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Entrevista - Norman Finkelstein

“Palestinos não podem pagar pelo Holocausto”

por Marsílea Gombata publicado 04/12/2013 06h19, última modificação 04/12/2013 09h42
Especialista critica a exploração da "cultura do Holocausto" e explica por que o romance entre judeus americanos e Israel está chegando ao fim
Arquivo pessoal
Norman Finkelstein

'A luta dos judeus americanos por direitos mais liberais entra em conflito com os próprios valores do Estado de Israel', diz especialista

Os palestinos não podem pagar o preço de um sofrimento imposto aos judeus por potências europeias. É simplesmente inaceitável. A afirmação é do cientista político norte-americano Norman Finkelstein. Incansável crítico da política do Estado de Israel, o especialista judeu americano critica aquilo que vê como exploração da "cultura do Holocausto". "Os judeus não podem se basear no Holocausto para se justificar, assim como justificar a criação de um Estado às custas dos palestinos."

Autor de livros como This Time We Went Too Far, What Gandhi Says e Knowing Too Much - Why The American Jewish Romance With Israel is Coming to an End, lançado no ano passado, Finkelstein explica, em entrevista a CartaCapital, que relembrar o Holocausto "não se trata apenas de repensar o sofrimento pelo qual os judeus passaram, mas, sim, de uma arma ideológica usada largamente por Israel".

Uma ideologia por trás da política de Israel que, segundo ele, tem sido responsável por afastar cada vez mais judeus americanos mais progressistas do próprio Estado israelense. "Se você olhar todas as pesquisas nos EUA, os judeus são sempre o grupo mais liberal, com exceção dos afro-americanos. E a maneira como Israel tem levado adiante sua política de Estado, com constantes agressões e violações de direitos humanos, tem ajudado a afastar esses judeus do Estado israelense. A luta dos judeus americanos por direitos mais liberais entra em conflito com os próprios valores e propósitos do Estado de Israel."

Confira os principais trechos da entrevista:

CartaCapital O senhor costuma falar de “um novo processo de paz” no Oriente Médio. Como seria ele e o que traria de diferente?

Norman Finkelstein – Há dois processos de paz em curso. Um tem apoio da comunidade internacional, em particular das Nações Unidas e da Assembleia-Geral da ONU. É um processo que começou depois de 1967, com a resolução 242 do Conselho de Segurança, sob a qual Israel deve se retirar dos territórios ocupados durante a guerra de 1967. A resolução foi modificada, e hoje a exigência é a criação de um Estado palestino e também a resolução da questão dos refugiados.

Se você notar, todos os anos é a mesma coisa, com o mundo em som uníssono, em que todos concordam que a solução deve contemplar dois Estados dentro das fronteiras de 1967 e uma solução para os refugiados palestinos. É a única solução aceita pela comunidade internacional, com exceção dos EUA, que rejeitam esses termos.

Assim, existe um outro processo de paz em andamento sob responsabilidade dos EUA, que inclui Israel e representantes palestinos. Esse processo de paz tem sido levado adiante pelo secretário de Estado John Kerry e é basicamente desenhado para forçar Israel a ceder perante os palestinos. É um processo que inclui as negociações de Oslo, de 1993, as de Camp David e também a atual.

CCO senhor acredita que o recente acordo conseguido com o Irã pode prejudicar esse processo?

NF – A principal consequência é a tentativa de o Ocidente em impedir o Irã de ter poder nuclear, o que pode ser bastante destrutivo em termos de não proliferação de armas nucleares. Existem dois problemas principais em relação a essa questão. O primeiro deles é que os EUA vêm se mostrando ambíguos em relação ao Irã ser capaz ou não usar ou seu poderio nuclear para fins pacíficos. Se os EUA negarem ao Irã o direito de desenvolver energia nuclear para fins pacíficos é certo que o Irã rejeitará esse acordo. Então temos de esperar as negociações continuarem, para saber quais manobras os EUA tentarão.

A outra ressalva que eu faria é sobre o grupo 5+1, que inclui os membros do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha. Ele tenta impor determinadas normas ao Irã, mas eles mesmos (com exceção da Alemanha) violam o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP). O artigo 6 do TNP define que os países com armas nucleares – ou seja, neste caso, EUA, Rússia, Reino Unido, China e França – devem eliminar suas armas nucleares se forem signatários. E aí temos um paradoxo: os mesmos países que tentam impor certas condições ao Irã não cumprem com suas obrigações e violam o tratado, quando também deveriam eliminar suas armas nucleares.

