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Editorial

“Venha, aqui o espera a cadeia”

por Mino Carta publicado 10/02/2012 10h18, última modificação 10/02/2012 10h20
Resposta do presidente Napolitano ao pedido de Battisti: voltar à Itália como cidadão livre
Battisti

Um terrorista no carnaval: perfeito como o intérprete de "A Visita da Velha Senhora". Foto: AFP

Atendo ao conselho dos meus solícitos botões e cuido de esclarecer as razões da minha insistência em evocar o chamado Caso Battisti. Muito mais cabeludo do que parece, um capítulo apenas de um vasto enredo, no qual cabe, por exemplo, o misterioso e veloz arquivamento da Operação Satiagraha. Com todas as suas implicações, a começar pelas falsas acusações de Gilmar Mendes à Abin e o desterro do delegado Paulo Lacerda.

Haverá quem se pergunte: que ligações poderiam existir entre Cesare Battisti e Daniel Dantas? À parte o fato de que tudo se faz para que ambos sejam felizes, ligações diretas obviamente não há, mas, entre uma história e outra, há denominadores e figuras comuns. E estas investidas de amplos poderes para satisfazer os interesses de uma determinada facção política. No desenrolar do entrecho, espaço candente terá de ser reservado ao dito mensalão, nas dimensões federal e mineira.

Antes de mais nada, no Caso Battisti o que me move são os elos com os demais capítulos deste formidável folhetim político, protagonizado pelas conveniências de poucos, com suas motivações de pura fancaria e a inesgotável disposição de enganar a plateia. Observem que em todos os desenvolvimentos da ação alguns intérpretes não mudam: José Dirceu, Luiz Eduardo Greenhalgh, Tarso Genro. Outros, como José Eduardo Cardozo, ou Eduardo Suplicy, ou Nelson Jobim, ou Márcio Thomaz Bastos, ou Sigmaringa Seixas, ou muitos outros, têm direito a participações de duração variável.

Os botões sugerem, no entanto, que me concentre em Battisti, de sorte a justificar minha insistência ao trazê-lo para este espaço. E então informo: o asilado escreveu uma carta não isenta de emoção, endereçada ao presidente da República da Itália, Giorgio Napolitano. Considero a notícia muito interessante e digna de registro. A partir da seguinte consideração: o terrorista sabe mais do que seu primeiro protetor e ex-ministro da Justiça, o atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, em matéria de direito e relação internacionais.

Segundo Genro, a questão do asilo é da competência dos governos, e no caso entende que do lado da Itália estava “o governo mafioso” de Silvio Berlusconi. O pedido de extradição de Battisti é anterior, porém, ao derradeiro mandato berlusconiano e, de todo modo, a questão é da alçada dos Estados, como reconhece o próprio Battisti ao se dirigir a Napolitano. O asilado invoca a possibilidade de voltar à sua terra em santa paz, na qualidade de livre cidadão. Não se exclua a -possibilidade de que o arrabalde romano esteja tão sequioso em recebê-lo de volta quanto os cafés radicais-chiques de Paris.

Surge em cena, no último ato, a personagem chamada a fechar o círculo e a representar uma nação inconformada com a peculiar trama urdida a 10 mil quilômetros de distância por um grupelho de alegres compadres tropicais. O presidente Napolitano acusa o recebimento da carta e responde com bonomia: sim, esteja à vontade, venha, que a cadeia o espera.

Quanto a mim, insisto no assunto porque me agrada insistir, ao perceber que alguns novos donos do poder são prepotentes igual aos antigos, às vezes hipócritas, sempre ignorantes. Ah, sim, Cesare Battisti. No momento lança um livro, memória do cárcere, e anuncia sua presença no desfile do carnaval carioca. Seu atual aspecto parece credenciá-lo à interpretação de “A Visita da Velha Senhora”. Não me surpreenderei se algum dia ele cometer alguma retumbante bobagem. Ou mesmo coisa pior.

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