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Internacional

Crônica

A era do medo

por Matheus Pichonelli publicado 12/09/2011 10h10, última modificação 06/06/2015 18h28
'Nossa adolescência começou na metade dos anos 90 sob a sombra da AIDS e da violência. A vida adulta começou no 11/09'. Por Matheus Pichonelli

Minha adolescência teve início em algum fim de tarde chuvoso de 1996 em Araraquara, cidade onde nasci. Estava prestes a completar 14 anos, reunido com alguns amigos do colégio, na casa de uma colega de classe, quando alguém teve a ideia de colocar “Música para Acampamentos” no aparelho de som. Era um CD da Legião Urbana, muito popular entre os meninos da época, que trazia músicas que (acreditávamos) pareciam traduzir todos os dilemas familiares e sociais que passávamos naquela idade. Uma das músicas dizia: "Existe alguém que está contando com você para lutar em seu lugar, já que nesta guerra não é ele quem vai morrer". E tudo parecia fazer um certo sentido.

Dias depois, morria Renato Russo, líder da banda que eu acabava de descobrir. Como muitos de sua geração, devido a complicações decorrentes da AIDS, a primeira palavra que ouvimos, quando crianças, quando nos falaram pela primeira vez sobre sexualidade.

Nossa adolescência era assim: começávamos a descobrir o mundo, e o mundo logo era tirado de nós. O fantasma da inflação, ainda recente, levava todo mundo a poupar. O medo do bandido levava a construir muros e grades e a instalar alarmes nos condomínios fechados. Poucos iam a pé para a escola: a caminhada ficava entre a porta do carro (dos pais) e o portão da sala de aula.

Da violência às doenças sexualmente transmissíveis, a juventude da segunda metade dos anos 90 parecia moldada pelo medo de tudo o que se apresentava estranho ou distante – talvez isso explique a artilharia que alguns, depois de velhos, passaram a despejar sobre grupos que não tinham as mesmas referências, a mesma cor, o mesmo domínio da linguagem, mas isso é tema para outra conversa.

Um dia a adolescência terminou. Dessa data eu me lembro: 11 de Setembro de 2001. Ainda morava em Araraquara, estava prestes a completar 19 anos, fazia cursinho e, àquela altura, eu e meus amigos tínhamos mais medo do desemprego e do funil universitário do que da violência urbana. Violência que, àquela altura, estava mais presente no discurso dos pais (ainda morávamos com eles) do que do caminho para a aula, agora sim completado a pé.

Naquele tempo, ainda que tardiamente, começávamos a nos interessar por política, graças a um professor mais engajado (o primeiro, que me lembre, desde que estava na escola) e que tinha alergia a figuras como Antonio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda – pivôs de escândalos daquele ano – e que queria processar meio mundo por conta do racionamento de energia causado pelo chamado “Apagão”. Alguns, como este professor, ainda nutriam um certo sentimento antiamericano, culpa da Alca que, juravam, faria estragos na nossa economia já combalida. Ainda assim, tudo eram fantasmas distantes: falar sobre globalização soava, para nós, tão exótico como estudar a Idade Média.

Naquela manhã de Setembro, o diretor do cursinho entrou na sala meio afoito para dar a notícia aos alunos. Estávamos assustados porque naquela época uma querida professora de literatura sofria de câncer e estava em tratamento, tendo de ser substituída. Temíamos que fossem notícias sobre ela que traziam o diretor até nossa sala, mas o assunto era outro. O assunto era a “terceira guerra mundial”, que parecia ter início a partir de seu anúncio.

Pela tevê da direção – talvez a única do cursinho – o diretor acabava de testemunhar o fim dos tempos. Aos quase cem alunos espalhados na sala, só restava imaginar como tinha sido. No meu caso, ao menos, com certa dificuldade: me esforçava, mas não conseguia visualizar quais daqueles arranha-céus que via nos filmes sobre Nova York eram as tais das “Torres Gêmeas” do World Trade Center. Tudo parecia tão irracional que uma das alunas chegou a demonstrar curiosidade para saber se o piloto também tinha morrido. Os pilotos, no caso, já que outros aviões seguiram para o Pentágono (a imagem desse prédio eu conseguia visualizar) e outro, disseram, para a Disney – mas este foi abatido antes.

