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A burca, o papa e o Estado laico

por Wálter Maierovitch publicado 10/08/2010 11h16, última modificação 12/08/2010 15h59
O Reino Unido recusa-se a proibir a indumentária como a França. E Ratzinger pretende cobrar ingressos em Londres
A burca, o papa e o Estado laico

Uma pesquisa com eleitores britânicos feita pelo YouGov revelou que 67% dos consultados são contrários à apresentação, fora de casa, de pessoas com véu, burcas e nicabs. O Reino Unido recusa-se a proibir a indumentária como a França. Por Wálter Maierovitch. Foto: Shah Marai/AFP

No fim de julho, em Londres, certo motorista de ônibus dedicado ao transporte público proibiu o ingresso de um deficiente visual acompanhado de cão-guia. O condutor era um fundamentalista islâmico a acreditar que os cães impuros contaminam os ambientes. Com a divulgação pela mídia, descobriu-se igual resistência por parte de taxistas fundamentalistas. O ministro da pasta dos Transportes, Norman Baker, alertou para a ilegalidade das condutas e procurou encarar o fato como normal, numa sociedade multicultural.

A fala do ministro não conteve os protestos que vieram dos filiados do direitista partido Ukip e dos tories de plantão, todos ainda engasgados com a deliberação do novo governador conservador britânico de não proibir o uso em locais públicos de véus, burcas e nicabs. Direitistas entendem que o governo do premier David Cameron desconsiderou a vontade da maioria dos britânicos e dividiu a Europa ao se desviar da trilha percorrida por franceses e belgas. Uma pesquisa com eleitores britânicos feita pelo YouGov revelou que 67% dos consultados são contrários à apresentação, fora de casa, de pessoas com véus, burcas e nicabs. Para Philiph Hollobone, considerado um líder tory, tais hábitos islâmicos representam, quando usados em público, propaganda voltada a afirmar a superioridade de um credo religioso.

Para engrossar o caldo dos que usam o discurso da insegurança, geradora do medo, para impedir o avanço de sociedades multiétnicas serviram, também, a capa e a reportagem jornalística da última edição semanal da revista Time. A capa mostra uma afegã de 18 anos, de nome Aisha, sem o nariz e as orelhas. Ela vivia numa região tribal e havia sido condenada à pena corporal por um tribunal islâmico sunita, formado por juízes talebans. Conforme contou a jornalista Aryn Baker, o castigo foi imposto à jovem por ela tentar fugir de casa em decorrência de não suportar os maus-tratos impostos pelo seu esposo e pelos sogros. Nesse tribunal fundamentalista localizado nos confins entre o Afeganistão e o Paquistão, onde Osama Bin Laden se esconde e o Corão funciona como código penal, lei civil e Constituição, não se poderiam esperar senão atos de barbárie. Mas, por evidente, isso não ocorre nos moderados tribunais islâmicos em funcionamento em território britânico.

A França, em 2004, proibiu os alunos de escolas públicas de ostentar sinais identificadores de credos religiosos. Uma proibição válida para todos. Por exemplo, vedou-se o véu para a islâmica, o quipá para os judeus e a cruz no peito para os católicos. Essa lei reforçou o princípio da laicidade do Estado francês. Além disso, como salientou Gilles Kepel, precursor dos estudos sobre a Al-Qaeda com o livro O Profeta e o Faraó e defensor do diálogo entre ocidentais e islâmicos, os estudantes compreenderam que aquilo que têm em comum assume maior importância do que as diferenças.

Em outubro próximo, o Senado francês vai examinar o projeto de lei, já aprovado pelos deputados, que proíbe o uso do chamado “véu integral” nos lugares públicos: ruas, hospitais, repartições, aeroportos etc. Algo bem diverso da lei de 2004, pois focada apenas nos islâmicos. O polêmico projeto serviu, na França, para abrir uma batalha cultural-religiosa, apesar da maquiagem colocada, ou seja, de que seria uma lei a garantir a ordem pública. Com a proibição de se esconder a identidade fisionômica, ficaria mais fácil combater o terrorismo, afirmam os seus defensores.

Essa frente de batalha o governo britânico não abriu. Percebeu o efeito bumerangue, já que uma ação policial contra mulher islâmica com véu a colocaria, na visão dos extremistas, como mártir de perseguição religiosa. Apesar disso, os protestos continuam e o supracitado Hollobone prometeu apresentar, em 3 de dezembro, um projeto de lei no Parlamento Britânico a reproduzir o francês.

Os protestos, no entanto, poderão esfriar. Não pela chegada do outono, mas pela visita do papa Joseph Ratzinger entre 16 e 19 de setembro. Ele visitará a Inglaterra, o País de Gales e a Escócia, onde será recebido pela rainha Elizabeth, chefe da Igreja Anglicana, que admite sacerdotisas nas celebrações religiosas.

Ratzinger, cuja falta de senso de oportunidade e conveniência até Deus duvida, chegará em Londres como uma novidade. Quem quiser rezar na sua companhia no londrino Hyde Park, no dia 18, terá de desembolsar 10 libras esterlinas. Quem perder essa oportunidade não deve se desesperar. Por 25 libras poderá assistir à performance de Ratzinger na beatificação de John Henty Newman, um cardeal britânico do século XIX.

Como já tivemos quem expulsou vendilhões do Templo de Jerusalém, convém recordar o esclarecedor e inspirado alerta do padre Lombardi, assessor de imprensa do Vaticano: “Não se trata de pagar um bilhete de ingresso, mas de uma contribuição para a organização dos dois eventos”.

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