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Ao desperdiçar água, Brasil terá desafios para abastecer população

por Roberto Rockmann — publicado 18/12/2015 11h21, última modificação 18/12/2015 11h24
Soluções dependem de planejamento integrado nas metrópoles, novas tecnologias e redução de perdas nas redes de distribuição
Cosme Aquino
Mananciais

O País desperdiça os mananciais, mas eles não são eternos

Privilegiado por possuir 20% da água doce encontrada no planeta, embora grande parte das reservas esteja na Bacia Amazônica, o Brasil terá desafios crescentes para abastecer sua população.

As soluções dependem do planejamento integrado nas regiões metropolitanas, adoção de novas tecnologias, redução de perdas nas redes de distribuição e choque de gestão nas concessionárias.

A água se transforma pouco a pouco em um bem escasso. As empresas são obrigadas a captá-la em locais cada vez mais distantes dos centros consumidores, o que aumenta a necessidade de investimentos e exige a criação de uma nova realidade tarifária para o segmento.

Em São Paulo, a Sabesp investe em uma Parceria Público-Privada (PPP) para aumentar o abastecimento na maior região metropolitana do País.

Com duração de 25 anos e investimentos previstos superiores a 2 bilhões de reais, a PPP do Sistema Produtor de Água São Lourenço, com mais de 80 quilômetros de adutoras, vai ampliar a capacidade de água tratada para a metrópole paulista em 4,7 mil litros por segundo.

Serão beneficiados cerca de 1,5 milhão de habitantes. Destes, 1,1 milhão hoje são abastecidos pelo Sistema Cantareira, que registra seus piores níveis históricos.

No Rio de Janeiro, o volume útil do reservatório da Bacia do Rio Paraíba do Sul, que abastece grande parte da capital, atingiu o piso de 10% de sua capacidade. Várias ações têm sido tomadas para driblar a escassez e evitar que ela continue a existir nos próximos anos.

Em um movimento para se antecipar à piora do cenário, a Cedae, concessionária que atua em boa parte do estado, pretende utilizar bombas instaladas sobre balsas flutuantes, o que permitiria a captação, independentemente da sua variação.

Em cerca de 50 quilômetros ao redor do Rio Macacu, outra importante fonte de abastecimento local, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) fará o replantio de mata ciliar, que facilita a absorção de água e reduz os sedimentos.

A empresa também iniciou estudos para a dessanilização de água. A Cedae avalia áreas em cidades nas quais poderiam ser instalados poços, para reduzir a dependência de um rio.

“Outro foco é a redução das perdas”, afirma Edes Fernandes de Oliveira, diretor de produção e grande operação. A companhia, cujas perdas físicas e comerciais estão em 30%, investe 140 milhões de reais na substituição de 800 quilômetros de redes de água.

Rio-São-Francisco
A transposição do Rio São Francisco vai garantir o abastecimento de boa parte do semiárido nordestino / Luciano Andrade/Estadão Conteúdo

 

A ideia é reforçar a busca pela redução de perdas no próximo ano, com a contratação de uma fornecedora que estabeleça um modelo e seja remunerada pelo desempenho da solução adotada.

Nos próximos quatro anos, a Cedae investirá 3,4 bilhões de reais na construção de um novo sistema produtor de água tratada que vai beneficiar cerca de 3 milhões de moradores, com destaque para a Baixada Fluminense.

Os recursos, captados por meio de um empréstimo na Caixa Econômica Federal, serão investidos na implantação de uma nova estação para tratar 12 mil litros por segundo e reservatório com capacidade para armazenar 57 milhões de litros. O empréstimo é resultado da recuperação financeira da empresa.

Em 2007, a Cedae sofria ameaça de corte iminente de serviços de luz e telefone, além do temor de despejo do prédio em que boa parte dos funcionários trabalhava. Desde então, aposta-se em um plano com cem ações de melhora operacional.

O estatuto da companhia passou a determinar que os cargos de chefe de loja ou de coordenador de equipe só seriam preenchidos por funcionário de carreira da concessionária, para eliminar a interferência política.  

A governança corporativa foi impulsionada, a partir da nomeação de dois conselheiros independentes. O balanço passou a ser auditado por uma grande empresa.

As dívidas com fornecedores e concessionárias de serviços públicos, entre eles a Light, foram renegociadas e têm sido pagas em dia. A renegociação propiciou uma redução de custos e maior credibilidade no mercado.

