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O crédito e o descrédito dos rankings universitários

por Soraya Smaili publicado 10/11/2015 17h44
Os rankings como avaliação, meramente, não colaboram na busca por qualidade e por serviços melhores para a sociedade
Cecilia Bastos/Jornal da USP
Universidade-de-São-Paulo

Nenhuma universidade brasileira está entre as 100 melhores do mundo; as mais bem colocadas são públicas

Durante muito tempo, obter um diploma de ensino superior era algo tão raro que a sua mera posse, no Brasil, se tornava garantia não apenas de um bom emprego, como de uma trajetória de sucesso no mercado de trabalho.

O ensino superior continua abrindo portas, porém, a classificação do sistema trouxe à tona um cenário complexo para quem deseja comparar a qualidade das diferentes universidades.

Os indicadores da qualidade do ensino superior tornaram-se, assim, ferramentas úteis para orientar a tomada de decisão, tanto por parte do estudante no momento de sua escolha em relação a que faculdade cursar, quanto do mercado para nortear a contratação de jovens profissionais, e até mesmo do governo para embasar a alocação de recursos orçamentários do ensino superior.

Surgiu, a partir desse quadro, uma profusão de indicadores de desempenho “independentes”, os chamados rankings universitários.

Se parece mais do que justificada a necessidade de classificar as universidades, colocando constantemente novos desafios para os seus projetos pedagógicos, os rankings precisam também ser avaliados, pois estão longe de revelar ao público uma verdade absoluta.

Atualmente existem vários tipos de rankings, vários deles internacionais e que avaliam elementos diferentes, por meio de questionários bastante complexos, porém cada qual com sua metodologia e objetivo. Esse é um fato que pode gerar discrepâncias, ao ponto de uma universidade ser muito bem avaliada por um e não tão bem avaliada por outro.

Há vários exemplos, alguns chamam a atenção. Em 2015 um dos rankings internacionais mais conceituados colocou a Unifesp como a 5ª universidade brasileira no ranking mundial. Poucas semanas depois, um ranking nacional mostrou uma queda na classificação.

Apesar de a empresa não divulgar a metodologia, identificamos a origem do fenômeno em uma variável subjetiva que compõe o indicador: a reputação das universidades no mercado de trabalho.

Notavelmente, em todos os itens da mesma avaliação, tais como ensino, pesquisa, número de publicações e internacionalização, a Unifesp alcança boas posições. Porém, ganha um grande peso a opinião de gerentes de recursos humanos de empresas a respeito de sua preferência por egressos de diferentes universidades.

Para o curso de Medicina, a contradição fica mais patente, pois apesar de ser reconhecido como o melhor curso de medicina em termos de ensino e pesquisa, teve sua classificação influenciada pelo “mercado".

Alguns parâmetros usados nos rankings podem ser objetivos, tais como número de publicações (artigos e livros aceitos após revisão de corpo editorial), número de citações, número de patentes, volume de recursos obtidos por convênios, número de colaborações no exterior e prêmios internacionais.

Outros, porém, parecem ter elevado grau de subjetividade. A preferência não necessariamente corresponde ao grau de excelência de ensino e pesquisa de instituições de ensino superior. Não raro, infelizmente, ocorre o contrário. São justamente as universidades privadas, com fins lucrativos, que aparecem no “top of mind” dos recrutadores de pessoal.

Mas é na universidade pública que se constituem os estudos para melhorar a vida da sociedade e onde se preparam os profissionais para o sistema público e para o desenvolvimento de políticas públicas.

Certamente outro teria sido o resultado se, em vez de opinativo, o indicador buscasse auferir fatos, como, por exemplo, a taxa de empregabilidade do egresso da Unifesp – que chega a quase 100%, inclusive para os novos cursos.

Além disso, muitos dos quadros egressos da instituição buscam o serviço público, cujas empresas não estão representadas com o peso devido na metodologia adotada pelo ranking em questão.

Por outro lado, podemos também refletir sobre o que os rankings podem nos apresentar de positivo, se mantivermos o olhar crítico. Entre os elementos que poderiam ser cotados como positivos está o fato de que um olhar externo e que busque avaliar a complexidade da universidade possa ter efeitos extremamente positivos na condução ou correção de seus rumos.

Os rankings vistos como uma estratégica complementar e não como avaliação per si podem ser importantes na busca da qualidade e no oferecimento do melhor serviço para a sociedade.

Olhar para o que outras universidades de grande tradição e renome internacional estão fazendo, não só pode ajudar a corrigir rumos, como melhorar a produção científica e a formação de profissionais. Certamente a experiência de universidades como Harvard, Princeton, Oxford, Cambridge, Salamanca, de Paris, de Tokyo ou de Singapura, entre outras.

Ainda assim, qualquer análise deve levar em consideração o fato de que nenhuma universidade brasileira aparece entre as 100 primeiras do mundo, porém, as mais bem colocadas internacionalmente são sempre as universidades públicas.

Esses dados também abrem discussões interessantes sobre o papel da universidade e a sua necessidade de financiamento, bem como o quanto nações que colocaram a educação e a pesquisa em primeiro plano, valorizando suas universidades e institutos de pesquisa, puderam avançar e se desenvolver como Estados. Vamos tratar mais desse assunto em breve.

Soraya Smaili é Reitora da Universidade Federal de São Paulo