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Entrevista - Tarek Wiliam Saab

“Não existe perseguição política na Venezuela”

por Sergio Lirio publicado 06/05/2015 17h09, última modificação 06/05/2015 17h10
É o que garante Tarek Wiliam Saab, ativista dos direitos humanos e presidente do Conselho Moral Cidadão e da Defensoría Del Pueblo
Reprodução

Três venezuelanos visitaram o Brasil nesta semana. Mitzi Capriles e Lilian Trintori receberam a máxima atenção de uma parte da mídia e de políticos da oposição. Capriles é casada com Antonio Ledesma, prefeito de Caracas, notório opositor, atualmente em prisão domiciliar acusado de conspiração. Trintori, com Leopoldo López, outro crítico do governo atrás das grades.

Segundo o governo, López incitou as violentas manifestações entre fevereiro e maio do ano passado que deixaram 43 mortos e mais de 800 feridos. De acordo com os oposicionistas venezuelanos, López é um preso político, perseguido por pensar diferente da administração de Nicolás Maduro. Trintori participou do Roda Viva, da TV Cultura, e iria expor sua versão dos fatos no Congresso na quarta-feira 6.

Tarek Wiliam Saab não recebeu a mesma atenção dos meios de comunicação, embora também tenha sido convidado a debater na Comissão de Direitos Humanos do Senado e a se reunir com autoridades brasileiras. Na noite da terça 5, Saab participou de um debate na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo. Desde o início deste ano, ele preside o Conselho Moral do Poder Cidadão, criado pela Constituição de 1999. Acumula o cargo com o comando da Defensoria Del Pueblo, outra estrutura independente dos poderes tradicionais.

A passagem pelo Brasil do reconhecido ativista de direitos humanos serviu de contraponto às perorações das esposas dos dois opositores. Na terça 5, antes do debate no Largo São Francisco, ele concedeu uma longa entrevista em vídeo a CartaCapital, cujos principais trechos legendados serão exibidos no site da revista nos próximos dias. Antes, leia a seguir um breve resumo da conversa: 

- Sobre perseguição aos opositores e violação aos direitos humanos:

A Venezuela é um Estado garantidor dos direitos humanos. A Constituição de 1999 estabeleceu essas garantias e o modelo é reconhecido no mundo inteiro. No passado, o país viveu sob uma política de institucionalização do extermínio, da perseguição, do desaparecimento forçado, da violação sistemática dos direitos humanos. Basta lembrar do Caracazo, ocorrido em 27 de fevereiro de 1989, que deixou 3 mil mortos comprovados. Quatro batalhões do Exército massacraram o povo que saiu às ruas pacificamente para reclamar da alta dos preços. Hoje é impossível um chefe de Estado na Venezuela determinar um assassinato ou uma prisão arbitrária. Não é política de Estado. Mas se ocorrer uma violação aos direitos humanos, os órgãos responsáveis irão agir. O Ministério Público, a Defensoria do Povo serão acionados. A impunidade do passado acabou. No caso dos opositores, posso dizer que não está institucionalizada no país a perseguição política ou por se pensar de forma diferente.

- Sobre a violência contra manifestantes:

Entre fevereiro e maio do ano passado ocorreram na Venezuela manifestações insurrecionais. Um setor extremista da política decidiu não aceitar o governo constitucionalmente eleito. Se recusou a reconhecer o presidente Nicolás Maduro ou qualquer um dos poderes e optou por uma via violenta. O resultado foi a morte de 43 venezuelanos, além de 800 feridos. Das 43 mortes, cinco resultaram da atuação irregular do corpo de segurança do Estado. Os responsáveis estão presos, processados por homicídio. Os outros 38 venezuelanos foram mortos pela ação de manifestantes armados. No Brasil, pelo que estou informado, um cidadão que venha a cometer um crime desse tipo responde pelos delitos em nível federal. A sociedade do meu país condenou unanimemente a ação desses extremistas. Essas guarimbas (desordem social) terroristas, criminosas, não têm o apoio de 0,0001% da população. À parte os mortos e feridos, essa violência causou à Venezuela um prejuízo de mais de 10 bilhões de dólares. Fico a imaginar como o Estado brasileiro agiria se esse tipo de protesto acontecesse aqui.

- Sobre a demonização da Venezuela:

Há uma campanha internacional para afetar a Venezuela. Não é para prejudicar só o governo. É algo pior, para prejudicar o país, política e economicamente. Quem dirige esta campanha, desde 1999, são os Estados Unidos e seus aliados no mundo. A Venezuela se converteu em uma arma para a política externa de muitos países, entre eles o Brasil. A Venezuela é usada para o debate ideológico no Brasil, na Argentina, na Colômbia, nos Estados Unidos, por causa dos latinos da Flórida, na Espanha...