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O espírito que não descansa

por Marco Cabral dos Santos — publicado 10/09/2010 14h53, última modificação 10/09/2010 15h25
As comemorações da Revolução de 1932 revelam o quanto São Paulo ainda se acha diferente do resto do Brasil

As comemorações da Revolução de 1932 revelam o quanto São Paulo ainda se acha diferente do resto do Brasil

Entre julho e outubro de 1932, a Região Sudeste foi palco do maior conflito armado da história republicana brasileira. De maneira geral, os livros didáticos reservam poucas linhas para aquele episódio, mas, em 1997, o governo do estado de São Paulo decidiu dedicar-lhe um feriado: o “Dia da Revolução Constitucionalista”. Mas teria sido mesmo o anseio por uma Constituição o fator que levou tantos homens a darem suas vidas nas trincheiras paulistas? E a vitória de São Paulo, que consequências traria?

Mário de Andrade, testemunha ocular da guerra, retratou nas páginas do Diário Nacional a pouca familiaridade de muitos voluntários com a causa constitucionalista: “Na Rua das Palmeiras, três homens pobremente vestidos seguem num passo decidido. Dois carregam fardas e botinões de soldado. Um deles é rapaz ainda. De repente, interrompe a parolagem, perguntando: ‘Mas o que é, direito, a Constituição?’ Se percebe uma certa atrapalhação nos outros dois, o passo decidido em que vêm meio que tonteia”.

Octavio Frias de Oliveira – que completou seus 20 anos de idade durante o conflito, entrincheirado na região de Cunha – registrou em sua biografia as motivações que levavam alguns jovens ao alistamento voluntário: “Foi uma histeria coletiva em São Paulo, todo mundo se alistou. Eu não acreditava naquela revolução, achava que nós íamos perder, mas a pressão geral era tão grande que resolvi me alistar também, para desespero de meu pai, que não queria que eu fosse de jeito nenhum. Aquilo era sacanagem dos paulistas da UDN. Sempre achei isso”.

Na epopeia épica Marco Zero, um dos personagens de Oswald de Andrade exclama reveladoramente: “Adonde é a Casa do Sordado? Eu me alistei por causo da boia”. A cultura política do brasileiro médio não era suficientemente desenvolvida a ponto de mobilizar tanta gente em torno da luta pela ordem constitucional.

A gigantesca campanha pela adesão das massas às causas revolucionárias, por pautar-se no enaltecimento de valores regionais, trazia em seu bojo o inconveniente de fortalecer argumentos separatistas, ideário presente em São Paulo desde fins do século XIX. Retratando a síntese desse paradoxo, Mário de Andrade registrava que o lema Tudo por São Paulo – que se fazia presente em faixas, veículos e nos quepes dos soldados – era “a única unanimidade” naqueles agitados dias de 1932. Definitivamente, foi “por São Paulo” – e não pelo Brasil – que tantos homens e mulheres se sacrificaram.

No calor da luta, a velha aristocracia cafeeira afastada do poder central encontrou espaço para expressar seus planos restauracionistas. Se muitos paulistas viam na causa constitucional a possibilidade de fundação de uma nova ordem política no Brasil, o promotor Ibrahim Nobre declarava: “Queremos que seja respeitada essa Constituição que a ditadura rasgou”, vislumbrando ensejo para que se restabelecesse a velha ordem oligárquica que dominara o País por tantos anos. Os sentidos com que se revestiam as falas revolucionárias estavam longe de apresentar qualquer unidade e a definição de seus contornos era matéria de uma aberta e arraigada disputa simbólica. O lema “Tudo por São Paulo” era conveniente por amalgamar interesses diversos sob a mesma bandeira: a restituição de São Paulo ao seu lugar de direito no comando dos rumos políticos da nação.

Com a finalidade de financiar a produção de capacetes para os soldados paulistas durante a guerra, pôs-se em marcha uma campanha de doação de ouro. A Cúria Metropolitana promovia a troca de alianças de casamento de ouro por substitutas de ferro, nas quais se lia o lema ufanista da campanha: “Dei ouro para o bem de São Paulo”. Com a bênção da Igreja, cerca de 19,5 mil alianças foram trocadas até o fim da guerra. Num inflamado discurso proferido em plena campanha do ouro, o poeta Menotti Del Picchia apelava aos sentimentos de paulistanidade para sensibilizar os potenciais doadores: “Paulistas, vós que tendes corações de ouro, dai ouro a São Paulo. Dai ouro à terra que vos deu a vida. Paulistas! Devolvei um pouco do tudo que São Paulo vos deu!”

Até hoje esses anéis, juntamente com os famosos capacetes de aço usados pelos soldados, são peças muito disputadas entre os antiquários paulistas, relíquias que sintetizam o espírito do paulistanismo e sua abnegação pela causa constitucionalista. Após o término das hostilidades bélicas, tornou-se moda entre as elites paulistas ostentar tais anéis, dísticos do sacrifício feito pelo “bem de São Paulo”. O volume de contribuições demonstra o grau de envolvimento de parte da população paulista, além de explicitar os valores políticos em jogo no intrincado cenário da guerra: tanto as doações quanto a presença no front eram alimentadas pelo paulistanismo.

