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Internacional

Análise

A era do terror

por Gianni Carta publicado 23/11/2015 11h46, última modificação 23/11/2015 11h48
Ataques terroristas se propagam por Bamako, Paris, Beirute... A solução é a guerra contra o Estado Islâmico, reforçada pelo presidente francês? Não é
Dirk Waem / AFP
Bruxelas

Policiais e militares fazem a guarda na Grand Place de Bruxelas, na segunda-feira 23. A cidade está em alerta máximo

De Paris

Na sexta-feira 20, o alvo foi o hotel de luxo Radisson Blu, em Bamako, Mali. Balanço: 19 mortos. Restava, na segunda-feira 23, identificar as nacionalidades das vítimas. Sabia-se, porém, que seis corpos eram de cidadãos do país africano, e 13 eram de estrangeiros. Dois dos jihadistas foram mortos. Três grupos terroristas, um deles o Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, reivindicaram a chacina.

A tensão contagiava uma série de países.

Na Bélgica, onde a corrida pela captura do francês Salah Abdelsam, um dos terroristas responsáveis pelas mortes de 130 pessoas e centenas de feridos na sexta-feira 13, em Paris, continuava, nesta segunda. Entre as vítimas, três oriundas do Brasil: Camila Issa, Diego Mauro e Gabriel Sepe. Jantavam no Le Petit Carillon, restaurante asiático ao norte de La Place de la République, centro de Paris. 

Alerta máximo na Bélgica na segunda. Nível quatro. Escolas e metrôs fechados pelo terceiro dia consecutivo. Exército nas ruas em Bruxelas, como em Paris. Na noite anterior, 16 suspeitos foram detidos na Bélgica, todos acusados de cumplicidade nos ataques contra seis locais na capital francesa. 

Nos ataques em Paris, sete dos jihadistas foram mortos, ou se suicidaram com seus coletes explosivos. A polícia matou mais dois cúmplices em Saint-Denis, ao norte de Paris. Pelo menos três dos supostos nove terroristas residiam na Bélgica. O oitavo, Abdelsam, de 26 anos, conseguiu passar a fronteira da França, então fechada e bastante policiada, para a Bélgica. 

Abdelsam foi parado na fronteira francesa com a belga. No entanto, visto que embora fosse um pequeno criminoso, não foi fichado. Em miúdos, não era tido como potencial terrorista. Assim, prosseguiu em direção à Bélgica. Decisão, diga-se, que em momentos como esses, errônea: inaudita falha dos serviços de segurança franceses.

Radisson Blu, em Bamako
Policial faz a guarda do Radisson Blu, em Bamako, capital do Mali. Forças de segurança do país africano buscam terroristas

Nos dias de hoje, graças à avançada tecnologia e ao elevado nível de serviços de segurança, Abdelsam parece ter a sorte de viver no início do século XX. Segundo o diário belga Le Soir, Abdelsam rompeu uma barreira policial com um BMW em Liège, Bélgica, nesta segunda. Estaria a caminho da Alemanha. 

Abdelsam seria um dos cérebros dos atentados. Foram projetados na Síria, organizados na Bélgica, e mais particularmente em um pub em Molenbeek, um burgo de Bruxelas onde vivia Abdelsam – e executados em Paris, com a ajuda de cúmplices. O pub, fechado há algumas semanas, era frequentado por criminosos e traficantes de drogas. Como disse um expert em terrorismo na França, o Estado Islâmico recruta pequenos delinquentes. Eles não têm, afinal, nada a perder.

Em Paris, no maior atentado de sua história, o clima está no mínimo tenso. Na noite de sexta 13, após os atentados, um comovido presidente François Hollande declarou ter fechado as fronteiras, três dias de luto e um Estado de Emergência, que conseguiu prolongar por três meses como o apoio do Parlamento. 

A França, repete Hollande em seus discursos, está “em guerra”. 

Já no domingo 15, 12 caças franceses bombardearam Raqqa, província da Síria e feudo dos jihadistas do Estado Islâmico. Enquanto isso, o porta-aviões Charles de Gaulle rumava para o Mediterrâneo oriental com mais 36 caças. 

Por sua vez, o premier britânico David Cameron veio a Paris nesta segunda-feira 23 para apoiar Hollande. Ofereceu uma base britânica no Chipre para que a França possa realizar mais ataques. E disse estar pronto a participar da coalizão contra o Estado Islâmico, caso o Parlamento britânico aprove sua proposta. 

Aqui em Paris, reina o choque, angústias, crises, ataques de pânico, medo. Eis os efeitos do terrorismo.  

O filósofo Robert Redeker, alvo de ameaças de islamitas radicais em 2006, após ter publicado um artigo no diário Le Figaro, e desde então a viver sob escolta policial, concorda que vários franceses estão com medo. “Mas, apesar disso, a resposta da população francesa foi muito positiva no sábado e domingo (após os ataques na França, na sexta 13), ao irem para as ruas e praças e ao reunir-se em lugares públicos”, diz Redeker a CartaCapital. Reuniões em locais públicos, diga-se, eram proibidas, de acordo com o Estado de Emergência decretado por Hollande.  

Em uma entrevista ao semanário Le Point, Michel Onfray, filósofo, já entrevistado em duas ocasiões por CartaCapital, parece uma voz isolada nesses momentos de luto. “É preciso acabar com a islamofobia”, observa Onfray. “Os muçulmanos têm uma visão da história, algo que somos incapazes de ter.” O filósofo analisa o francês, e o europeu médio “com nosso trivialismo materialista, essa obediência a jogos eleitorais, às máfias do dinheiro, ao cinismo econômico, à tirania do instante midiático”. 

A França, vale exprimir, tem o maior número de cidadãos muçulmanos na Europa: 7 milhões. Sim, uma minoria desse total é radicalizada. No momento há 520 franceses na Síria e no Iraque. E 250 já voltaram para a França. 

Há quem diga que a solução é lidar com esses franceses islamitas para evitar novos casos. Por quê são radicais? Como se deu esse processo? No entanto, Hollande realizou um velho sonho da direita e da extrema-direita de Marine Le Pen, da Frente Nacional: tirar o passaporte do francês com elos com o terrorismo. 

Quanto à guerra contra o Estado Islâmico, Michel Onfray diz que é uma reação emocional, não racional. De saída, é preciso lidar com os muçulmanos radicais franceses. 

Em seguida, é preciso procurar o diálogo, não a Terceira Guerra Mundial.

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