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Imigração

A história se repete em onda de xenofobia alemã

por Niklas Franzen — publicado 03/09/2015 04h38
Manifestações da sociedade civil se misturam à mensagem de ódio de grupos neonazistas que se aproveitam da situação crítica dos imigrantes para espalhar mensagens racistas e islamofóbicas
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Manifestação antifascista em Dresden

Manifestação antifascista em Dresden

Berlim

Freital, Heidenau, Tröglitz. Essas cidades pequenas tornaram-se símbolos nos últimos dias de uma onda de racismo na Alemanha. É difícil abrir os jornais sem ler sobre um novo ataque racista que varia de incêndios em albergues para refugiados a manifestações de "cidadãos preocupados" contra a imigração.

Destaque dessa ofensiva racista foram os acontecimentos em Heidenau, cidade no estado da Saxônia, no leste do país, nos dias 22 e 23 de agosto. Após uma manifestação com mais de mil participantes – organizada por um político local do partido neonazista NPD – um grupo atacou um prédio planejado para hospedar 250 refugiados. A polícia não conseguiu controlar a violência a noite inteira. Em vez disso, brutalmente reprimiu uma contramanifestação de antifascistas. No dia seguinte, a violência xenófoba repetiu-se.

As imagens de neonazistas com "alemães comuns" controlando uma cidade lembrou muito os ataques racistas no começo dos anos 90. Logo após a reunificação, ocorreram pogroms (ataques violentos contra pessoas com destruição de seus ambientes de vida) racistas em várias cidades alemãs.

Em Rostock-Lichtenhagen neonazistas apoiados por grande parte dos moradores locais atacaram um prédio habitado por imigrantes vietnamitas por vários dias. Nestes anos, morreram estrangeiros incendiados em suas casas em cidades como Mölln ou Solingen, enquanto imigrantes,punks e sem-teto eram mortos nas ruas no país inteiro. Agora é preciso perguntar: a história está se repetindo?

PROblu-news.org
"Nosso país, nossos valores": Manifestação neonazista em Dresden | PROblu-news.org

Políticos de todos os grandes partidos condenaram os recentes ataques racistas. A chanceler Angela Merkel do partido conservador CDU visitou Heidenau quatro dias depois dos ataques e descreveu a violência como uma "vergonha".

O vice-chanceler e dirigente do partido socialdemocrata SPD Sigmar Gabriel exigiu com raiva: "Não podemos deixar nenhum milímetro para esses caras". Porém, grupos antifascistas, que alertam para o crescimento de racismo na Alemanha há muito tempo, criticam que os governantes ignoraram por muito tempo o problema do neonazismo e xenofobia no país.

Mesmo depois das revelações sobre o grupo terrorista neonazista NSU, que matou nove imigrantes e é responsável para vários atentados a bomba entre 2000 e 2006, os governantes recusaram-se a admitir que a Alemanha tem um problema com racismo. Ainda hoje a ameaça da direita é minimizada.

Além disso, quase todos os partidos perderam a oportunidade de um posicionamento claro em favor dos refugiados. Uma mudança da política de imigração não está em vista. Para muitos perseguidos, as fronteiras da "Fortaleza Europa" permanecem fechadas.

Para os que conseguem entrar, a situação fica difícil: A condições nos albergues e alojamentos são precárias. Em Berlim, centenas de famílias estão acampando em frente a um departamento de imigração. Com a temperatura chegando a 40ºC, não há saneamento básico, comida adequada ou proteção mínima para as condições climáticas.

O descaso, a má vontade das autoridades e a burocracia impedem que os refugiados trabalhem. O apoio vem de alguns setores da população. Especialmente nas grandes cidades, cada vez mais alemães não querem aceitar a política discriminatória de imigração do seu país e ajudam com doações ou abrem suas portas para refugiados.

Greve de fome de refugiados em frente do parlamento em Berlim
Greve de fome de refugiados em frente do parlamento em Berlim

No outro lado, grupos da direita estão explorando a situação para sua propaganda racista e aproveitando de um clima já tenso e envenenado. No começo deste ano, em quase todas as cidades alemãs, aconteceram grandes manifestações organizadas por um grupo chamado Pediga (sigla que quer dizer "Europeus Patriotas contra a Islamificação do Ocidente").

Esses autoproclamados "críticos do Islã" atraíram grandes partes da população com a disseminação de medo ao Islã e preconceitos sobre os recém-chegados. "A semente do Pegida cresce agora", escreve o grupo antifascista Dresden Nazifrei (Dresden Livre de Nazistas).

A violência certamente atingiu um novo patamar nos últimos dias e é preciso lembrar que racismo e ódio contra estrangeiros são cotidianos na Alemanha. Desde 1990, mais de 180 pessoas foram mortas em ataques racistas. Algumas regiões são classificadas como "No-Go-Areas" (acesso restrito) para estrangeiros, judeus, pessoas alternativas e homossexuais.

Especialmente na Alemanha oriental, está enraizada uma xenofobia profunda. Mas também no resto do país há fortes sentimentos racistas: no dia 27 de agosto no estado ocidental Niedersachsen desconhecidos jogaram um coquetel molotov em um albergue para refugiados enquanto uma mãe do Zimbábue estava dormindo lá dentro com seus três filhos.

*Niklas Franzen é jornalista e mora em Berlim

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