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The Observer

A guerra em Gaza deixa as crianças congeladas de medo

por The Observer — publicado 30/07/2014 00h57, última modificação 30/07/2014 08h51
O correspondente do Observer assiste ao terror que domina a região há mais de 20 dias e deixou milhares de mortos
Bilal Telawi / AFP
Palestinos feridos em Khan Younis

Homem e criança feridos em ataque aéreo de Israel aguardam tratamento em frente a um hospital em Khan Younis, na Faixa de Gaza, na terça-feira 29

Por Peter Beaumont, em Gaza

Estou tirando fotos em uma rua deserta de Gaza junto à praia certa tarde, ao anoitecer, quando uma figura solitária em uma túnica cinza entra no quadro, encobrindo o rosto. Ele se aproxima e pergunta irritado por que estou fotografando os prédios. Eu lhe mostro a foto, na qual ele aparece como uma pequena figura de rosto invisível. Segue-se uma conversa paranoica até que ele parece se acalmar. O homem vai embora apressado, falando ao telefone.

Não é um incidente isolado. Em outro dia, um homem está sentado ao meu lado no hospital em Beit Lahia. Quando me levanto para dar lugar a seu amigo, ele me puxa pelo braço e faz perguntas apressadas, até que se satisfaz com a explicação.

Esses homens estranhos e urgentes são os mesmos observadores que avistamos nos grupos reunidos nos locais dos ataques aéreos de Israel, ou que chegam com seus amigos feridos nos hospitais de Gaza. Eles viram rapidamente a cabeça, evitando as câmeras, ou puxam um capuz. Não é difícil adivinhar quem são em um conflito que – para os repórteres ocidentais – é definido em grande parte pelo que está claramente ausente. São homens ligados às facções armadas, principalmente o Hamas.

Na maioria das guerras que cobri, encontrava um dos lados combatentes, muitas vezes ambos, mas, em Gaza, onde a morte cai do céu, os que guerreiam são geralmente invisíveis, exceto pelo impacto de suas armas. O resultado é que em Gaza vemos a guerra pelo prisma do sofrimento das vítimas – um conflito no qual os que poderiam oferecer um raciocínio organizador estão ausentes.

A realidade é que o sinal mais visível das facções militantes palestinas, na maioria das vezes, são os foguetes que elas enviam zunindo sobre os telhados. É somente em seus funerais, com seus rostos destruídos e amarelos, os corpos enrolados em bandeiras, que podemos nos aproximar deles. De outro modo, somos obrigados a adivinhar.

Lá está o homem sentado em uma cadeira plástica lendo o Corão diante de um prédio próximo a um parque da cidade. Ao me aproximar dele, posso ver o rádio walkie-talkie escondido no livro.

Encontro outro indivíduo inspecionando um pequeno prédio danificado com vista para o Mediterrâneo. Ele me pergunta o que eu quero. Ao perceber que sou jornalista, permite que eu tire fotos do grupo de observadores curiosos, mas insiste para não ser incluído.

Não são apenas os membros do Hamas e de outras facções militantes que estão nervosos; a presença dos aviadores e soldados israelenses que conduzem a guerra do seu lado é tão imaginada, na maior parte do tempo, quanto é realmente tangível.

O som de canhões navais rebomba dos navios invisíveis além do horizonte, como um tambor tocado por uma criança impaciente. Folhetos são despejados do céu ordenando que os civis se retirem, mensagem que também é transmitida por torpedos ou telefonemas de homens e mulheres que falam árabe com forte sotaque israelense.

De vez em quando vemos os drones (aviões teleguiados) sempre presentes, quando a luz capta suas asas, mas principalmente é o ruído que se ouve, um zumbido como um enorme circuito elétrico.

Entro em Gaza no primeiro dia e vejo o primeiro ataque aéreo do estacionamento do lado israelense, antes de cruzar a fronteira. A guerra no início parece uma série de eventos aleatórios. Bombas e mísseis explodem na rua, mas como eventos parecem desconectados. Com o passar dos dias, a guerra se intensifica e os espaços que não são guerra tornam-se raros. O conflito já é onipresente.

Estou em uma rua quando uma casa explode na minha frente; estou no terraço do meu hotel na praia em Gaza quando dois foguetes são disparados contra o muro do porto próximo e quatro crianças morrem; os sobreviventes sangrando chegam ao nosso santuário, onde lhes prestamos os primeiros socorros. De repente a destruição aparece em toda parte. Você vira uma esquina e encontra vidro e entulho na rua, árvores derrubadas ou uma cratera.

Os prédios caem de maneiras diferentes. Às vezes as bombas removem a fachada, como se fosse com uma faca, deixando os quartos expostos e móveis nos locais onde se encontravam. Às vezes a bomba não deixa nada além de um buraco cheio de montes de concreto; outras, as estruturas são transformadas em domos assimétricos, com as barras de ferro expostas.

Algumas horas antes da invasão por terra, estou sentado no jardim de Omar Shaban, diretor do grupo de pensadores independente PalThink, em sua casa em Deir al-Balah. Os borrifadores regam seu gramado imaculado e as flores bem cuidadas crescem em profusão.

Ele me diz que os políticos não conseguem solucionar os problemas de Gaza, mas os pensadores sim. "Eu disse dois anos atrás, depois do último cessar-fogo, que ele não poderia durar. Eu disse que não duraria dois anos. Por quê?", pergunta-se. "Porque Israel e a comunidade internacional não deixaram ao Hamas nada a perder. Então 200 pessoas morrem. Mas poderiam ser 500, ou mil. Eles podem suportar isso. E não é porque não gostam de pessoas.

