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“Retratos em um mar de mentiras”: Luz sobre conflito colombiano

por Vermelho — publicado 10/01/2011 09h49, última modificação 10/01/2011 10h26
Filme de estreia do diretor colombiano Carlos Gaviria mostra o confronto armado em seu país e as consequências para seu povo

Por Cloves Geraldo *

Filme de estréia do diretor colombiano Carlos Gaviria mostra o confronto armado em seu país e as consequências para seu povo

A realidade colombiana muitas vezes escapa àqueles que se interessam pelos rumos da América Latina. Por isto é salutar quando surgem filmes como “Retratos em um mar de mentiras”, exibido no Cine Latino – Mostra de Cinema Latino-Americano, realizado em Belo Horizonte, de 10 a 16 de dezembro, com curadoria e produção de Eduardo Garretto Cerqueira. Filme de estréia do colombiano Carlos Gaviria, lança luzes sobre a tragédia de um povo espremido entre as oligarquias e os interesses dos EUA.

Nada no filme é gratuito ou discursivo. Garivia usa a história de Marina (Paola Baldión Fischer), maltratada pela tia, para traçar um perfil da Colômbia hoje. Como visto seguidamente nos aglomerados brasileiros, durante uma tempestade parte do barraco onde mora com o avô desce a montanha levando-o junto. O que se segue não são condolências, ela, sem saber, começa a ser vítima da ganância da tia pela terra que pertencia ao velho. Numa artimanha com o primo espertalhão, Jairo (Julián Román), ela é obrigada a viajar às pressas com ele para localizar a escritura da propriedade no interior.

Se o motivo é torpe, o que vem a seguir mostra uma realidade para além do imaginado pelo espectador interessado na recente história colombiana. Gaviria põe os personagens na estrada desvendá-la. Num carro caindo aos pedaços, Jairo lança mão da artimanha usada com suas “modelos”, quando as fotografa em seu “estúdio”, para conquistar a prima. Só que Marina, às vezes muda, se fecha desconfiada daquele súbito interesse. Ele lhe diz apenas que tem um trabalho a executar. Mas na estrada, compreende o quanto será difícil executar o plano determinado pela tia, pois Marina não lhe abre o segredo.

Milícias expulsam famílias de sua terras

A câmera de Gaviria, em grandes planos que captam a geografia acidentada, montanhosa, entranhada na selva amazônica, vai delimitando espaços e antecipando as armadilhas. Registra lugares paupérrimos, ambulantes de beira de estrada, retirantes com seus pertences, numa verdadeira diáspora. Mostra sem retoques um país destruído, em guerra, ocupado por paramilitares, exército e as Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colombia). Quando eles param para comer ou para consertar ou abastecer o carro, a miséria se lhes apresenta devastadora. Cada trabalhador aprendeu a viver segundo as circunstâncias. Tudo aquilo não mais choca Marina, como se verá ao longo da narrativa, ela já é vítima desse processo. Às vezes se esquece de tudo, noutras flash espocam em sua mente, trazendo cruéis lembranças.

Jairo, sempre pensando em ludibriá-la, não entende o que se passa com ela. Acha apenas que lhe esconde o que pretende. Ela, porém, é o retrato do povo colombiano – expulso de sua terra, foi morar nos morros de Bogotá, faminto, sem trabalho ou perspectivas de futuro. Numa sequência que bem ilustra a situação do interior do país, Jairo para o carro numa cidade onde o comércio é feito ao ar livre - verdadeira feira do salve-se quem puder. Mas ele ainda encontra tempo de fotografar passantes e de enervar Marina com suas investidas, ainda que ela já estivesse apaixonada.

O interesse amoroso, entretanto, é um fio sem maiores conseqüências. Gaviria está mais interessado, usando a estrada (road movie), em flagrar uma realidade não conhecida pelo espectador. Mas não se restringe a isto, como na cena do banho de Marina. Ele a mostra sensual, e mais astuta do que imagina Jairo. É capaz de reagir aos ataques dele e dos que buscam se apropriar do que ela possui com inteligência e perspicácia. E, além disso, Gavíria, via Jairo, lamenta o que acontece a seu país, dizendo que rico e belo não é concebível que esteja naquela situação.

Segundo denuncia Gaviria nos créditos de encerramento, cerca de 4,5 milhões de colombianos já foram expulsos de suas terras e de suas cidades. E o país está destroçado. Ele não avança para as raízes dessa destruição. Toma partido quando registra no terço final do filme como os paramilitares, as milícias e os aproveitadores locais agem. Estes se aproveitam do falastrão Jairo, depois de serem por ele fotografados, para forçar a ele e a Marina lhes entregar a escritura da terra deixada pelo avô. E ela em meio ao tiroteio relembra o ataque dos paramilitares que executaram seus pais, do qual sobreviveram apenas ela, ainda garota, e o avô.

Embora complexo, é um filme de fácil assimilação. Gaviria dotou-o de ação, de drama, de contexto político, para manter o espectador aceso. No entanto, é difícil ficar indiferente ao que sua câmera registra. É quase como se fosse um documentário. Diferente do tratamento dado ao conflito pelo também colombiano Luis Alberto Restrepo em “A Paixão de Gabriel”. Neste o centro da narrativa é o padre do título homônimo. Neste a Igreja, a guerrilha, as milícias e o exército ditam os rumos da história.

Em seu filme, Gaviria prefere cuidar das vítimas, com um final alegórico, a exemplo de Mahamat-Saleh Haroun, em “O Homem que grita”. E lança um pouco de luz sobre a tragédia de seu povo.

“Retratos em um mar de mentiras”. Drama. Colômbia. 2009. 90 minutos. Roteiro/direção: Carlos Gaviria. Elenco: Paola Baldión Fischer, Julián Román.

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