Você está aqui: Página Inicial / Educação / O índio, por ele mesmo

educação

Reportagem

O índio, por ele mesmo

por Ricardo Carvalho — publicado 30/07/2010 17h05, última modificação 17/08/2010 17h28
Projeto dá a grupos indígenas meios de produzir suas narrativas e preservar suas tradições
hunikui

Os documentários mostram a identidade cultural indígena, uma imagem bem diferente da que foi consagrada: a do índio exterminado ou congelado no tempo. Foto: Vincent Carelli

Projeto dá a grupos indígenas meios de produzir suas narrativas e preservar suas tradições

Augustinho Muru, índio da etnia huni kui, caminha descalço pela mata. À sua frente, um cinegrafista registra cada passo do pajé e patriarca da aldeia de São Joa­quim, no Acre. Augustinho usa uma das mãos para equilibrar uma lança de madeira no ombro. A outra segura uma folha de papel em que está escrito o alfabeto, e os sons da floresta se misturam com a voz arrastada do ancião soletrando: “a, b, c...”. Ele para diante de uma grande seringueira e começa a abrir com uma machadinha caminhos no espesso tronco. “Há muito tempo que eu te corto, te judio/ Me ajude a aprender a ler e a escrever/ Quando aprender vou te deixar em paz/ E você vai viver com a pele macia/”, segue cantarolando. O cinegrafista aproxima a câmera e torna nítido o látex escorrendo pelas recém-talhadas linhas. Simultaneamente, o velho Augustinho, ainda escorado no tronco da seringueira, inicia um relato de sua sofrida juventude durante o tempo do cativeiro, quando os huni kui trabalhavam em regime de escravidão na extração da borracha. As cenas que seguem retratam os rituais da comunidade São Joaquim, suas atividades cotidianas e meios de subsistência.

Documentários como este, sobre o dia a dia em aldeias indígenas, não são novidades. Há décadas, etnógrafos, antropólogos, cineastas e jornalistas vão às mais distantes comunidades espalhadas pelo Brasil para retratar as crenças e tradições desses povos. A peculiaridade desta produção, intitulada Xinã Bena, Novos Tempos, está no nome de seus realizadores. O diretor, por exemplo, se chama Zezinho Yube, também da etnia huni kui, cujos integrantes se dividem entre o estado do Acre e o Peru. Já na fotografia, trabalharam, além do próprio Yube, Tadeu Siã, Josias Maná, Vanessa Ayani e Zé Mateus Itsaiuru, todos do mesmo grupo étnico. Durante os 52 minutos de duração, os índios saíram do papel de personagens e se tornaram autores de suas próprias narrativas. “Aproximar pela empatia em vez de distanciar por um viés­ exótico é a marca do filme”, comenta o antropólogo Vincent Carelli, coordenador do Projeto Vídeo nas Aldeias, do qual o filme de Yube faz parte.

Resgate de culturas
O projeto nasceu em 1987 com o objetivo de apoiar as lutas e reivindicações das populações indígenas, buscando fortalecer seus patrimônios culturais e territoriais por meio de recursos audiovisuais. Durante dez anos, o Vídeo nas Aldeias teve um formato mais tradicional, ou seja, cenas captadas por Carelli a serviço da preservação da memória das aldeias. Em 1997, entretanto, foi realizada a primeira oficina de filmagem com os xavantes da reserva de Sangradouro, no Mato Grosso. “A produção que saiu dessas oficinas desde o começo foi de um nível muito bom. E, com isso, começaram a ter outra face, direcionada ao público não índio”, afirma o coordenador. Para ele, a iniciativa possibilitou a produção de carteiras de identidade audiovisuais indígenas. “Eles podem dizer para o mundo: ‘Nós somos assim’.”

O suporte do vídeo foi extremamente bem acolhido pelos índios. Hoje, cerca de 30 comunidades produzem materiais em parceria com Carelli. As aldeias demonstram interesse em criar narrativas por diversas razões, como memória, reconhecimento externo e visibilidade nacional. As produções realizadas por Zezinho Yube, por exemplo, têm como principal meta a revitalização cultural dos huni kui, que contabilizam 5,8 mil indivíduos espalhados por 61 aldeias de 12 terras indígenas no Acre. Yube conta que o contato com o “branco” gerou um processo de perda de identidade e rituais de seu povo. Na Terra Indígena Praia do Carapanã, distante dois dias de barco do município­ de Tarauacá, nunca se havia celebrado a katxa nawá, festa da fertilidade. Em 2007, Yube viajou a uma aldeia distante no rio Jordão e trouxe a Carapanã um ancião conhecedor das tradições huni kui, que ajudou a organizar a katxa nawá. Documentada, a celebração foi reincorporada aos costumes da aldeia e o vídeo é referência para que os segredos da festa não se percam novamente.

Outro ponto que leva à procura pelo Vídeo nas Aldeias é a frustração com a exclusiva posição de retratados. “Já foram jornalistas, antropólogos e documentaristas, mas os índios nunca veem o resultado. E quando assistem, dizem: ‘inventaram isso, cortaram aquilo’”, revela Carelli. “Sempre parte de uma insatisfação da maneira como são mostrados.” Além do mais, conforme explica Zezinho Yube, existe um receio por parte dos moradores, principalmente dos mais velhos, de serem filmados por documentaristas de fora da aldeia. “Quando somos nós que filmamos, eles se sentem mais à vontade”, diz.

As oficinas de filmagem duram em média um mês. Depois, os cineastas trabalham pelo dobro do tempo com a edição, parte mais complexa de ser assimilada. Aos poucos, os índios vão assumindo todas as etapas da produção.