"Temos dois líderes muito imbecis", diz ele com ênfase. "Abu Mazen [o apelido do presidente palestino, Mahmud Abbas] quer enfraquecer e humilhar o Hamas. [O primeiro-ministro israelense] Benjamin Netanyahu só está interessado em sua agenda política interna, de curto prazo."

Ele não é menos severo sobre a agenda do Hamas e sua falta de realizações. "Eu olho para este jardim", diz de repente, "e me pergunto se consigo viver aqui mais um ano. Não posso, enquanto meus vizinhos estão sofrendo." Ele ri meio sem graça. "Mas não tenho outro passaporte ou outra nacionalidade."

Eu vejo os que têm outras nacionalidades partindo em uma tarde pela fronteira de Rafah, cruzando para o Egito, parecendo assustados e desanimados. Mas são uma pequena minoria. A maior parte dos 1,8 milhão de habitantes de Gaza não pode partir. O que significa que não há onde se esconder, exceto as escolas da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados abertas como refúgios. Elas são consideradas por muitos que já têm experiência como um local de último recurso, por isso as pessoas vêm e vão dando opiniões sobre a violência como se fosse o clima – calculando o que elas podem suportar em um dado momento.

Enquanto a guerra progride e a violência se agrava, um fatalismo parece se instaurar. Escuto o mesmo refrão dos que voltam para suas casas apesar dos avisos de ataques israelenses: com Gaza inteira sob risco, eles preferem ficar em suas casas do que em um local estranho lotado. E morrem em suas casas.

As explosões reorganizam e tornam incongruente o que deveria ser doméstico e familiar. Roupas se espalham pela rua, um tigre plástico de brinquedo está caído entre os destroços e a poeira em um quarto onde alguém morreu.

Um dia depois, estou dirigindo por Zeitoun, a sudeste da cidade de Gaza. Vejo um cavalo e uma carroça com uma bandeira branca tremulando. Mohammad Abu Ajwa, 32 anos, explica que tem uma fazenda perto da fronteira com Israel. "Tenho cem vacas lá." Ele acrescenta que não sabe se a bandeira branca vai funcionar. "Não sei se ela vai me proteger, mas já a usei para chegar à nossa fazenda." No entanto, no lugar onde fica sua fazenda há tanques e tropas israelenses.

"Minha casa fica a um quilômetro da fronteira. Eu quero levá-las para um lugar seguro", diz Ajwa. "Vou tentar pegá-las esta tarde se a situação se acalmar."

O que não se diz, mas é lembrado pelos agricultores de Gaza, é o que aconteceu com a maior parte do gado durante a última grande invasão terrestre por Israel, em 2008-09. Depois que a guerra terminou, os campos estavam cheios de animais mortos.

Ele nos conta sobre o bombardeio da noite anterior, o fogo de artilharia inicial da invasão por terra que sacudiu sua casa enquanto sua família se abrigava em um quarto.

Tínhamos assistido ao início do bombardeio em segurança, no terraço de uma família na cidade de Gaza, enquanto os clarões iluminavam o céu e caíam sobre bairros que tentávamos identificar seguindo o muro da fronteira.

Nossos anfitriões, hospitaleiros como sempre são os habitantes de Gaza, trouxeram café e suco de frutas que bebemos no escuro enquanto ouvíamos as bombas caírem, um estranho esporte de espectadores. As luzes em bairros inteiros ao norte se apagaram, uma após outra, fazendo as colunas de chamas produzidas pelos ataques aéreos parecerem ainda mais vívidas. Um grande foguete do Hamas é lançado da cidade e se volta para o mar, rumando em direção à costa. Uma bateria Iron Dome israelense além do muro da fronteira o atinge e o míssil se desintegra em uma dúzia de fragmentos de luz dourada que se apagam aos poucos.

Em momentos como este a guerra não parece muito real, até que uma sirene soa à distância e vem a percepção de que agora eu também tenho de voltar dirigindo pela cidade.

No décimo segundo dia de guerra, em meio a reportagens de que o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, se dirigia ao Oriente Médio para ajudar a pôr fim ao conflito, as palavras de Omar Shaban voltam à minha mente. A consciência dos dois conflitos anteriores em Gaza em cinco anos, de dois cessar-fogos que deixaram de funcionar em longo prazo, salienta a crescente suspeita de que nenhum dos participantes sabe como encerrar isto. Não há um mediador em quem os dois lados confiem. O Hamas não confia no Egito, hoje profundamente hostil a ele, ou seu suposto parceiro no governo de união palestino, o presidente Abbas. E Israel, por sua vez, não quer que o Catar se envolva. O governo americano oscila entre a retórica de apoio a Israel e a impotência diante do horror.

Sentimos que ambos os lados, tendo jogado este jogo antes sem alcançar o que desejavam, adotaram posições radicais – que são igualmente irreais – às quais se prenderam. Apesar do número crescente de mortos, vista de Gaza a comunidade internacional parece cansada desse problema, sem conseguir se indignar.

No hospital Kamal Odwan em Beit Lahia, há um tipo diferente de cansaço. Na sexta-feira de manhã encontro-me com o doutor Mohammad Shaheen, um cirurgião ortopédico, logo após a chegada de três crianças da família Mosallem mortas por um disparo de tanque. "É difícil para nós, mesmo como médicos. É muito difícil ver isto", diz Shaheen. Ele acrescenta que não dorme direito há vários dias.

Alguns minutos depois, encontro a irmã das crianças mortas, uma menina de cerca de 7 anos com um longo rabo-de-cavalo castanho, o rosto brilhando de lágrimas. Ela está sentada na sala de espera com sua mãe, Muna, que conforta uma criança menor. A menina olha para a mãe, perdida em sua dor, para os jornalistas e os trabalhadores que observam, e novamente para a mãe, procurando uma explicação, um consolo que ninguém pode lhe dar.

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