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O pecado da carne

por Luiz Antonio Cintra — publicado 10/09/2010 14h51, última modificação 10/09/2010 14h51
Maior “vilã” do clima, a pecuária busca maneiras de crescer sem desmatar e com menos emissão de gases que causam o efeito estufa
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A lista de efeitos colaterais inclui devastar a Amazônia e consumir água em excesso. Foto: Rogério Casimiro/Folhapress

Maior “vilã” do clima, a pecuária busca maneiras de crescer sem desmatar e com menos emissão de gases que causam o efeito estufa

O maior rebanho bovino comercial do planeta procura um divã. Desta vez, a crise de identidade da indústria brasileira da carne não tem a ver com problemas de caixa. As vacas, por sinal, nunca andaram tão gordinhas. Como peça-chave da cadeia internacional, espera-se que o negócio como um todo, destaque para os frigoríficos e suas tacadas bilionárias, mantenha a trajetória de crescimento acelerado da última década e alcance novos recordes, mais de 205 milhões de cabeças e faturamento de 250 bilhões de reais. De janeiro a maio, as exportações cresceram 38% em relação ao mesmo período de 2009 e alcançaram 2 bilhões de dólares.

O que incomoda os pecuaristas brasileiros é a imagem que o mundo faz deles – cada vez pior à medida que os negócios prosperam. Não se conformam com as críticas pesadas de ambientalistas, autoridades da saúde, procuradores de Justiça, grupos vegetarianos e até mesmo de outros produtores rurais, que os consideram a parte mais retrógrada do agronegócio. São acusados de desmatar a Amazônia e o Cerrado, contribuindo decisivamente para as mudanças climáticas globais, consumir água em excesso, poluir os rios, contaminar as áreas de pastagens, lavagem de dinheiro e de fazerem mal à saúde. Procuram um meio de serem vistos como empreendedores responsáveis, capazes de gerar quase 10% da riqueza nacional, dólares para a balança comercial e empregos nos confins do território brasileiro.

Nesse jogo, os pecuaristas saem em franca desvantagem. Segundo um estudo da respeitada FAO, braço da ONU para agricultura e alimentação, a pecuária mundial é a principal responsável pelas mudanças climáticas. As fazendas de gado responderiam por 18% das emissões de gases de efeito estufa, especialmente por causa do metano gerado no processo digestivo dos animais, mas também pela derrubada de florestas, argumento particularmente válido no caso brasileiro. O índice é superior ao dos transportes (responsável por 11% das emissões, segundo a ONU), até então o maior vilão do clima. A FAO sugere a criação de uma taxa sobre a carne para desestimular o consumo.

Diante desse cenário, os ambientalistas mostraram as suas garras. “Se vocês querem salvar o planeta, deixem de comer carne”, afirma lorde Nicholas Stern, responsável por um amplo estudo a respeito do custo econômico das mudanças climáticas encomendado pelo governo do Reino Unido. O relatório da FAO serviu de mote para ONGs mundo afora, hoje à frente do movimento “Segunda-Feira sem Carne”, apoiado por celebridades “verdes” como Paul McCartney, Yoko Ono e o ex-vice-presidente dos EUA Al Gore, mas também por redes de restaurantes e chefs famosos.

No Brasil, a bandeira foi levantada pela Sociedade Vegetariana Brasileira e pela Prefeitura de São Paulo, que, juntos, lançaram recentemente a versão brasileira do movimento. Em reação, a Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne procura divulgar a sua campanha particular, “Segunda-Feira é Dia de Churrasco”.

“A pecuária foi o principal fator da destruição de biomas importantes do Brasil, como a Mata Atlântica e o Cerrado, às vezes em parceria com o etanol. Na Amazônia é pior, inclusive porque uma parcela importante da soja produzida em áreas desmatadas tem como finalidade alimentar o gado”, diz a socióloga Marly Wenckler, presidente da Sociedade Brasileira Vegetariana, hoje com 1,5 mil sócios. “Além de fazer mal à saúde, o consumo excessivo de carne está prejudicando a qualidade das águas doces, já que a maior parcela dos dejetos animais vai parar nos rios. Estamos exportando água de qualidade, um bem cada vez mais escasso, na forma de carne.” Além do consumido diretamente pelos animais, os especialistas incluem no cálculo a água utilizada para irrigar plantações de componentes das rações para gado.