Lei cria nova demanda
Há cinco anos, o Vídeo nas Aldeias lançou a coleção Cineastas Indígenas, uma recopilação das produções realizadas ao longo do projeto. Com a aprovação em 2008 da Lei 11.645, que tornou obrigatório o ensino de conteúdos de História e Cultura indígena no currículo escolar do Ensino Básico, cinco etnias foram selecionadas e suas produções formaram a coleção Cineastas Indígenas: Um outro olhar, enviada a 3 mil escolas no País. Acompanhados de um guia do professor e do aluno com propostas de abordagens da temática nas salas de aula do Ensino Médio, os vídeos visam dar recursos pedagógicos aos docentes perante a nova demanda criada pela lei. Segundo o coordenador do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), José Ribamar Bessa Freire, suportes como o Cineastas Indígenas devem servir para vencer diversos preconceitos que a população brasileira tem em relação à situação dos índios.

O primeiro grande equívoco apontado por Bessa está na generalização da sua cultura. A crença de que os índios constituem um bloco culturalmente único desconsidera a diversidade entre as mais de 220 etnias e 188 línguas existentes hoje no Brasil. O senso comum também acredita que os indígenas são atrasados e estagnados no tempo, ignorando a complexidade e as transformações sofridas por esses grupos nos últimos anos. A esses preconceitos Vincent Carelli adiciona mais um: pensar que o índio está acabando. “É aquilo que o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro falou: parece que existem só duas categorias de índios no Brasil, os que ainda são e os que não são mais. Quer dizer, nós já encaramos como uma fatalidade inevitável o desaparecimento dos índios. Não! Eles vão permanecer e, além disso, querem fazer parte da modernidade do País”, enfatiza. Prova disso está nos indicadores populacionais das últimas décadas. Enquanto, em 1970, eram estimados em apenas 150 mil os índios no País, em 2006 já se falava em 650 mil indivíduos. A etnia panará, que em 1975 não atingia 70 integrantes, somava 374 em 2008.

A superação desses equívocos é um desafio também para os professores. Andréa Salles, que dá assessoria de orientação pedagógica aos docentes da Escola Municipal José Brigagão, em Nova Iguaçu (RJ), recebeu a coletânea de filmes em abril deste ano. Já familiarizada com outra produção do Vídeo nas Aldeias, o Índios no Brasil, ela apresentou o material aos professores. “Eles ficaram espantados, porque tinham uma imagem do índio congelado no tempo e praticamente exterminado”, comenta. Andréa relata a mesma reação por parte dos estudantes: “Os alunos se impressionaram ao ver índios vestidos, chegaram a duvidar da identidade deles”.

Cultura indígena na sala de aula
Especialistas concordam que a lei veio no sentido de corrigir uma situação desfavorável ao tratamento da temática indígena na sala de aula. “Os índios são sempre apresentados no passado, em razão de uma historiografia eurocentrada e em protagonistas não índios. De modo geral, a escola trata a questão indígena de forma genérica, superficial e estanque, sempre pautada pela figura do colonizador”, afirma o antropólogo e secretário-executivo do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé), Luís Donizete Grupioni. Entretanto, ele alerta para a ausência de diretrizes e orientações. “Esse é um problema da lei. Tornou-se obrigatório o ensino da cultura indígena na escola, mas a expectativa de que o Ministério da Educação (MEC) lançasse subsídios que facilitassem o trabalho dos professores não aconteceu.” Apesar de também criticar os poucos suportes fornecidos aos professores, José Ribamar Bessa Freire pondera: “Só o fato de terem criado a lei já mexeu com muitas coisas. Pelo menos, nós temos hoje uma consciência que está sendo agitada dentro das escolas”.

Segundo Armênio Bello Schimidt, diretor da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, a capacitação dos profissionais que lidarão com a temática indígena nas escolas deve ser baseada na formação de novos professores por meio dos cursos de licenciatura, além de formação continuada e criação de material didático para dar subsídios mínimos aos docentes já em exercício. O diretor afirma que o MEC pretende disponibilizar os livros ainda em 2010. “Da mesma forma, as diretrizes para os professores devem ser encaminhadas ao Conselho Nacional de Educação neste ano”, conclui. Essas diretrizes, afirma Schimidt, visam explorar a diversidade sociocultural dos povos indígenas, com as diferentes organizações sociais, cosmologias, crenças, valores e práticas.

Transpor preconceitos arraigados na população não é tarefa simples. Um exemplo é dado por Zezinho Yube, ao contar que os próprios huni kui também são chamados de kaxinawá, que significa povo do morcego. No início do tempo do cativeiro, revela, os “brancos” não sabiam como era denominada aquela etnia. Ao ver um pequeno huni kui matando a pauladas um morcego (kaxi) na mata, um seringueiro perguntou-lhe o que estava fazendo. O jovem apontou para o animal morto e repetiu: “Kaxi, kaxi, kaxi”. A partir daí, passou-se a usar kaxinawá (povo do morcego) para designar esses índios acrianos.

Questionado sobre com qual nome preferia ser identificado, Zezinho Yube foi enfático: “Huni Kui, que significa gente verdadeira”. Já hãtxa kui, disse, é a “língua verdadeira”, falada por seu povo. O Vídeo nas Aldeias foi um importante aliado no resgate de patrimônios culturais, já que os participantes encontraram em uma tecnologia do “branco” um meio para lutar contra o aculturamento. Segundo Zezinho Yube, antes do projeto, muitos jovens consideravam os costumes de seus ancestrais como algo secundário. “Hoje, todos falam pelo menos o básico do hãtxa kui”, orgulha-se. Com a nova lei, espera-se que educadores revelem aos seus alunos a riqueza e diversidade multicultural dos huni kui, kuikuro, panará, xavante e ashaninka, entre tantos outros. Assim, será possível sanar uma dívida histórica. Pelo menos nas salas de aula.