na sexta-feira 27). A gritaria foi geral. Colonos insistiram em obras que amanheceriam paradas à força pelo Exército, numa dança macabra, já velha: qualquer nacionalista lembra quando o premier Menachen Begin, eleito pela direita, em 1977, após décadas dos trabalhistas no poder, cedeu o Sinai ocupado ao Egito e demoliu assentamentos. Claro, foi Begin quem deu o sinal verde para o avanço das colônias de hoje. Era um ato pragmático. Mas os colonos não esquecem. E como não há possibilidade de paz sem a redução das colônias, mesmo o atual governo direitista de Benjamin Netanyahu cedeu e recomeçou as negociações de paz – pautadas pela redução das colônias. Para revolta de colonos como Sharon.

“Quando cheguei aqui, se precisávamos consertar um cano, a gente ligava e um árabe vinha fazer o serviço. Eles limpavam as ruas, tinham emprego aqui. Era paz. Mas desde os acordos de Oslo, o medo surgiu. Pensamos: ele vive do outro lado do muro, logo quer me matar.” Então por que não sair? “A Bíblia se passou aqui”, responde Sharon. Como o oitavo morro de Efrat – Sharon diz que a região é mencionada na Bíblia. “Mas o governo quer dá-lo aos árabes. Não deixaremos. Quando estiver ocupado, terá mais gente do que Efrat. Como uma comunidade pode sobreviver sem crescer?”

Os colonos sabem que, quanto mais se construir, menor a chance de existir um Estado palestino. Mesmo com o congelamento, o crescimento nas colônias foi de 5,1% em 2009, ante 1,7% da população judaica de Israel – o número de colonos mais que dobrou em 15 anos. E já se projeta, em Gush Etzion, crescimento de 50% até 2020.

Dagan, colônia criada em 1995, é um amontoado de pequenas casas -pré--fabricadas alugadas a baixo custo para famílias como a do rabino Elhanan Nir. “Só Deus pode dar a resposta para questões complexas como o conflito entre árabes e judeus”, diz, abrindo o laptop e mostrando uma foto em que aparece com dois rabinos e um xeque palestino de Hebron. Nir explica. Crente de que só os religiosos podem achar uma solução pacífica, longe da política, para as colônias judaicas na Cisjordânia, os rabinos organizaram uma reunião com religiosos árabes. “De religioso para religioso.”

Do sul ao norte os colonos têm muito em comum. Vivem cercados por árabes. Demandam gastos governamentais com segurança – em alguns casos, como em Hebron, o fechamento militar de rodovias contra palestinos é realidade. Exigem o crescimento das colônias e criam listas de inimigos (ativistas de esquerda), com dados residenciais e telefônicos expostos na internet. Fazem protestos e travam as negociações com a Autoridade Palestina. Em suma, são o calcanhar de aquiles de qualquer governo israelense.

Mas há um abismo que separa Efrat, colônia rica ao lado de Jerusalém, daquelas de Hebron, paroxismo da tensão árabe-israelense. São dois perfis: o primeiro atrai investidores, apartamentos de alto padrão e famílias ricas anglófonas. O segundo inclui colônias que surgem com caravanas para famílias de imigrantes pobres, dependentes do governo e que aceitam viver em áreas conflagradas. Assim seria Hebron – se a região não fosse ainda considerada berço do judaísmo.

Na Voices, um artigo sintetiza o sentimento dos colonos de Hebron em relação às visitas de diplomatas e jornalistas organizadas por ONGs para mostrar “a verdadeira Hebron”: “Propaganda antissemita e anti-israelense”, escreve o diretor de um fundo que financia o estabelecimento judeu e garante o turismo a lugares sagrados, como a Caverna dos Patriarcas, por meio de um tour “com ônibus à prova de bala” para visitar “os fundadores da nação”. Custa 40 dólares, usados para “reclamar e renovar antigos lares judeus”. No site, o recado: “Doe o máximo que puder, como um tributo à dedicação e ao sacrifício de nossa comunidade”.