O balanço, que no passado registrava fluxo de caixa negativo em 20 milhões de reais mensais, estabilizou-se. Em 2013, a Cedae pagou, pela primeira vez em sua história, dividendos aos acionistas: 38 milhões de reais referentes à parte do lucro obtido em 2012.

O problema de escassez não está localizado só no Sudeste. No Nordeste, o quadro não é diferente. Cada vez mais é preciso buscar água em locais mais distantes, o que indica custos de captação crescentes.

A Bahia é um exemplo: os mananciais de Guanambi, no sudoeste do estado, estão perto do limite, o que levou a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) a investir em um projeto de 100 milhões de reais para construir pouco mais de 230 quilômetros de adutoras para buscar água no Rio São Francisco.

Nesse contexto, ganham espaço na agenda das empresas e dos governos os investimentos em coleta e tratamento de esgoto e no combate às perdas. Segundo estimativas do mercado, as perdas no sistema no Brasil chegam a 7,4 bilhões de reais por ano.

Um entrave são as tarifas que remuneram os investimentos das concessionárias e atingem o bolso dos consumidores. O sinal econômico adequado também poderia atrair maior interesse das empresas em realizar grandes projetos de reúso de água para fins industriais.

Hoje, perto de 2% do setor produtivo vale-se do reúso, enquanto esse porcentual chega a 30% em outros países, Cingapura entre eles. É preciso ainda conscientizar os brasileiros do fato de que a água é um bem finito. Entre os serviços públicos concedidos, gastamos parte menor do nosso orçamento com água e esgoto.

Enquanto desembolsamos algo em torno de 15% com saneamento básico, gastamos 38% com energia elétrica e 34% com serviços de telefonia. A inadimplência é mais elevada: em uma grande cidade da Região Sudeste, 6% dos usuários não pagam a conta de luz, enquanto mais da metade não quita a de água.

As empresas estão atentas ao cenário. No Brasil, a Coca-Cola tornou-se neutra no uso de água desde 2013. No País, a fabricante de bebidas passou a repor 100% do insumo utilizado no processo produtivo dois anos antes do anúncio global da marca, feito em setembro deste ano.

A meta é melhorar mais seus processos, para produzir com menos uso do insumo. A ambição é atingir a marca de 1,70 litro de água utilizada a cada litro de bebida produzido até 2020. Para avançar mais, cada unidade desenvolve um programa próprio de gestão de recursos hídricos, que inclui da avaliação de riscos ao monitoramento 24 horas por dia.

“É com esse trabalho que a empresa conseguiu reduzir em 25% o volume de água necessário para a produção de um litro de bebida em nossas fábricas nos últimos 12 anos. E é com esse trabalho que esperamos aumentar em mais 20% a nossa eficiência hídrica nas fábricas do sistema”, informa a  assessoria.

Desde 2002, a AmBev tem reduzido o consumo de água em mais de 40%. “Só no ano passado, a economia nos permitiu alcançar um índice médio de 3,24 litros de água para cada litro de bebida envasado.

A meta global da empresa é ter um índice médio de consumo de água de 3,2 litros para cada litro de bebida produzido até 2017”, destaca Nelson José Jamel, vice-presidente financeiro e de relações com investidores.

Desde 2013 foi implementado um projeto nas cervejarias de São Luís (MA), Itapissuma (PE) e Aquiraz (CE) para reaproveitar os efluentes industriais 100% tratados pela AmBev que seriam devolvidos ao meio ambiente.

A atenção ao tema tem impulsionado o crescimento da Nova Opersan, que cria soluções de tratamento de água e efluentes e tem se expandido a dois dígitos nos últimos anos, tendência que deverá se manter em 2016. A crise hídrica, a recessão econômica e a pressão de órgãos ambientais sobre a coleta e tratamento de efluentes ensejam otimismo.

“Temos recebido muitas consultas das empresas, interessadas em melhorar a gestão e reduzir perdas, seja pela adoção de soluções mais eficientes, seja pelo reúso de água”, afirma José Fernando, presidente da companhia.

A maior parte do interesse vem do setor privado, mas já se começa a notar a demanda de estatais em modelos de parceria com a iniciativa privada para criar opções para driblar a escassez.

“O aperto fiscal cria essa necessidade ainda maior de pensar em outras opções, como a formação de PPPs ou sociedades de propósito específico que financiem esses projetos. Essa área não era um foco, mas agora se torna uma oportunidade e estamos com equipe interna direcionada para esse segmento promissor”, destaca Fernando.