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Pegos pelos prazeres da boca

por Carta na Escola — publicado 14/02/2012 18h27, última modificação 14/02/2012 18h27
O que a atual epidemia de obesidade mundial tem a ver com os métodos da indústria de alimentos
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O que a atual epidemia de obesidade mundial tem a ver com os métodos da indústria de alimentos

Por Nelio Bizzo, professor de Metodologia de Ensino de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo e fellow da Society of Biology (Londres), com consultoria nutricional de Larissa Mattos 

A alimentação e o padrão de vida estão intimamente associados. Uma pessoa que caminha todo dia até o trabalho necessariamente deverá ter uma alimentação mais calórica que outra que utiliza o automóvel. Fora isso, o padrão de atividade física é de certa forma socialmente determinado. As grandes cidades brasileiras, por exemplo, não são muito amigáveis com os andarilhos e é um verdadeiro risco caminhar até o trabalho hoje em dia. Em muitos lugares na Europa, ao contrário, há grande incentivo à atividade física: o transporte coletivo e a bicicleta são muito mais usados que no Brasil.

O marco inicial da pesquisa relatada em “Vigilante do peso”, publicada originalmente em CartaCapital e reproduzida nas páginas anteriores, quase coincide com o início da produção de automóveis no Brasil. Em setembro de 1956, tinha início a fabricação de carros no -País com o licenciamento da montagem de um pequeno automóvel de três rodas e uma porta concedido a uma fábrica brasileira, que montava geladeiras à época.

Sem contar com os incentivos fiscais do governo Juscelino Kubitschek (1956-1961) para veículos de pelo menos -duas portas, a Romi-Isetta passou a custar bem mais caro que o Fusca, lançado em 1959. A propaganda a apresentava como uma solução para as donas de casa, que emblematicamente se veriam livres da “gaiola” da falta de transporte. Assim, o marco inicial da pesquisa sobre obesidade coincide com o marco inicial da popularização do automóvel no Brasil. E, talvez, com a inauguração do sedentarismo moderno.

Bem sabemos que os hábitos mudam com o tempo. A pesquisa mencionada na reportagem registra o perfil de peso e altura dos jovens rapazes que se apresentaram ao serviço militar obrigatório desde a época em que não havia indústria automobilística no Brasil até 1991, quando o então presidente se queixava de a indústria nacional fabricar “verdadeiras carroças”. Seja como for, as Romi-
Isettas já não seriam adequadas às donas de casa e o número de brasileiros aptos a se acomodar confortavelmente em seu exíguo espaço interno diminuiu consideravelmente, como indica o estudo.

Ao lado do grande estímulo ao transporte individual e ao modo de vida ligado ao sedentarismo, o mundo moderno assistiu a uma explosão de produtos industrializados. A indústria da propaganda esmera-se em mostrar, por vezes de maneira enganosa, supostas vantagens do consumo de biscoitos recheados, falando de calorias que o consumidor não consegue avaliar bem. Por exemplo, um inocente biscoito de água e sal, emblema de comida insossa, é, na verdade, um alimento do grupo hipercalórico, pois tem mais de 400 kcal por 100 gramas. Trata-se de verdadeira bomba de calorias, e, apesar disso, inadvertidamente continua a ser consumido por pessoas que pretendem ter uma dieta hipocalórica.

Já se foi o tempo em que tais biscoitos tinham de ficar guardados em latas para não amolecer de um dia para o outro. A indústria encontrou uma solução para isso envernizando o biscoito com gordura. Agora, uma embalagem, mesmo que aberta, não deixa o biscoito perder “crocância”. Além disso, esse banho de gordura tem uma vantagem para os supermercados, pois aumenta o chamado “tempo de prateleira” do produto. No tempo das esbeltas moças dos carros de uma porta, os biscoitos não tinham o banho de gordura que agora os protege da umidade. Nesses anos, os carros ganharam portas e os motoristas, gordura.

