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Luz, câmera...

por Ricardo Carvalho — publicado 10/09/2010 14h47, última modificação 10/09/2010 14h47
Conheça três projetos escolares que encontraram no clipe uma ferramenta para abordagens interdisciplinares atrativa entre os alunos

Conheça três projetos escolares que encontraram no clipe uma ferramenta para abordagens interdisciplinares atrativa entre os alunos

A Escola Estadual Trinta e Um de Março, localizada no bairro de Santa Mônica, na periferia de Campinas, foi construída em 1969 após reivindicações dos moradores que demandavam a criação de um grupo escolar numa região sem infraestrutura de saneamento básico ou de transporte. A construção do edifício foi realizada pelos próprios moradores em fins de semana e feriados, com o auxílio de um grupo de militares. Nos últimos anos, os estudantes queixavam-se de que a mídia de Campinas retratava o bairro apenas de maneira pejorativa, principalmente devido a casos de violência. Na tentativa de valorizar a história da escola, contextualizando-a com os acontecimentos do bairro e, de certa forma, do País, a professora Dulcinéia Aparecida Ribeiro desenvolveu um projeto que culminou com o documentário Filmando a História da Escola Estadual Trinta e Um de Março.

Os alunos, munidos de câmeras fotográficas, uma filmadora e celulares, -saíram pelas ruas e produziram um vídeo de, aproximadamente, 15 minutos com depoimentos de funcionários, professores, alunos, e moradores do Santa Mônica. “Nós fomos colhendo o depoimento dessas pessoas e construindo, costurando o vídeo”, explica a professora. Segundo Dulcinéia, produzir um vídeo com seus alunos permitiu uma abordagem interdisciplinar de diversos conteúdos. A matéria de Língua Portuguesa ficou responsável pela elaboração do roteiro, enquanto História contextualizou o período de fundação da escola (regime militar) e alguns acontecimentos históricos ocorridos na região, como o embate entre liberais e conservadores conhecido como Combate da Venda Grande, em 1842.

A produção, diz Dulcinéia, permitiu muito mais do que o resgate da história do bairro. “Eu costumo dizer que o resgate do bairro foi o resgate da história pessoal que trouxe junto a elevação da autoestima e um sentimento de pertencimento. Não é apenas o bairro Jardim Santa Mônica, é o bairro deles.” Além do mais, a professora relata que utilizar o suporte do vídeo traz maior motivação aos estudantes. “O fato de trabalharmos com tecnologias traz uma relação de parceria, não de professor-aluno hierarquizada”, conclui. Para a realização do filme, professores e alunos -contaram com a -colaboração do Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas na Educação(Lantec) da Faculdade de Educação da Unicamp.

A memória de São João Del Rei

Também com o objetivo de resgatar e preservar o local onde a escola está inserida, só que englobando toda a cidade, a Escola de Educação Básica e Profissional Dona Sinhá Neves – Fundação Bradesco da mineira São João del Rei desenvolveu o projeto Romantismo do Século XXI. Iniciativa dos professores Valdir P. A. Junior e Maria Rodarte Paiva, o projeto fez uma releitura do Romantismo para os dias de hoje. Basicamente, os alunos estudavam as três gerações do movimento literário, buscavam paralelos na atualidade e, por fim, produziam pequenos documentários. Assim, a primeira geração, caracterizada pelo nacionalismo, foi comparada pelos alunos do segundo ano do Ensino Médio com a história de São João del Rei e a necessidade de preservação do patrimônio da cidade histórica. “Eles entrevistaram pessoas ligadas a diferentes partes de arte e de cultura, investigaram outros pontos turísticos daqueles não explícitos e produziram DVDs falando desse resgate da história, inclusive na parte de artesanato e culinária”, comenta a professora Maria Rodarte. Já na etapa subsequente, os alunos produziram um segundo DVD, com diferentes formas de expressão das poesias românticas. “Poesias de Álvares de Azevedo, por exemplo, foram transformadas em músicas do século XXI, com clipes gravados na cidade, animações, declamações e saraus”, complementa a professora.

Assim como na experiência de Campinas, os professores responsáveis pelo Romantismo do Século XXI garantem que o vídeo traz motivação extra para os alunos. “Apesar de eu ter sugerido outras formas para a elaboração do projeto, o vídeo foi o recurso que eles mais quiseram usar”, afirma Maria Rodarte. A professora também destaca que grande parte do projeto foi realizada com câmeras embutidas em celulares e máquinas fotográficas com função de gravação de filme, o que agiliza e faz com que o processo praticamente não tenha custos.

Outras técnicas

O Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, desenvolve atividades com vídeos nas turmas do sétimo ano. Diferentemente dos exemplos anteriores, os alunos criam animações em stop motion, técnica que realiza centenas de imagens de uma mesma cena para dar a sensação de movimento. Os vídeos têm, aproximadamente, 2 minutos e os cenários são construídos com papelão, cartolina e massinha, enquanto para os personagens são utilizadas miniaturas, como bonecos de Lego. Todos os anos, um tema é escolhido para pautar as produções e, desta vez, o eleito foi ecologia urbana, batizando o projeto de Água, Terra, Fogo e Ar. Um dos responsáveis pela iniciativa, o professor Siddharta Dias de Almeida Fernandes, explica a proposta: “Cada grupo recebeu um tema dentro da ecologia urbana, como ocupação da terra, utilização da água, os problemas da poluição do ar ou a questão do fogo, como queimadas e o problema de balões”. Para cada minuto de gravação, os alunos realizam, em média, 800 fotos. Depois de concluídas, parte-se para a edição, em que os alunos inserem efeitos sonoros e a narração. “No final do processo, ele (o aluno) tem um filme contando um problema estudado na sala de aula. Ele está estudando muito mais a fundo para fazer um filme”, afirma.

O professor Siddharta destaca que, além da interdisciplinaridade, o próprio ensino da linguagem cinematográfica traz grandes possibilidades pedagógicas. “Fazer um filme, na verdade, é ter uma ideia macro de um tema e escolher uma forma de contá-la. Quando um diretor escolhe fazer um enquadramento, um close, filmar em plano aberto ou colocar uma música de suspense, na verdade, trata-se da opção de construção de uma mensagem. E isso é o processo pedagógico que o aluno vive.” Os três projetos foram finalistas no Prêmio Microsoft Educadores Inovadores Brasil – 2010.