Você está aqui: Página Inicial / Educação / Precisamos de mais educadores(as) e lutadores(as)

Educação

Professores

Precisamos de mais educadores(as) e lutadores(as)

por Andrea Caldas — publicado 06/05/2015 12h23
Se a educação não transforma a sociedade, atua sobre os que podem transformá-la, às vezes pela própria situação de desvalorização. Greves, lutas e denúncias formam e forjam caminhos de esperança
Wilson Dias/Agência Brasil
Professores do Paraná em assembléia aprovam continuação da greve

Professores do Paraná em assembléia aprovam continuação da greve

Logo após a manifestação no Paraná que acabou com 200 feridos pela Polícia Militar, o professor de Filosofia da USP Vladimir Safatle publicou, na Folha de S.Pauloum pujante texto com o título “Não seja professor”.

No artigo, Safatle denuncia a persistente desvalorização social da profissão docente, não obstante, slogans publicitários de enaltecimento cívico. E conclui:

“Diante de tamanho cinismo, você não terá nada a fazer a não ser alimentar uma incompreensão profunda por ter sido professor, em vez de ter aberto um restaurante. Por isso o melhor a fazer é recusar-se a ser professor de ensino médio e fundamental. Assim, acordaremos um dia em um País que não poderá mais mentir para si mesmo, pois as escolas estarão fechadas pela recusa de nossos jovens a serem humilhados como professores e a perpetuarem a farsa.”

A denúncia é absolutamente importante e rasga o véu das ilusões redentoras. Contudo, a solução proferida é preocupante.

Talvez resolva o problema individual de muitos jovens, em busca de orientações para o futuro profissional, mas não acolhe aqueles que já escolheram esta profissão, tampouco representa uma saída para os milhares de estudantes das escolas públicas.

Como formadora de educadores há 25 anos, tenho me preocupado em não iludir os estudantes com fórmulas de sucesso e, por isto, investido na formação teórica, política e histórica.

Para que se desvendem as contradições, não para absolutiza-las, mas para superá-las. E a superação não é nem nunca será individual, mas coletiva, tormentosa e persistente.

A desvalorização da educação não é fruto da maldade da sociedade, mas produto necessário de uma sociedade desigual. Tanto assim, que a diferenciação de salários e condições de trabalho reflete-se na hierarquização de escolas e níveis de ensino: professores de escolas privadas de elite e das universidades recebem mais que os que atuam junto às classes populares. Ainda que menos que operadores do sistema financeiro.

Não se trata de um apelo à virtude de sacrifício, tampouco de vocação religiosa, mas do chamamento para a luta pela transformação que se faz por dentro do sistema, e não por fora.

Quem abraça profissões, ofícios e ideologias contra-hegemônicas não pode ter a ilusão de que será valorizado pelo sistema que busca combater. Contudo, não foram poucos os estudantes que se viram animados no sentido da luta e mudança, pelas palavras de [email protected] entusiastas.

Se a educação não transforma a sociedade, atua sobre os que podem transformá-la e, às vezes, contraditoriamente, pela sua própria situação de desvalorização. As greves, as lutas, as denúncias formam e forjam caminhos de esperança.

Precisamos sim, cada vez mais e mais de educadores/as e lutadores/as, sem a ilusão do caminho fácil, mas com a certeza dos apoios solidários e coletivos. Sem eles, o País cristaliza-se na acomodação da cristalização do presente.

Lutar pela educação plena é necessariamente lutar pela transformação da sociedade. Não há atalhos. É preciso cobrar responsabilidades dos governos e da sociedade.

O dia em que trabalhadores da educação forem mais valorizados que banqueiros será o dia em que estaremos a inaugurar uma nova sociedade.

Até lá, muita luta, formação e organização far-se-á urgente.

*Andrea Caldas é diretora do Setor de Educação da UFPR, Presidente do Fórum de Diretores das Faculdades e Centros de Educação das Universidades Públicas (FORUMDIR), Coordenadora do Fórum Estadual de Educação do Paraná.