Você está aqui: Página Inicial / Internacional / “EUA foram longe demais, e é bom que isso seja dito”

Internacional

Entrevista - Andrew Hurrell

“EUA foram longe demais, e é bom que isso seja dito”

por Matheus Pichonelli publicado 26/09/2013 03h24, última modificação 26/09/2013 17h14
Após discurso de Dilma na ONU, professor de relações internacionais de Oxford defende uma “posição clara” de repúdio de países como o Brasil em relação à política de segurança americana
Universidade Oxford
Andrew Hurrell

O professor de relações internacionais de Oxford, Andrew Hurrell

Os Estados Unidos têm razão em se preocupar com a sua segurança, mas o caso de espionagem contra autoridades brasileiras mostra que o Washington foi longe demais. É o que afirma o professor do departamento de política e relações internacionais da universidade Oxford Andrew Hurrell.

Segundo Hurrell, ao manifestar o “repúdio” e a “indignação” aos casos de espionagem, durante a abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, a presidenta Dilma Rousseff deixou claro que os Estados Unidos passaram dos limites. “Penso que é tremendamente importante que líderes políticos de diferentes partes do mundo contestem o que está acontecendo”, afirmou Hurrell, um dos principais convidados do 37º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciência Sociais (Anpocs), realizado em Águas de Lindóia, no interior de São Paulo.

Apesar do endurecimento do discurso, a fala da presidenta, segundo o especialista, não muda a relação diplomática, sobretudo comercial, entre os dois países. “A diplomacia é algo de curto prazo. Mas o mais importante é a diplomacia a médio e longo prazo. Acho que há uma questão de relacionamento entre Brasil e EUA e pode ser que este seja um item de inflexão entre os países. Mas não acredito que seja algo tão sério. A longo prazo o Brasil tem de pensar na forma de relacionamento que pretende criar. Obviamente, é difícil quando envolve uma questão de um país tão poderoso como os EUA, mas às vezes é preciso tomar uma posição clara.”

E completa: “A diplomacia é sempre uma mistura de acomodação e confronto. A questão chave é encontrar um equilíbrio”.

Nos países do Norte, afirmou o professor, “sempre se fala que os países emergentes estão fugindo do debate porque falam do que não gostam mas não propõem novas ideias". Dilma, durante seu discurso na ONU, ensaiou uma resposta a esta crítica. “O que se diz é que falta pensamento e responsabilidade por parte desses países emergentes. Então é muito importante um país como o Brasil entrar para o debate tentando mudar a agenda exatamente para propor uma discussão mais ativa.”

Hurrell se refere à proposta exposta por Dilma Rousseff para o estabelecimento de um marco civil multilateral das regras da internet. A ideia, segundo ela, é impedir que a rede seja usada como “arma de guerra”.

Hurrell ressaltou, no entanto, que esse tipo de governança é praticamente inviável em razão das novas tecnologias. “É impossível governar a internet”. A dificuldade, segundo ele, consiste na diferença de posição entre os países – na China, por exemplo, a internet é censurada –, das grandes companhias e dos usuários da rede.

“(A regulação) não pode ser só de Estados. Não dá. Você tem de ter a participação dos grupos da sociedade civil. Só as grandes companhias tecnológicas têm acesso a esse conhecimento”, ressalta.

Brics. Convidado a falar sobre o futuro dos Brics durante o encontro da Anpocs, o professor avaliou o papel de países como Brasil, Rússia, Índia e África do Sul hoje nos fóruns multilaterais. Ele criticou tanto os entusiastas que dizem que os Brics “já mudaram o mundo” e os pessimistas que minimizam o seu papel. “Há os que dizem que os Brics não valem nada, que há muitas diferenças entre os países e poucos interesses em comum. De outro lado, há um discurso dizendo que os Brics já mudaram o mundo e que há agora um novo esquema de poder. Os dois estão errados.”

Para Hurrell, os países do bloco já contribuíram para “uma mudança sensível” em termos políticos e diplomáticos. “Antes de uma reunião do G-20, aqueles países podem ter uma decisão comum ou ao menos se consultar sobre a posição de cada um. É o que G-7 fez dentro do G20. É um exemplo de um sistema mais plural, mais aberto. Mas, sozinhos, os Brics não estão mudando o mundo. Por isso precisamos pensar além dos Brics.” Para ele, a tendência é que países como Irã e Nigéria passem a participar dos encontros de países emergentes para responder às demandas de uma relação cada vez mais complexa entre Estados e sociedade civil.

Revolução e democracia. Para o especialista, um exemplo da complexidade dessa correlação de forças são os protestos observados pelo mundo. Segundo ele, o resultado da Primavera Árabe decepcionou quem esperava ver, a partir do movimento, a transposição entre um sistema autoritário para um sistema democrático liberal. “Neste sentido, a Primavera Árabe fracassou. Mas as grandes mudanças não são assim. São mais complexas. As mudanças políticas são muito indeterminadas. Mesmo se você tem um movimento no sentido democrático, surgem muitas questões sobre a qualidade e o tipo de democracia. Ela será mais participativa? Dará ênfase à igualdade econômica? Há a abertura de uma discussão sobre o que é a democracia e a discussão das questões da democracia em face de outros sistemas. Há muitas pessoas que não acreditam na democracia como a única alternativa para o mundo”.

No caso do Brasil, avalia, os protestos serviram como uma reflexão do próprio sistema democrático. “Há problemas claros na questão da representatividade dos partidos do sistema político. Quem está representando quem? Há também a questão do Estado e a sociedade. Há muitas pessoas pagando impostos para o Estado e recebendo serviços que não valem tanto. E estão recorrendo cada vez mais a serviços privados, mesmo quando a economia vai bem. Se a economia tem um crédito mais estreito, essa relação entre Estado e sociedade, mais pra frente, enfrentará problemas.”