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O fim da “greve” de estudantes da USP

por Ricardo Palacios — publicado 23/09/2014 15h07, última modificação 23/09/2014 15h13
Sinto informar aos alunos “grevistas” que hoje cantam vitória que o aumento de salários de funcionários e docentes das universidades estaduais paulistas não fortaleceu a universidade pública
André Montoro
'Cadeiraço'

Estudantes impedem a passagem com carteiras na FFFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas)

Uma das múltiplas surpresas que tive na Universidade de São Paulo (USP) foi a existência de “greve” de estudantes. Parece um contrassenso que uma categoria de pessoas que não realizam uma atividade produtiva em termos econômicos possa fazer greve. Quando fiz minha primeira faculdade na maior universidade pública da Colômbia, reservávamos a palavra greve para os trabalhadores e usávamos paralisação de atividades para os alunos.

O campus principal da Universidad Nacional de Colombia fica num lugar privilegiado no centro expandido de Bogotá. A “Ciudad Universitaria” está entre duas das principais avenidas da cidade. Por isso, os protestos estudantis bloqueavam o trânsito da capital. Ver estudantes quebrando muros para atirar pedras nos policias era cena comum. Alguns iam mais longe e lançavam coquetéis Molotov. De outro lado, os policiais disparavam gás lacrimogênio e usavam tanques antimotins com jatos de água colorida para marcar os manifestantes (sim, a polícia colombiana tem tanques antimotins desde o século passado, à diferença da Policia Militar paulista).

Os protestos dos estudantes da Nacional e os transtornos que causavam viraram habituais na vida da cidade. Motivos para protestar não faltaram nunca, mais ainda num País com história convulsionada e espaços políticos fechados ocultos na aparência de uma das democracias mais estáveis do continente. A cada protesto, a universidade fechava por alguns dias e os semestres iam se alastrando para um calendário incerto permanente. A maior parte dos estudantes só queríamos fugir o antes possível para poder chegar a salvo em casa sem respirar muito gás lacrimogênio.

Houve só uma vez durante o período que estudei na Nacional em que o grupo de estudantes que organizavam os protestos obstruiu a entrada do prédio onde estudava com carteiras escolares, prática que se conhece na USP como ”cadeiraço”. A maioria de estudantes da minha faculdade tinha provas esse dia e alguns dos meus colegas não hesitaram em remover as carteiras e logo estávamos todos sentados nas salas do prédio fazendo as provas programadas. Eu me lembro de que fazia prova de fisiologia no segundo andar do prédio quando senti uma onda explosiva que sacudiu minha carteira. Eu e meus colegas continuamos fazendo a prova. Quando saímos encontramos todas as vidraças do térreo destruídas pelos explosivos deixados em retaliação por termos retirado o “cadeiraço”. Felizmente ninguém se machucou.

Quando estudantes, funcionários e docentes falam sobre o risco de “privatização” das universidades públicas por parte de governos com políticas neoliberais, parece mais um bordão de luta que uma realidade possível. Na prática, a chamada privatização não acontece necessariamente com a venda da instituição para o setor privado, os prédios não são entregues para novos donos como aconteceu com a infraestrutura de serviços públicos.

Na Universidad Nacional de Colombia, as políticas neoliberais se materializaram com a decisão de reduzir o repasse direto à universidade pública e ordenar a seus gestores que procurassem recursos para sustentar o funcionamento. Os aportes diretos do governo diminuem progressivamente, de 87% do orçamento no ano 2000 a 57% atualmente. O restante do sempre deficitário orçamento deve ser procurado pela universidade. Segundo o orçamento dos últimos anos, a universidade obtém recursos principalmente por “Venda de bens e serviços” e “Fundos especiais”. A rubrica principal na venda de serviços são “Matrículas”, o que indica como a relação entre estudantes e universidade foi transformada numa operação comercial. O item de “Fundos especiais” inclui os recursos por venda de bens e serviços ao setor produtivo. Assim, a linguagem orçamentária traduz a visão das políticas neoliberais. Hoje a universidade está caindo aos pedaços, literalmente: partes do prédio de Direito e de Veterinária desabaram recentemente.

Como uma universidade aparentemente tão combativa foi reduzida a essa situação? Porque a comunidade universitária e a sociedade não conseguiram frear essa deterioração progressiva? Há muitas lições que podemos apreender dessa experiência. Quero enumerar apenas três delas:

1) A universidade pública ficou fora da agenda da sociedade: infelizmente a defesa da universidade pública não é uma pauta óbvia como parece para muitos dentro dos campus. A universidade fica dentro de uma bolha, e seu diálogo com a sociedade é fragmentado e esporádico. Para boa parte da população, a universidade pública é um espaço alheio. Para estudantes do ensino médio público, tentar o vestibular de uma universidade pública está além do horizonte. A universidade privada é muito mais próxima porque é onde estudam as poucas pessoas que conhece que estão no ensino superior.