Tantas e tão intensas referências ao “valoroso passado bandeirante” ou à “pujança econômica” daquele que era considerado o estado “locomotiva da nação”, deram respaldo aos perigos de ideias que não puderam ser contidas no calor da guerra. O episódio da Revolução de 1932 evidenciou as tensões havidas entre o papel desempenhado por São Paulo na construção da nação e suas aspirações frustradas com a Revolução de 1930.

A memória estabelecida desde então somente parcialmente guarda correspondência com o complexo quadro político e social que culminou com a guerra civil. Em 10 de agosto, depois de um mês de conflitos, Monteiro Lobato enviava uma carta emocionada a Waldemar Ferreira, um dos líderes da “revolução”, na qual apresentava um balanço da crítica situação em que se encontrava São Paulo, observando ao seu amigo que “há o que a boca diz e há o que o coração sente. Minha boca diz o que todos neste momento dizem – mas meu coração, e talvez o de São Paulo inteiro, sente o que vai escrito nas tiras anexas”. E o que o coração de Lobato expressava traduzia-se num texto intitulado “A defesa da vitória de São Paulo”, em que deixava claro que, para os paulistas, só havia dois caminhos: hegemonia ou separação.

Para ele, o que se passava era uma “guerra de independência disfarçada em guerra constitucionalista” e exortava os dirigentes paulistas a não sucumbir aos apelos da “linda ideia romântica da brasilidade”. O alongar-se da guerra acirrou o clima de animosidade, expresso na crescente repulsa de alguns paulistas aos naturais de outros estados. Mário de Andrade, que no início portava-se como crítico, vendo a guerra como uma “injustiça”, não tardou em colaborar anonimamente com o Jornal das Trincheiras, posteriormente lamentando-se não poder estar no front. Após o armistício, manifestava ao amigo Carlos Drummond de Andrade o rancor que lhe dominava a alma: “No momento, eu faria tudo, daria tudo para São Paulo se separar do Brasil”.

No contexto da deflagração do conflito armado de 1932, a enorme ênfase em valores regionais teve como resultado mais imediato a formação de um suposto consenso capaz de galvanizar diversos estratos sociais em torno de uma causa que tinha raízes nos interesses tanto dos oligarcas destituídos de poder como de liberais sedentos por se impor na nova conformação do cenário político brasileiro. Notadamente, até agora, parte da historiografia tem empenhado argumentos na defesa da ideia de que a “Revolução de 1932” não ostentava aspirações separatistas. Não se trata aqui de questionar essa afirmativa, mas de redimensioná-la. Não se pode dizer que o separatismo esteve ausente no espectro do ideário político de então. Esteve ausente apenas dos discursos daqueles que definiam os rumos da coletividade: a elite política paulista. O que se deve considerar é que foram múltiplos os sentidos assumidos pela revolução nas cabeças dos mais de 700 homens que deram suas vidas no front, ou daqueles mobilizados por todo o estado de São Paulo.

Curiosamente, o apreço pela democracia demonstrado pelas elites políticas de São Paulo em 1932 não foi forte o bastante para suscitar reações anos mais tarde, quando Getúlio Vargas fechou o Congresso Nacional, instituindo uma escancarada ditadura e dando início ao Estado Novo, em 1937. Não obstante, a campanha bélica empreendida pelos paulistas em 1932 paulatinamente assumiu contornos de evento-símbolo de uma identidade regional, calcada numa suposta luta pelas liberdades democráticas.

Em 9 de julho de 1955, a cidade de São Paulo inaugurou seu maior monumento, dedicando-o aos “heróis” que deram suas vidas à causa paulista. Projetado pelo escultor italiano Galileo Emendabili, feito com mármore travertino, com 72 metros de altura, o Obelisco do Ibirapuera, como ficou conhecido o Monumento ao Soldado Constitucionalista de 1932, simbolizou a grandiosidade do sacrifício paulista. Além de ter recebido as cinzas de Martins, Miragaia, Drausio e Camargo (os quatro estudantes que se converteram em símbolos da revolução), o local guarda ainda os restos mortais de 713 combatentes. Foi saudado por muitos à época como o segundo maior mausoléu do mundo, ficando atrás apenas do Taj Mahal, na Índia. A eloquência do monumento guardava proporção com o reiterado discurso da excepcionalidade paulista, já evocado nas festividades do quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954, e constantemente alimentado pela reafirmação de seu papel de condutor da nação.

O mito da “excepcionalidade paulista”, calcado em sua suposta constituição sociocultural diferenciada – ideia delineadora de uma identidade regional comum a muitos daqueles que lutaram em 1932 – ainda persiste informando seu imaginário social, a despeito da desconstrução a que se tem dedicado a historiografia nos últimos anos. Não há dúvida de que a recente fixação do feriado estadual em alusão ao conflito exprime a vigência da ideia de que a identidade paulista ainda passa pelo sentimento de excepcionalidade em relação ao restante do País. Atualmente, muitos paulistas desconhecem as origens do feriado de 9 de Julho. Outros tantos encontram na efeméride correspondência para a manifestação de ideais duvidosos. No Orkut, por exemplo, são diversas as comunidades dedicadas aos “temas paulistas”. Uma delas, intitulada “São Paulo Independente”, cuja finalidade seria reunir “todos que são a favor da independência paulista”, já agrega mais de 4 mil membros. Ao que parece, o desejo de Lobato – hegemonia ou separação – ainda ecoa em muitas cabeças.