Obviamente, ninguém acreditaria que um biscoito tem baixa caloria se sentisse os dedos untados. Assim, a gordura utilizada nas máquinas de fazer biscoitos é aspergida em alta temperatura e, ao resfriar, se solidifica. Os biscoitos rechea-dos utilizam os mesmos tipos de gordura que não se liquefaz à temperatura ambiente tampouco durante seu transporte, quando enfrenta muitas vezes a inclemência do sol tropical em caminhões fechados. As gorduras de alto ponto de fusão, conhecidas como saturadas, são justamente as associadas a problemas de saúde, em especial com o desequilíbrio do colesterol no sangue (dislipidemias). Sem nenhum ingrediente animal, sem nenhum colesterol, podem justamente ser componentes cruciais para desequilibrar a circulação de gorduras no sangue. Sua versão mais perigosa, a gordura vegetal hidrogenada, está dispensada de aparecer no rótulo, sendo apresentada por vezes com o simpático nome de “gorduta vegetal”, transmitindo o falso sentido de fonte saudável.
Não bastasse isso, cedendo à pressão do chamado agronegócio, em 2006 o governo brasileiro isentou a indústria de declarar o conteúdo de colesterol dos alimentos industrializados para alegria da indústria de laticínios e carne. Não raro, mesmo pessoas com dieta vegetariana se surpreendem com os resultados de seus exames de sangue. Ao lado do sedentarismo, uma dieta rica em gorduras saturadas, que existem tanto em alimentos de origem animal (carne, laticínios e embutidos) quanto vegetal (azeite de dendê, coco etc.), além da gordura vegetal hidrogenada (presente em biscoitos, balas e sorvetes), pode estar por trás do problema.

Alguns fabricantes de biscoitos -chegavam ao despudor de anunciar tais produtos como “isentos de colesterol”, o que engana duplamente o consumidor, pois, ao lado da bomba de calorias, se ganha um passaporte para o colesterol elevado. Um comercial de televisão apresentava um pequeno biscoito recheado e dizia que bastariam cinco segundos de atividade física para consumir todas as calorias contidas em uma embalagem. A peça publicitária terminava com a frase: “Noventa calorias com gostinho de novecentas”. Uma queixa encaminhada ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) conseguiu suspender a veiculação da peça publicitária na tevê, mas o Brasil, ao contrário do que ocorre em outros países, permanece sem um órgão de vigilância do mercado publicitário. Na Inglaterra, por exemplo, a referida peça publicitária teria sido suspensa por iniciativa do poder público e não dependeria de uma iniciativa de um grupo de pessoas, encaminhando um pedido a um órgão formado pelos próprios fabricantes, anunciantes e agências de publicidade.

Mas entre 1991, quando termina a pesquisa dos jovens que se alistam no Exército, e os dias atuais a situação se agravou ainda mais e os alimentos hipercalóricos continuam a ser, por vezes, a única opção de consumo até mesmo nas escolas. Fala-se em uma epidemia mundial de obesidade, pois os hábitos desenvolvidos na infância são muito difíceis de reverter na vida adulta. Com ela, como mostra o artigo, aparecem as doenças normalmente associadas à obesidade, como diabetes e doenças cardiovasculares. E essa epidemia tem muito a ver com a indústria de alimentos, que não mede esforços para conquistar clientes pelas fraquezas de nossa boca. Ao lado das calorias, outro grande vilão dos alimentos industrializados é o sal de cozinha, nossa principal fonte de sódio. Sua quantidade nos alimentos, desde as papinhas infantis até as batatinhas fritas, é regulada muito mais pelo apetite por lucros do que pela preocupação com a saúde pública. Um tímido acordo foi firmado pelos fabricantes, que deverão reduzir o teor de sódio em certos alimentos, ao ritmo de 8,5% ao ano. Dados do IBGE mostram que o consumo de refrigerantes e biscoitos não para de crescer, enquanto o de feijão, frutas frescas e verduras caiu. O sistema de saúde que se prepare! •