2) Os mecanismos de mobilização deixaram de mobilizar: os protestos estudantis foram banalizados. Nem os próprios estudantes sabiam o porquê do protesto exatamente. A agenda era diversa e difusa. Os confrontos violentos afastavam o diálogo e impediam que a maioria da comunidade universitária formasse uma opinião. Se os que estavam dentro da universidade não sabiam os reais motivos do protesto, imagine o que sabia a sociedade que estava fora.

3) Não foi possível a construção de uma alternativa: perante as políticas do governo, houve uma incapacidade de criar alternativas viáveis. Os diferentes grupos estavam mais preocupados em brigar entre eles do que em oferecer propostas. E os grupo mais extremistas lutavam por “La Revolución” e terminaram por intimidar e desqualificar as pessoas que estavam apenas se organizando.

Não, não estava me referindo acima à USP, estava tratando do caso da Universidad Nacional de Colombia. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Mas há mais lições para aprender da história recente da Colômbia. Em 2011, o governo da Colômbia apresentou no congresso uma reforma à lei que enfraqueceria mais ainda a universidade pública. Os estudantes conseguiram coordenar esforços para mobilizarem-se e através de passeatas cheias de manifestações artísticas e criativas obtiveram o apoio popular e conquistaram que o governo retirasse a proposta de reforma.

Eu sinto informar àqueles estudantes “grevistas” que hoje cantam vitória que o aumento de salários de funcionários e docentes das universidades estaduais paulistas não fortaleceu a universidade pública. O problema de orçamento piorou mais um pouco e a crise está sendo empurrada até o ano seguinte quando será discutido um novo aumento de salários. E o movimento estudantil que poderia tirar a discussão da lógica de luta salarial ficou refém dos apelos trabalhistas dos sindicatos no que foi denominado por alguns como “greve de reboque”. Os discursos dos estudantes “grevistas” vibravam dizendo “ganhamos um aumento” como se eles estivessem na folha de pagamento da universidade.

Talvez por isso é que lideranças do movimento estudantil usam a palavra “greve” e não paralisação, por sentirem-se um apêndice dos sindicatos. Na minha faculdade, estudantes obstruíram com “cadeiraços” a entrada dos docentes não grevistas as salas de aula, seus locais de trabalho, para impedir que os docentes furassem a greve decretada por seu próprio sindicato. E de nada serviram os apelos dos próprios docentes, grevistas e não grevistas, para retirar os obstáculos. Os estudantes “grevistas” continuaram inflexíveis. E os prédios ficaram esvaziados de estudantes e do debate de propostas.

As atividades de greve mobilizaram só uns poucos, mas o movimento estudantil não fez nada para mudar esse cenário. Salvo uma inciativa extraordinária de quatro pós-graduandos de Ciência Política que contrastaram afirmações da reitoria e os sindicatos com os poucos dados públicos, não conheço outros aportes dos estudantes de minha faculdade para avançar na compreensão e solução dos problemas da universidade.

Obtido o aumento salarial, a maior parte dos estudantes que tiveram as atividades paralisadas vão retornar as aulas exaustos, preocupados com minimizar as perdas de conteúdo e defraudados com uma “greve” estudantil que se alastrou por mais de três meses e afetou dois semestres acadêmicos sem solucionar nenhum problema estrutural da universidade e sem melhorar as condições dos discentes.

Sei que as lideranças do movimento estudantil dirão que estou equivocado. Quero muito que me demonstrem que estou equivocado. Tenho quase certeza que a próxima chamada para mobilização vai encontrar mais ceticismo e resistência por parte da maioria dos estudantes. E as lideranças do movimento estudantil ainda não terão aprendido que mobilização, paralização, greve, piquete e “cadeiraço” não são sinônimos.

Vou compartilhar um sonho: eu queria ver a discussão sobre as universidades públicas ultrapassar as fronteiras dos campi, incluir os estudantes de ensino médio público de São Paulo e suas famílias saindo a defender as universidades estaduais paulistas por saber que estão lutando por sua chance de cursar seus estudos superiores. Mas, eu sei que, do jeito que estão indo as coisas, talvez nunca chegue a ver meu sonho realizado.

* Ricardo Palacios é médico, formado no exterior com o diploma devidamente revalidado no Brasil, brasileiro naturalizado. Foi consultor temporário para projetos de pesquisa da Organização Mundial da Saúde e agora estuda Ciências Sociais na Universidade de São Paulo. As opiniões expressadas neste artigo não representam a posição de instituição alguma.