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Medidores eletrônicos de luz causam polêmica em favelas do Rio

por Bruna Carvalho — publicado 29/02/2016 22h05, última modificação 29/02/2016 22h12
Aumento expressivo nas faturas de energia elétrica assusta e contribui para a saída de moradores das comunidades da zona sul da cidade
Bruno Coelho
thiago firmino

Segundo Firmino, mudança que parecia um sonho tornou-se um pesadelo

Moradora da favela Santa Marta, na zona sul do Rio de Janeiro, há mais de 30 anos, a dona de casa Maria Helena Barbosa da Silva tem dúvidas se conseguirá se manter na casa no Beco do Argeu, onde criou seus quatro filhos, hoje com idades entre 9 e 25 anos. O principal motivo de sua preocupação é o aumento do valor de sua conta de luz, que vem comprometendo boa parte de sua renda. Beneficiária do Bolsa Família, ela possui, em sua casa de três cômodos uma geladeira pequena, uma televisão e um computador. Ainda assim, sua fatura, que venceu no último dia 10, veio no valor de 440,20 reais. "Eu até tirei o chuveiro elétrico para ver se baixava. E não baixa. Mesmo o ferro de passar que eu tenho, ligo só muito de vez em quando", afirmou à CartaCapital

Há mais de seis anos, queixas como as de Maria Helena se acumularam em todos os cantos do Dona Marta e em várias regiões do Rio e da Baixada Fluminense. Os aumentos bruscos e progressivos nos valores das contas de luz – moradores do Vidigal, próximo ao nobre bairro do Leblon, por exemplo, tiveram aumentos de até 938% nas faturas de um mês a outro – foram rapidamente associados à substituição dos tradicionais relógios por medidores eletrônicos pela Light, concessionária responsável pelo fornecimento de energia elétrica no Rio e em 31 municípios fluminenses.

A instalação de medidores eletrônicos vem sendo realizada pela Light desde 2008 para, entre outros objetivos, reduzir as perdas da companhia com os furtos de energia – os chamados "gatos". A rede fica protegida por uma caixa blindada, dificultando as ligações clandestinas em postes, enquanto aos moradores seria fornecido um display digital para monitoramento do consumo a fim de evitar a adulteração nos ponteiros dos relógios. Diversos moradores ouvidos pela reportagem, no entanto, reclamam nunca terem recebido o display para poder auferir sua taxa de consumo individual.

Segundo o último relatório de sustentabilidade divulgado pela Light, no ano de 2014 foram instalados cerca de 150 mil medidores em regiões do estado consideradas pela companhia como de "alto risco de furto de energia" e outros 40.357 em 19 favelas com Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) – entre elas a Santa Marta.

A entrada da Light no morro Dona Marta aconteceu no ano de 1979, quando as favelas no Rio começaram a ser eletrificadas. Na ocasião, o número de casas da Santa Marta cadastradas na Light somavam 73. Hoje, são 2.124 consumidores cadastrados, e esse crescimento se deveu principalmente à chegada à comunidade da primeira UPP do estado, em 2008. Já no ano seguinte, a Light passou a reformar a rede elétrica e, entre 2010 e 2011, entrou em vigor o funcionamento do novo sistema. 

A partir de então, começaram as primeiras queixas dos moradores em relação a problemas com as contas, o que rendeu, inclusive, uma ação no Ministério Público do Estado contra a Light. Thiago Firmino, guia turístico e um dos líderes comunitários, participou ativamente de uma série protestos realizada pelos moradores contra a concessionária, chegando a registrar depoimentos de moradores em vídeo. Em 2014, na maior manifestação do tipo, cerca de 300 pessoas saíram sob forte chuva pelas principais ruas de Botafogo reclamar. 

"Eles (a Light) chegaram aqui dizendo que iam melhorar a qualidade de vida das pessoas, que teríamos comprovante de residência, que a luz não ia cair mais. Essa historinha que parecia um sonho começou a virar pesadelo", contou Firmino. Ele deu como exemplo a história de Francisco Vieira da Silva, 82 anos, proprietário de um pequeno bar equipado com um freezer, uma geladeira, um ventilador e uma TV, que servia também como residência. Em dois meses, sua fatura saltou de 380 reais para 1.252 reais. A situação ficou insustentável, e ele se viu obrigado a deixar a favela da zona sul para viver em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. 

Dona Marta, uma das 19 favelas com UPPs que receberam os medidores eletrônicos da Light

(Dona Marta, uma das 19 favelas com UPPs que receberam os medidores eletrônicos da Light / Foto: Bruno Coelho)

A cientista social Pricila Loretti, que finaliza uma tese de doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro sobre o processo de regularização da energia elétrica nas favelas pós-UPP, vê como positiva a regularização da energia nesses locais. No entanto, acredita existir um lado perverso, uma vez que ela pode contribuir para o processo de gentrificação nas comunidades. 

"Os processos de regularização de serviços vêm encarecendo a vida do morador da favela. Sem políticas públicas adequadas à realidade dessas populações, elas acabam sendo empurradas para as margens sociais, contribuindo mais uma vez para reforçar o estigma da favela como o lugar do crime e da informalidade. Nesse sentido, as ligações clandestinas, apesar de irregulares, aparecem para muitos como uma saída econômica, pois acaba sendo vista como uma forma de distribuição de renda", afirmou Pricila, ao lembrar que o furto de energia não ocorre somente nas favelas e nos bairros de baixa renda.

Outro ponto destacado por ela é que a coincidência entre o aumento das faturas e a adoção da nova tecnologia elevou a desconfiança entre moradores e acirrou o conflito iniciado com as mudanças na Tarifa Social de Energia Elétrica. Com a revisão da regra, pessoas antes enquadradas no benefício federal perderam a possibilidade de ter descontos em suas contas de luz. "Com a implantação dessa nova tecnologia, consumidores perderam acesso às medições de seus relógios, pois nem todos os clientes receberam o display para verificar seu consumo individual e muitos não souberam como usá-lo", apontou.

Procurada pela reportagem, a Light afirmou em nota que a troca do medidor analógico pelo digital não gera impacto no valor da conta de energia. "Trata-se, apenas, de um avanço tecnológico. Todos os medidores eletrônicos instalados pela Light são homologados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e pelo Inmetro", contestou a concessionária.

A empresa alegou também que os casos de moradores com contas de luz muito altas estão sendo analisados individualmente e que, para isso, é importante que os consumidores entrem em contato com a companhia para que sejam enviadas equipes aos endereços para verificar a situação de cada cliente.