Aula encerrada mais cedo, fomos todos para nossas casas ainda em dúvida sobre a gravidade do assunto. Eu me perguntava se a Globo daria atenção ao atentado ou se manteria a programação normal. Porque naqueles anos nos acostumamos, em casa, a almoçar na frente da tevê assistindo ao Globo Esporte. No caminho, meia dúzia de amigos se questionava: teriam sido os russos os autores do atentado?

Foi estranho ver tudo pela tevê, nosso principal meio de informação na época. Não tinha em casa internet banda larga, só discada (que era cara durante a semana). Ainda levaria um ano para ter meu primeiro aparelho de celular, mas isso também é tema para outra conversa. Meu testemunho, diante de uma tevê minúscula posicionada sobre a mesa do almoço, deixou gravado em mim o ruído das sirenes que vinham da parte de cima do hemisfério. As sirenes, o fogo, a fumaça, a repetição do choque das aeronaves, os gritos, o espanto no rosto dos bombeiros que não tinham como escalar as partes mais altas e tirar as pessoas presas naqueles andares. Vi um corpo caindo. E mal pude almoçar.

Do nosso velho apartamento, olhava pela janela e via ainda a mesma cidade: quente, sem muito trânsito, mas com seu movimento próprio, o movimento que estava acostumado a ver, e a ouvir, durante aqueles 18 anos.

Não parecia que algo mudava no mundo, exceto algumas expressões que aos poucos eram embutidas em nosso vocabulário, como “terrorismo”, “Al Qaeda”, “Osama Bin Laden”. Lembro que era um dia sem chuva e que a tarde parecia mais silenciosa que as outras tardes. Naquele dia, quando acordei, as torres gêmeas eram ainda o maior símbolo da ostentação do planeta, apesar da minha ignorância sobre elas. E os EUA eram a nação “inquebrável”. Tudo era parte de um mesmo amontoado para mim, que jamais havia viajado para outro país – não conhecia ninguém que tivesse conhecido as torres gêmeas e meus amigos que haviam chegado mais perto delas eram os endinheirados que já conheciam a Disney.

Observava um a um os prédios mais altos da cidade e pensava quais seriam os alvos de possíveis ataques se a guerra vingasse: a torre da antiga fábrica da Lupo, hoje um shopping center? O ginásio Gigantão? O teatro municipal? A estação ferroviária? O edifício Oitis? A Igreja Matriz ou da Santa Cruz?

Na tevê, George W. Bush prometia o revide. E eu me perguntava se estaria vivo dali um ano – mesma sorte não teriam os afegãos, os primeiros bodes expiatórios da virada do século.

No dia seguinte, na volta à sala de aula, o assunto era um só. Poucos admitiam ter medo: a maioria debochava, brincando sobre o que fariam se só nos restasse mais um dia, como na música de uma novela que assistíamos em casa. Afinal, tudo estava longe: Bush não era nosso presidente, a Al Qaeda não tinha nada contra nosso presidente, e o Brasil seguia em seu bem-aventurado ostracismo, sem energia elétrica (ao menos naquele ano) e sem guerra declarada.

A vida, aos poucos, voltava ao normal, pelo menos em Araraquara. Precisava voltar. Dali a alguns meses prestaríamos o vestibular, algo que definitivamente mudaria (ou não) as nossas rotinas e daria passaporte (ou não) para outro mundo, outro futuro.

Era o que pensávamos. Até que, já na sala de aula, ouvimos o som de um avião sobrevoando a cidade. E ficamos em silêncio. “Chegou a hora?”, eu pensava. Segundos depois, o silêncio.

A partir de então, toda vez que ouvia o som de aviões sobrevoando minha cabeça algo me alertava que estava em perigo potencial. Quando passavam, sentia um certo alívio. “Não foi dessa vez”. Os aviões iam e vinham pelo interior e, ao que consta, chegavam a seus destinos a salvos. Mas algo mexia no estômago e fazia as mãos tremerem. Algum receio despertava. Foi quando um amigo de infância, colega de sala de aula, confessou: “Cara, vou te falar. Sei que é ridículo, mas toda vez que ouço avião tenho vontade de me esconder debaixo da mesa”. Não éramos os únicos.

Nossa geração, que se acostumou a ver nossos ídolos serem ceifados por epidemias atribuídas ao pecado, desabrochava e se encerrava no mesmo pânico do desconhecido. Desconhecido, mas universal. Os terroristas que jogaram os aviões contra as Torres Gêmeas em Nova York acabavam de atingir a nossa cidade.

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