CC O Holocausto deixou marcas profundas, que podem ser vistas até os dias atuais. Qual é a relação entre a “cultura do Holocausto”, termo cunhado pelo senhor, e a política do Estado de Israel atual?

NF – O Holocausto nazista foi a principal justificativa para a criação do Estado de Israel e é ainda a maneira encontrada pelas autoridades para justificar os crimes levados adiante contra os palestinos. Os judeus, no entanto, não podem se basear no Holocausto para se justificar, assim como justificar a criação de um Estado às custas dos palestinos. Até porque a intenção de se criar um Estado judeu precede o Holocausto nazista e não pode ser explicada por ele. O objetivo começou a ser desenhado no fim do século 19 e não tem relação direta com o Holocausto. É certo, por outro lado, que muitos judeus, incluindo meus pais, precisavam de um refúgio onde não ocorreria uma nova explosão de antissemitismo. Mas essa necessidade, por maior e mais inegável que seja, não pode justificar a limpeza étnica que vem sendo feita contra os palestinos. É simplesmente inaceitável os palestinos e árabes, em geral, terem de pagar o preço por um sofrimento que não foi perpetrado por eles, mas, sim, por potências europeias.

Os judeus continuam usando o Holocausto nazista para dar apoio a seu comportamento imoral. E Israel fala de violações de direitos humanos por palestinos e ataques quando deveria prestar contas à comunidade internacional por seu comportamento imoral e ilegal. Israel, de certa forma, sempre invoca o Holocausto nazista para argumentar contra uma nova ameaça, um novo inimigo, seja Saddam Hussein, Mahmoud Ahmadinejad ou Hassan Rouhani. Não se trata de repensar o sofrimento pelo qual os judeus passaram, mas, sim, de uma arma ideológica usada largamente por Israel.

CCComo o senhor enxerga o Muro de Separação? Em sua opinião, o Oriente Médio vive hoje um regime de apartheid?

NF -  Em 2004, a Corte Internacional de Justiça emitiu uma opinião sobre os territórios palestinos da Cisjordânia quase unânime: a ocupação por parte de Israel era ilegal deveria acabar e a comunidade internacional tinha a responsabilidade de supervisionar o desmantelamento do muro. Sob a lei internacional, o muro é algo ilegal e deve ser removido. Israel argumenta ter construído o muro para se proteger, mas deveria ter construído o muro em seu território e não nas áreas demarcadas para serem os territórios palestinos. A questão sobre se Israel tem ou não o direito de se proteger deveria levar em conta também se tem ou não o direito de se estender ao território do povo palestino.

Sobre o apartheid, o Haaretz, um dos jornais mais influentes em Israel hoje em dia, publicou um editorial crítico na semana passada sobre a política de Israel em relação aos território palestinos ocupados. Alguns especialistas, como o judeu sul-africano John Dugard e outras figuras internacionais como Jimmy Carter também enxergam na política de Israel uma nova forma de apartheid na Cisjordânia ocupada.

CC O senhor costuma dizer que o romance entre os EUA e Israel está se aproximando do fim. A que se deve isso?

NF - As evidências de que o romance entre judeus americanos e Israel está chegando ao fim não são, na minha opinião, muito difíceis de serem percebidas. Os judeus americanos são liberais em suas convicções políticas, e a maioria votou em Barack Obama nas últimas duas eleições. Em 2008 cerca de 80% dos judeus americanos votaram em Obama; em 2012 foram 70%. Se você olhar todas as pesquisas, os judeus são sempre o grupo mais liberal, com exceção dos afro-americanos. Para se ter uma ideia, 80% deles apoiam fortemente o casamento gay, o que mostra como são liberais. E a maneira como Israel tem levado adiante sua política de Estado, com constantes agressões e violações de direitos humanos, tem ajudado a afastar esses judeus do Estado israelense. A luta dos judeus americanos por direitos mais liberais entra em conflito com os próprios valores e propósitos do Estado de Israel. Não deveria ser surpresa, portanto, essa separação entre eles.

CCQual solução, em sua opinião, tem mais chances de trazer paz à região: aquela baseada na criação de dois Estados ou a de um Estado binacional para árabes e judeus?

NF - Não acredito que seja muito útil ficar discutindo ou especulando. Olhando para a situação e o apoio dado pela comunidade internacional, a possibilidade vislumbrada hoje é a de dois Estados dentro das fronteiras de 1967 e uma resolução para a questão dos refugiados. Creio que essa é a solução possível, a solução que tem apoio da maioria da comunidade internacional.