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Refém?

'A China define a pauta comercial brasileira'

por Gabriel Bonis publicado 18/08/2011 15h05, última modificação 18/08/2011 18h14
Para pesquisadora do IPEA, Luciana Acioly, o Brasil "não tem saída" e depende da demanda de commodities do país asiático, que cresce mais que os outros na turbulência global
O apetite chinês

A influência chinesa. Foto: AP

Em um cenário internacional no qual EUA e Europa ainda enfrentam os efeitos da crise econômica iniciada em 2008, que empurrou para uma profunda recessão países como a Grécia, a China esbanja crescimento confortável e parece protegida dos principais problemas da economia global.

“A China é um país autocentrado e possui uma trajetória de crescimento estruturada há mais de 30 anos”, explica a doutora em economia e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Luciana Acioly, em entrevista a CartaCapital.

Seguindo os planos de estender seus investimentos para todas as partes do globo, a potência asiática vem ampliando sua influência na América Latina. Segundo a revista britânica The Economist, até 2015 o país será o segundo maior parceiro econômico da região, atrás apenas dos EUA. Contudo, a inserção chinesa no continente já é significativa, focando-se no financiamento de projetos de infraestrutura e empresas a juros "leves", o que levou Equador e Venezuela a recorrerem aos cofres da potência asiática. Como retorno, ambos os países assinaram acordos com a China na área de energia.

Para Acioly, especialista em fluxos de capitais e em Brasil e China, essa aproximação com o continente visa ter maior controle sobre produtos necessários para garantir o desenvolvimento da segunda maior economia do mundo. “A estratégia chinesa é controlar as variáveis que alimentam o seu crescimento e que estão em outros países, como as matérias-primas”.

Nesse contexto, o Brasil desponta como um dos maiores fornecedores de commodities para a China, que respondeu por 60% da demanda de minério de ferro mundial em 2010, segundo a filial do Royal Bank of Canada em Hong Kong. Como os produtos da pauta de exportação brasileira são majoritariamente commodities, o País pode se tornar refém da demanda asiática. “O Brasil tem de lidar com a realidade, a China está crescendo enquanto outros países não e, por isso, é o motor das exportações internacionais", aponta Acioly. "Não vejo outra saída, a demanda chinesa vai ditar a pauta comercial brasileira”.

Acompanhe abaixo a entrevista na íntegra:

CartaCapital: Especialistas afirmam que a China, uma das maiores compradoras de commodities do mundo, deve crescer menos nos próximos meses. Nesse cenário, como uma possível queda na demanda chinesa por commodities pode refletir no Brasil?

Luciana Acioly: Uma desaceleração pode afetar o cenário comercial, porque a China é o maior importador do Brasil e a cada dólar que vendemos para o país, 80 centavos de dólar estão ligados a commodities. Porém, a China tem um programa nacional para aumentar os investimentos em habitação e isso abre outras oportunidades para empresas brasileiras, não apenas do ponto de vista da atividade empresarial, mas também da elevação na importação de minério de ferro e outros itens. Essa variação no gasto interno da China implica em uma mudança na estrutura da pauta exportadora brasileira, talvez algumas commodities que hoje predominam, percam lugar para outros produtos mais procurados pelo país asiático. O Brasil pode aproveitar esse redirecionamento do gasto chinês para o mercado interno, mesmo em um contexto de desaceleração, que pode significar novas oportunidades para o País.

CC: A China vem aumentando sua influência na América Latina, inclusive tornando os países da região dependentes de seus empréstimos a juros baixos. Mas no Brasil, os chineses investem mais em infraestrutura e empresas. Essa seria uma estratégia alternativa para tentar aumentar a dependência brasileira?

LA: Não sei se a questão principal seria a dependência. A China é um país muito autocentrado com uma trajetória de crescimento estruturada em torno das grandes diretrizes estabelecidas em seus planos quinquenais, operacionalizadas pelo partido socialista e pela estrutura de suas grandes empresas. O planejamento chinês analisa as variáveis que afetam o crescimento do país e identifica quais estão fora de controle. Uma delas é o acesso a matérias-primas. Logo, todas as ações estratégicas do Estado chinês e das empresas estarão voltadas para conseguir controlar, seja por meio do comércio ou do investimento direto, essas fontes que alimentam o seu crescimento e a expansão da indústria. Então, mesmo em um contexto de desaceleração, que não será grande, o país ainda precisa dessas variáveis que estão fora de seu território. O Brasil faz parte desse cenário como os demais países, a diferenciação da estratégia varia de acordo com o tipo de política adotada por cada um. Uma coisa é negociar com países africanos, cuja densidade institucional ainda é baixa, assim como o poder de negociação. No caso do Brasil, não podemos entrar na estratégia chinesa. Temos que usá-la para contemplar a nossa estratégia de expansão no cenário internacional, porque a economia chinesa avança em todas as áreas, formando conglomerados.

