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O pesadelo americano

por Carta na Escola — publicado 26/06/2012 12h55, última modificação 26/06/2012 12h55
Um breve tratado da segregação racial nos EUA ajuda a esclarecer um preconceito ainda não superado
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Um breve tratado da segregação racial nos EUA ajuda a esclarecer um preconceito ainda não superado. Foto: GettyImages

Por Sean Purdy, professor de História da América com ênfase nos Estados Unidos na USP , e coautor de História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI

O tataravô de Jarvious Cotton não podia votar como escravo. Seu bisavô foi espancado até a morte pela Ku Klux Klan (KKK) porque tentou votar. Seu avô foi impedido de votar pela intimidação dessa organização e seu pai foi barrado por altas taxas de imposto e exames de alfabetismo. Agora, Cotton não pode votar porque ele, como muitos negros nos Estados Unidos, está caracterizado como um criminoso e em liberdade condicional.” Essa é a descrição da advogada norte-americana Michelle Alexander das várias fases de discriminação racial nos EUA ao longo dos últimos dois séculos. Escravidão, Jim Crow (o apelido do sistema formal e informal de segregação racial), terror racista, restrições políticas injustas, o sistema carcerário – todas essas, segundo a autora, foram as formas do controle social racista de negros na história do país. Em 2012, Michelle enfatiza, há mais negros em prisão ou liberdade condicional do que escravos negros em 1860, quando começou a Guerra de Secessão.

Uma breve história da segregação racial na sociedade norte-americana pode esclarecer o atual racismo, neste ano em que um presidente negro tenta se reeleger num -país onde alguns dizem que a discriminação racial já foi superada. Preconceito e práticas racistas contra negros são claramente heranças do sistema escravista, abolido em 1863 durante uma guerra civil sobre o direito de os estados sulistas no país manterem a escravidão. Apesar de vários esforços, nos anos 1870-1880, para acabar com  a discriminação racial, surgiu um novo sistema de subordinação no fim do século chamado Jim Crow. Negros efetivamente perderam o direito de voto, foram forçados a morar em bairros segregados com escolas, serviços públicos, lojas, lugares de lazer e até bebedouros separados com placas anunciando “Pessoas de Cor” ou “Brancos”. A maioria trabalhava em pequenos lotes de terra e devia aos grandes donos de fazendas e mercantes. Nas cidades, ocupavam os piores e mais mal pagos empregos.

Esse racismo institucional foi reforçado pelo terror racista de grupos como a KKK, com a colaboração da polícia e de políticos locais. Os negros foram intimidados, espancados e frequentemente linchados se tentassem melhorar sua condição ou resistir ao racismo.

O Jim Crow manteve-se ao longo da primeira metade do século XX, junto a várias formas semelhantes de discriminação contra latinos e outros imigrantes. A resistência de negros (aliados a uma parcela dos brancos) começou a se firmar. A primeira organização antirracista, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, em inglês), foi fundada em 1909 por negros e brancos para lutar pelos direitos civis. Focava nas questões legais e estimulou associações de bairros, igrejas negras, sindicalistas e militantes da esquerda a desafiarem a segregação em serviços públicos e comerciais e o racismo no mercado de trabalho. Tanto as leis locais de segregação racial quanto as que valiam para todo o país passaram a ser questionadas.

As mudanças demográficas, econômicas e sociais nas décadas depois da Segunda Guerra Mundial inspiraram a retomada da luta por direitos civis nos anos 1950-1960. A maioria de negros agora morava nas cidades industriais e queriam usufruir da democracia e do “sonho americano”, prometido pelos anos dourados da época.

Liderado por pastores negros do Sul, como Martin Luther King Jr., esses movimentos logo se espalharam pelo país inteiro, juntando trabalhadores rurais e urbanos, universitários, sindicalistas, intelectuais, artistas, nacionalistas negros de Black Power e até muitos brancos que simpatizavam com a luta. Foi um movimento de massa com bastante participação da base e não só de alguns líderes. Boicotes, manifestações, ocupações e desobediência civil em massa foram as ferramentas utilizadas para tentar acabar com a discriminação formal e a desigualdade econômica e social. Em agosto de 1963, a Marcha de Washington para Liberdade e Trabalho trouxe 200 mil manifestantes para ouvir Luther King fazer seu famoso discurso Eu Tenho um Sonho.

A reação de alguns na sociedade branca foi brutal. Muitos militantes foram espancados, presos ou mortos na luta. Mas a força e solidariedade do movimento conseguiu forçar um governo federal relutante de estabelecer leis amplas em 1964 e 1965, o que arrefeceu a discriminação formal em eleições e a segregação institucional.

O movimento conquistou valiosos direitos civis políticos. Desde os anos 1960, não é mais aceitável discriminar negros; políticos negros foram eleitos em todos os níveis do governo; artistas, atletas e a cultura negra tornaram-se populares no país inteiro. As cotas e ação afirmativa aumentaram o número de negros na universidade.  Meia década depois, a eleição do presidente Obama, em 2008, mostrou que muitos norte-americanos brancos superaram os preconceitos racistas mais agudos.

Porém, as demandas econômicas e sociais do movimento – de democracia plena no mercado de trabalho e a construção de um Estado de Bem-Estar – não foram alcançadas. Desde os anos 1960 a desindustrialização tirou as oportunidades de bons empregos para negros. No mesmo período, as políticas federais favoreceram os subúrbios brancos, e não os centros onde os negros moravam, e alargaram assim os guetos pobres e segregados. Seus residentes sofrem com moradia, educação e serviços públicos de baixa qualidade, além da violência das gangues, conse-quências da miséria e do alijamento social.

Todos os indicadores econômicos e sociais em 2012 mostram a continuação do que vários pesquisadores chamam de um apartheid econômico e social (referindo-se ao sistema de segregação racial na África do Sul durante o século XX). Para exemplificar: a riqueza familiar de brancos é nove vezes maior que a de negros, 30% de crianças negras e latinas vivem na pobreza (o triplo do índice de crianças brancas), negros têm oito vezes mais chances de sofrer de Aids que brancos, e negras têm 19 vezes mais possibilidades de ser diagnosticadas com essa doença que mulheres brancas. Ou seja, a segregação e a desigualdade extrema na comunidade afro-americana ainda marcam fortemente o país.

Relacionada com essa política econômica, a chamada guerra contra as drogas e o policiamento de bairros negros criaram um novo sistema institucional racista. Negros têm 70% mais chances de ser encarcerados que brancos e têm sentenças de prisão de dez meses a mais para os mesmos crimes cometidos por brancos. Um ciclo vicioso de encarceramento de negros foi criado, o que rouba as chances de muitos acharem emprego ou estudar. Negros entre 15 e 34 anos de idade têm nove vezes mais possibilidades de ser mortos por armas que brancos – um fato bem refletido recentemente pelas numerosas mortes de jovens negros pela polícia ou o caso do jovem negro Trayvon Martin, morto em fevereiro por um vigilante voluntário perto de um condomínio fechado na Flórida.

O presidente Obama tem falado muito pouco sobre racismo e seu concorrente no Partido Republicano, Mitt Romney, ignora completamente o problema. Mas a continuidade do racismo mostra que o sonho que Martin Luther King teve de justiça social e econômica para todos os povos está longe de ser alcançado.