Por essas e outras, o peso da pecuária na emissão de gases de efeito estufa chega a 50% do total emitido pelo País, segundo cálculo do governo federal apresentado na tentativa (fracassada) de acordo internacional para enfrentar as mudanças climáticas, em Copenhague. O cálculo estima que a pecuária é responsável por 75% do desmatamento na região amazônica e de 56% no Cerrado. Paralelamente, o Ministério Público Federal iniciou uma campanha para combater o gado ilegal e apertou a fiscalização em algumas regiões críticas do País, como Mato Grosso, Rondônia e Pará.

Em março, os pecuaristas saíram da corda, ao menos em âmbito internacional. A ONU reconheceu que a participação da pecuária no total de emissões foi superestimada. O cálculo da pecuária foi “vertical”, ou seja, somou as emissões de todas as etapas da cadeia produtiva. No caso do transporte, a metodologia limitou-se às emissões da queima de combustível.

Ainda que a realidade seja cruel, é preciso registrar que uma parcela dos pecuaristas procura alternativas. Na Feicorte, a maior feira indoor de pecuária do mundo, ocorrida entre 15 e 19 de junho em São Paulo, pela primeira vez foi criado um espaço de debates em torno da “pecuária sustentável” – como a indicar que dali para fora o que reinava era o contrário disso. À frente da iniciativa uma parceria entre a ONG WWF, a Associação Brasileira de Pecuária Orgânica e o frigorífico JBS Friboi, a maior empresa do setor no mundo, com faturamento anual de 30 bilhões de dólares.

“Não podemos vestir essa carapuça porque ela não é nossa”, disse a uma plateia de pecuaristas o produtor sul-mato-grossense Leonardo Leite de Barros, presidente da ABPO, numa referência à figura de “vilão ambiental” que persegue o setor. “A nossa imagem é péssima junto ao consumidor, mas nenhum setor pode ser considerado responsável isoladamente.” Barros avalia que o “motor da mudança” virá dos consumidores, cada vez mais atentos às questões ambientais.

Em parceria com a ABPO, a WWF e o IBD Certificações levam adiante um projeto piloto de certificação das propriedades rurais, com apoio do JBS, que lançou uma linha “orgânica” e paga um prêmio a mais pela carne. “Com a certificação, garantimos que as propriedades cumprem a legislação ambiental, não utilizam ureia, agroquímicos e antibióticos alopáticos, todos com potencial para degradar o solo e as águas”, diz Ivens Domingos, analista da WWF. “É preciso reconhecer o problema. Mas também é preciso mostrar que existem tecnologias e meios para buscar soluções, em vez de simplesmente criminalizar o setor.”

À frente da Secretaria de Agricultura de São Paulo, João de Almeida Sampaio Filho, ele mesmo pecuarista, conta com o Instituto de Zootecnia, ligado à secretaria, para pesquisar as emissões de metano do gado – na Feicorte, uma vaca ostentava o aparato de pesquisa e chamava a atenção dos visitantes. Entre as alternativas, a modificação da alimentação do gado, de modo a produzir menos gases, incluindo, por exemplo, o própolis na ração animal.

“Como em qualquer atividade, existem pecuaristas que não cumprem as regras do jogo. Mas a imensa maioria dos pecuaristas, que é formada por pequenos produtores, está buscando permanentemente se adequar e fazer uma pecuária sustentável. Hoje o pecuarista que souber fazer as contas vai perceber que é mais interessante recuperar uma área aberta do que desmatar. Claro que alguns pecuaristas estão desmatando, mas são exceção.”

O melhoramento genético e a gestão eficiente da propriedade, que permitam acelerar o ganho de peso e aumentar a produtividade (com mais animais por hectare por meio de confinamento ou semiconfinamento), também são apontados como meios de mitigar os impactos ambientais.