Hebron é única. Aqui vivem 160 mil colonos: 800 deles judeus. A cidade é dividida em duas áreas, H1 e H2. A primeira pertence à Autoridade Cisjordânia – aqui, israelenses não podem entrar. Na H2, o controle é israelense, e a presença militar, maciça. Em alguns trechos, os árabes só podem entrar após revista corporal e após passar por um detector de metais. Em outros, simplesmente não são aceitos. O clima é de uma guerra fria, silenciosa, vazia.

“Quem chega em Hebron espera ver caubóis e índios”, diz David Wilder, sentado em seu escritório. “Mas é porque as pessoas só leem as más notícias.” Cofiando a barba grisalha, que combina com o prateado da borda do quipá, o matiz da camisa com suspensórios e o tom pausado da voz, Wilder filosofa. “A vida aqui é normal. Mas normalidade é algo relativo. O que é normal para um judeu em Tel-Aviv não é normal para um judeu em Hebron.”

Americano, Wilder vive aqui há 12 anos. É uma espécie de porta-voz da comunidade. Se os judeus andam armados em Hebron, ainda que o governo tenha intensificado a proibição – o que enfureceu os colonos –, Wilder justifica. Se pacifistas israelenses criticam os gastos militares para mantê-los aqui, Wilder explica que a comunidade paga seguranças e mantém um “esquadrão de emergência” armado e treinado para “casos de ataque”. E ataca: “Temos milhares de turistas que visitam o berço de nossa civilização. É dever do governo protegê-los”.

Ele diz ter a receita para resolver a questão da Cisjordânia: comprar as terras dos árabes. Wilder mostra um vídeo de um homem a receber uma mala de dinheiro. E conta que foi a última tentativa de comprar terra na região: judeus americanos teriam pago 1 milhão de dólares por um terreno árabe. “É assim que a gente resolve tudo: eu dou uma mala cheia de dinheiro para ele, ponho o cara num avião. Para o Texas. E ele viverá feliz lá, bem longe de mim. O governo não quer que a gente cresça. Mas precisamos. Onde meus (15) netos vão morar?”

Wilder ganha a praça que serve de coração judaico em Hebron: sinagoga, jardim de infância, conjuntos residenciais. Para onde se olha, nos quatro cantos, há casas árabes, e árabes subindo e descendo as encostas – sob a mira dos soldados. O muezim grita no minarete da mesquita. Wilder suspira. “Não há relação entre judeus e árabes em Hebron. Nada de bom.” Com a pistola carregada na cintura, ele conduz o carro morro acima, serpenteando entre casas e crianças árabes, até estacionar no topo da colina: Tel Rumeida, último enclave judaico em Hebron e área mais disputada da região mais disputada entre judeus e palestinos. Na entrada, dez soldados e uma ambulância. “As mulheres daqui dão à luz frequentemente. E não nutrimos ilusões.” Então brotam homens de preto e crianças de costeletas longas das caravanas. Com paredes carcomidas, elas dividem espaço com meia dúzia de prédios. “Esse foi o último que erguermos. Daí termos essas condições.” As famílias, 15 ao todo, dividem os trailers que viram estufas de dia, com espaço de menos para crianças demais. “Eles têm mercados, fábricas. Podem e estão crescendo”, diz, mirando os prédios em construção na parte árabe de Hebron. “E a gente? Nós vivemos aqui desde Abraão. Não chegamos em 1967 para visitar. Viemos de volta para casa.”

Após o tour pelo naco judaico da árabe Hebron, Wilder concluiria com um vaticínio político. Não há nada na vida dessas crianças de quipá ou dessas mulheres a parir filhos em ambulâncias morro abaixo ou desses rabinos que passam a vida a balançar a cabeça pedindo Hebron “de volta” que não tenha a ver com política. “O mundo vê a situação assim: é preciso despejar extremistas de direita malucos como eu. Mas Bibi não pensa assim. Ele vai manter tudo como está e ficar no poder. Em 27 de setembro, o governo retomará a construção das colônias. Pode escrever.” Tinha razão.

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