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Pré-sal: um bilhete premiado em meio à cobiça mundial

por Roberto Rockmann — publicado 05/10/2015 19h16, última modificação 08/10/2015 16h03
Apesar das mudanças no mercado, a exploração do pré-sal continua competitiva e desperta interesses

Descoberto em 2006, em uma área de pouco mais de 140 mil quilômetros quadrados entre os litorais de Espírito Santo e Santa Catarina, o pré-sal fornece atualmente um terço da produção da Petrobras e é um dos mais bem-sucedidos casos de exploração das últimas décadas em novas fronteiras. Em 8 de julho, a estatal anunciou um recorde de produção na região: 865 mil barris por dia, marca atingida em menos de uma década.

O foco da estatal nos próximos anos se concentrará nessa nova fronteira, considerada a maior descoberta da indústria no Hemisfério Ocidental em 40 anos. Uma das razões é a alta produtividade aliada ao baixo custo de extração. A produtividade média por poço em operação comercial na Bacia de Santos gira entre 25 mil e 30 mil barris de petróleo por dia, maior que a registrada no Golfo do México e no Mar do Norte, 10 mil e 15 mil barris, respectivamente.

O custo é competitivo. O preço mínimo a partir do qual a produção é economicamente viável situa-se, nos grandes campos, em torno de 45 dólares por barril, enquanto a extração se situaria em alguns poços na casa dos 9 dólares, abaixo dos 15 de média de outras cavidades exploradas pela estatal. “Essa competitividade é um fator de atração de investimentos”, diz José de Sá, da consultoria Bain & Company. “O custo brasileiro é muito competitivo, nos níveis da Arábia Saudita, e os poços são muito produtivos”, afirma o professor Cleveland Jones, da Uerj.

A descoberta tem atraído a atenção internacional. Em outubro de 2013, o governo realizou a primeira rodada de licitação do pré-sal, com poços do megacampo de Libra, na Bacia de Santos. O volume de barris recuperáveis é estimado entre 8 bilhões e 12 bilhões, o que representaria de 44% a 66% das reservas brasileiras.

As estatais chinesas CNPC e Cnooc, a Shell e a francesa Total foram vencedoras da licitação ao lado da Petrobras, que detém 40% do consórcio e, segundo regra do governo federal, sancionada em 2010, tem de ser sempre a operadora e deter participação de ao menos 30% nos blocos ofertados. Onze empresas, incluída a petroleira nativa, pagaram a taxa de participação para a licitação.

Explorar o pré-sal exigirá a superação de gargalos tecnológicos. Isso tende a criar um ambiente propício para inovações no Brasil. Extrair petróleo nesses poços implica atingir profundidades superiores a 5 mil metros em relação ao nível do mar, o que exige maior automatização, sistemas submersos, um novo tipo de profissionais e equipamentos especiais.

Nos reservatórios do pré-sal os pesquisadores identificaram grande quantidade de gás carbônico. Quando esse reage à água, forma o ácido carbônico, altamente corrosivo. É preciso, por consequência, usar ligas especiais de aço para evitar a corrosão gerada pelo ambiente no revestimento e na coluna de produção dos poços, em equipamentos submarinos de produção.

“A exploração abre perspectiva de capacitação de fornecedores locais e de criação de uma cadeia de valor, e cabe destacar que tudo depende de uma política industrial mais ativa que enxergue a criação de valor nos elos mais importantes da cadeia”, diz Fernando Sarti, professor do Instituto de Economia da Unicamp.

O ciclo de inovação começa na demanda, afirma o economista, que puxa o investimento privado e de estatais. Para se criarem soluções é preciso, no entanto, ver como elas serão mediadas. “Poderemos ter soluções internas ou externas para atender à demanda, depende da política de governo.”

Existe outro desafio além da economia. Como levar a riqueza à maioria da população e não repetir os exemplos do Oriente Médio, em que a alta do petróleo contribui para o enriquecimento de uma casta privilegiada em regimes de exceção. Será preciso utilizar os royalties de forma racional, em prol da redução das desigualdades sociais e regionais e da ampliação dos recursos em educação. Será necessário ainda transparência em relação à arrecadação e ao uso dos recursos, um caminho longo.

Cidades brasileiras que recebem royalties têm tendência a ser menos transparentes do que municípios não beneficiados por esses recursos, aponta um mestrado do jornalista pernambucano Renato Lima, defendido na Universidade de Illinois, nos EUA. Lima analisou os dados fiscais de pouco mais de 5,5 mil cidades.

Segundo a dissertação, chega a aumentar em 16 pontos porcentuais a probabilidade de um município que recebe royalties de não divulgar dados fiscais em comparação com aqueles sem o benefício. Em 2000, quase 10% das cidades que não enviaram suas contas à Secretaria do Tesouro Nacional, exigência criada com a Lei de Responsabilidade Fiscal, instituída em 1999, eram beneficiadas por royalties. Em 2009, o porcentual saltou para 25%.