CC: Como a chegada da Foxxconn, que produzirá tablets no Brasil, se encaixa nessa estratégia de formação de conglomerados?

LA: A Foxxconn é uma empresa que, segundo levantamento do Ipea, vem realizando fusões em diversos países e se verticalizando para dominar todas as etapas do processo produtivo. Esse é um desafio para o Brasil, porque a estratégia desses conglomerados chineses – mesmo aqueles que não são declaradamente chineses, mas que desempenham um papel importante para a política daquele país -, é tentar fazer fusões e não investir em novas capacidades. A China usa essa estratégia em vários países onde quer expandir industrialmente. Portanto, cabe ao Brasil fazer a negociação correta no que diz respeito à greenfield [projetos a partir do zero], repasses de tecnologias e constituição de joint-ventures, para que o crescimento da China seja uma chave para a nossa estratégia de política industrial. Porém, precisamos entender que o país é um parceiro complexo com planos de expansão em todas as partes do globo. O Brasil tem densidade institucional e condições de negociar com a China para não ser capturado pela estratégia asiática sem ter algum benefício. Para isso, precisamos de uma política mais ativa, não somente em relação à Foxxcomm, mas a qualquer outra empresa estrangeira.

CC: Como negociar com os chineses?

LA: O que podemos fazer é negociar a isonomia do tratamento das empresas, coisa que a presidenta Dilma Rousseff já fez em sua viagem a Pequim. As mesmas condições que o Brasil oferece às empresas chinesas têm de ser as mesmas oferecidas às empresas brasileiras lá. O Brasil tem que mostrar capacidade negociadora dentro da sua estratégia de inserção internacional e da política industrial com esse parceiro, que já avança na América do Sul. A velocidade de crescimento da exportação da China para a região é muito mais forte que a do Brasil para a China.

CC: A intenção dos investimentos diretos da China no Brasil é ampliar sua cadeia global apenas comprando empresas nacionais?

LA: Essa é uma estratégia global, a China fez isso nos EUA durante a crise de 2008, quando comprou várias empresas. Isso também pode ocorrer no Brasil, até porque os chineses têm uma política de Going Global, uma estratégia de integração de cadeias, segundo um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2008. Ao controlar a cadeia, controlá-se os preços e para a China isso é importante porque aumenta a capacidade de negociação com "clientes" e "fornecedores", além de permitir ao país rebaixar preços e impactar menos a sua inflação.

CC: Segundo especialistas, o Brasil está mal inserido no mercado internacional e o mercado de exportação do País dependende da China. Essa afirmação tem fundamento?

LA: O Brasil diversificou seus parceiros comerciais, mas o problema é que exportamos commodities. Mesmo que não seja para a China. No contexto internacional, outros países não estão crescendo e a China está. Certamente a China tem um impacto positivo sobre a balança comercial de outros países, uma vez que cresce mais e outros crescem pouco. Logo, se a China cresce e precisa de matérias-primas, ela vai puxar as importações de países que possuem esses produtos. Essa é uma realidade com a qual o Brasil tem de lidar, está alheio a sua vontade. Não vejo outra saída, a demanda chinesa vai ditar a pauta comercial brasileira.

CC: Nessa relação entre Brasil e China quem está em vantagem?

LA: Se formos considerar um jogo de soma, a China está ganhando. É um país que tem uma estratégia e a está perseguindo há 30 anos. A China não para de crescer e o faz em ritmo contínuo. Isso significa mobilizar todo o governo, a burocracia e fazer diversos estudos econômicos. Eles estão programados para crescer. Nesse contexto, possuem uma posição melhor nessa parceria e no mundo. Essa é uma preocupação do Brasil, que pretende melhorar a parceria. Precisamos negociar e a questão do câmbio é importante. Enfrentamos dificuldades porque lidamos com um país com um câmbio muito competitivo e o nosso muito valorizado. Outro ponto é a negociação cara a cara para definir a entrada das empresas chinesas no Brasil e como poderemos nos beneficiar no ponto de vista tecnológico com parcerias que agreguem valor nesses investimentos.

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