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Internacional

“Twitter cubano”, a Baía dos Porcos virtual de Obama

por José Antonio Lima publicado 11/04/2014 05h39, última modificação 11/04/2014 09h52
Programa secreto para instigar uma “primavera cubana” na ilha revela o caráter arcaico da política de Washington para Cuba
Roosevelt Pinheiro / ABr
Raul

Raúl Castro: com o embargo dos EUA ainda funcionando, o ditador consegue manter a abertura de Cuba sob controle

A política externa dos Estados Unidos com relação a Cuba é uma coleção de desastres. Há alguns trágicos, como a invasão à Baía dos Porcos, em 1961, e outros apenas folclóricos, como o plano para matar Fidel Castro com charutos envenenados ou explosivos. Desde a semana passada, o mundo ficou sabendo que a administração de Barack Obama conseguiu levar a cabo um plano para Cuba tão patético quanto o do charuto e potencialmente trágico como a invasão de 1961: o “Twitter cubano”.

O caso veio a público na quinta-feira 3, com uma extensa reportagem [em inglês] da Associated Press a respeito do ZunZuneo, um sistema de mensagens por celular que funcionou em Cuba entre 2010 e 2012 e era financiado, de forma secreta, pela Usaid, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. De acordo com documentos obtidos pela AP, com o ZunZuneo a Usaid pretendia criar uma base de usuários por meio de notícias “não controversas”, sobre temas como futebol, música e alertas de furacões, e, aos poucos, introduzir mensagens políticas. Desta forma a Usaid planejava formar grupos de ativistas que poderiam estimular uma Primavera Cubana e “renegociar a balança de poder entre o Estado e a sociedade”.

O programa chegou a ter 40 mil usuários cubanos, mas fechou em 2012, quando acabou o dinheiro da Usaid para o projeto. Para obter financiamento privado, uma integrante do Departamento de Estado dos EUA chegou a se reunir com Jack Dorsey, cofundador do Twitter, mas não teve sucesso, de acordo com a AP.

O Congresso dos EUA está atualmente examinando a legalidade do programa. A Usaid e a Casa Branca afirmam que o ZunZuneo não era secreto, o que exigiria anuência de Obama. Não se sabe como esta posição será defendida. Documentos mostram que a Usaid foi longe para garantir que os serviços de inteligência cubanos não descobrissem a origem do dinheiro. Para isso, criaram empresas fora dos EUA que triangulavam o financiamento por meio das Ilhas Cayman, um paraíso fiscal, e cogitaram entregar a companhia um CEO que não teria conhecimento sobre a real função política do ZunZuneo.

A existência do programa e sua revelação representam um desastre em várias dimensões.

Em primeiro lugar, porque afetam a política externa norte-americana de forma negativa. A Casa Branca tem como uma de suas missões promover a democracia no mundo, o que, em tese, é bom. Essa prática se torna absurda, entretanto, quando se transforma em derrubada de governos, especialmente diante do histórico dos EUA de, em nome da democracia, ajudar a instalar ditaduras, como ocorreu no Brasil. O caso do ZunZuneo é particularmente problemático pois foi realizado pela Usaid, uma agência de fomento à “democratização” conhecida por uma série de medidas consideradas subversivas por governos estrangeiros, em especial os da América Latina.

O caso atinge em cheio o norte-americano Alan Gross, preso em Cuba desde 2009. Empregado da Usaid, Gross foi condenado a 15 anos de prisão por crimes contra o Estado cubano por entregar equipamentos de comunicação para a comunidade judaica da ilha. Com a Usaid envolvida no ZunZuneo, como Gross poderia provar que não estava em Cuba para ajudar a derrubar o regime?

Em segundo lugar, o caso do “Twitter cubano” reforça o arcaísmo da política externa dos Estados Unidos para Cuba, simbolizado pelo embargo econômico contra Havana. Imposto em 1963 para forçar o fim do regime castrista, o bloqueio é um fracasso retumbante. Cinco décadas depois de instalado, o embargo conseguiu apenas precarizar a vida da população cubana e, ao mesmo tempo, dar uma justificativa ao regime por seu fracasso econômico.

Uma pesquisa publicada em fevereiro pelo Atlantic Council mostrou que 56% dos norte-americanos defendem a normalização das relações com Cuba, um índice que vai a 63% na Flórida, Estado com a maior comunidade cubana do país. Hoje, o embargo é sustentado por setores extremistas da política norte-americana, ainda encastelados no Congresso, onde conseguem barrar modificações na legislação que sustenta o bloqueio, apesar de não terem qualquer justificativa razoável para mantê-la.

O pior efeito do caso ZunZuneo, no entanto, é justamente sobre os ativistas que estão legitimamente lutando pela democratização da ilha, a mais famosa deles Yoani Sánchez. Uma das estratégias do regime cubano para manter a ditadura é bloquear a entrada de equipamentos eletrônicos e serviços que podem ser usados para “subversão”. A outra é deslegitimar jornalistas e blogueiros independentes atribuindo a eles a pecha de mercenários patrocinados pelos Estados Unidos. Com a revelação do “Twitter cubano”, o regime ficará ainda mais paranoico e ampliará a perseguição a seus opositores.

O regime de Cuba é uma infeliz lembrança da Guerra Fria, mas também o é a política externa dos Estados Unidos para a ilha. Está claro – e o fracasso de 50 anos do embargo é a prova cabal disso – que as estratégias atuais de Washington apenas reforçam o controle da ditadura sobre o povo. Desde que Raúl Castro assumiu o lugar de Fidel, Cuba tem realizado uma série de aberturas, a últimas delas permitindo que empresas de capital 100% estrangeiro atuem no país. Com o embargo em pé, o governo de Havana consegue moldar a abertura e mantê-la sob controle, o que não ocorreria sem o bloqueio. É tudo o que os irmãos Castro desejam.