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No Dia do Professor, alunos vão às ruas contra o fechamento de escolas

por Marcelo Pellegrini — publicado 15/10/2015 18h17, última modificação 15/10/2015 18h22
Alunos marcharam até o Palácio dos Bandeirantes contra a reorganização escolar proposta por Geraldo Alckmin (PSDB), que pode fechar 150 escolas
Yghor Boy
Protesto contra a reorganização

Estudantes da rede pública estadual marcham na Avenida Rebouças contra a reorganização escolar

O Dia do Professor foi de protesto para os estudantes da rede pública de ensino do Estado de São Paulo. Reunidos no Largo da Batata, zona oeste da capital paulista  nesta quinta-feira 15, cerca de mil estudantes secundaristas protestaram contra a reorganização escolar anunciada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), cujo resultado deve ser o fechamento de ao menos 150 escolas públicas.

Concentrados no local desde às 8h, estudantes saíram em marcha pelas principais avenidas da cidade por mais de cinco quilômetros até alcançar o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do estado de São Paulo.

Durante o percurso, alunos lembraram o Dia do Professor e entoaram gritos em solidariedade aos educadores, como:  "o professor é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo".

No início do ano, professores da rede pública paulista ficaram 89 dias paralisados, em uma das maiores greves da categoria, e não viram nenhuma de suas demandas por melhores salários ou melhores condições de trabalho ser atendida pelo governo Alckmin. 

As perspectivas para a categoria, contudo, são ainda mais sombrias. Com a reorganização escolar, entidades como a Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) preveem superlotação de salas e demissão de professores. Este temor, de certa forma, já foi confirmado: em 2015, 3.390 classes foram fechadas, obrigando algumas salas a iniciarem o ano letivo com até 60 estudantes. O número está muito acima de padrões internacionais, que definem um máximo de 20 alunos por sala.

Para o professor da rede pública Bruno Magalhães Silviano, presente no ato, existe uma relação entre a greve de professores e as mobilizações estudantis contra o fechamento de escolas. Segundo ele, a vitória do governo sobre os professores deu força para o governador seguir "reorganizando" a educação, desta vez fechando escolas. “A situação da educação é catastrófica. Tenho vários colegas pedindo exoneração ou entrando de licença médica por problemas psicológicos", conta.

"Hoje o professor tem que trabalhar muito para ter um salário digno, e as salas estão superlotadas, com até 50 alunos. São muito mais um depósito de alunos onde o professor tenta segurar uma panela de pressão do que um espaço pedagógico. As manifestações são o reflexo dessa situação insustentável”, afirma.

A insatisfação do professor Silviano, que leciona no Grajaú (sul da capital), é compartilhada pela aluna do segundo ano do ensino médio Janaína do Vale, da escola João Kopke -- localizada nos Campos Elísios, na região central. "Se um professor não dá conta de 30 alunos, imagina 60", prevê.

Ao lado de Janaína, a aluna Sophia Lemos, estudante da rede pública estadual em Jundiaí, questiona a falta de recursos para a Educação. "Desde sempre o governo do PSDB aplica uma política de descaso com a educação. Sabemos que o histórico deste governo é de construção de presídios, não de escolas", reclama.

Protesto
Estudante protesta contra o fechamento de escolas da rede estadual. Crédito: Yghor Boy

A opinião de Sophia se conecta a outro grito dos estudantes: "Que contradição, [o governo] tem verba para a polícia, mas não tem para a Educação". A crítica faz alusão aos recursos investidos em Segurança Pública e no sistema prisional e à repressão policial durante o protesto do dia 9, quando um professor e um cinegrafista foram detidos na avenida Paulista.

Em 2014 e em 2015, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) prometeu construir 13 novas unidades prisionais, suficientes para abrigar mais de 10 mil presos. Por outro lado, o governo paulista não construiu nenhuma universidade estadual nos últimos 8 anos, fechou 3.390 classes este ano e pode vir a fechar ao menos 150 escolas com a reorganização. A escola estadual Bispo Dom Gabriel Paulino Bueno Couto, em Jundiaí, onde Sophia estuda, é uma das que recebeu o aviso de que será fechada.

Em números absolutos, a gestão Alckmin gasta  4,6 vezes mais com um detento do que com aluno, segundo um levantamento da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE).

O anúncio oficial de quais escolas terão as atividades interrompidas está previsto para o dia 14 de novembro, mas circula uma lista do sindicato dos professores (Apeoesp) com os nomes das escolas que receberam o aviso de fechamento. O total chega a 3% das escolas públicas do estado.

No final de setembro, o secretário de Educação do Estado, Herman Voorwald, anunciou que, em 2016, as escolas serão reorganizadas para que mais unidades atendam apenas uma etapa de ensino entre as três que a rede contempla: Fundamental 1, do 1º ao 5º ano, Fundamental 2, do 6º ao 9º ano, ou Ensino Médio. A justificativa é que, com isso, as unidades se concentrariam em qualidade para cada idade. 

No entanto, estudantes e professores entendem que a medida visa cortar gastos da educação e irá aumentar a evasão escolar no estado, que já atinge 15% da população, segundo o IBGE. "Vai ter evasão escolar por conta da distância entre a casa e a escola. O aluno que abandonar a escola será justamente o mais vulnerável, e pode ser cooptado pelo crime", teme o professor Paulino, da escola Adhemar Antonio Prado, em São Matheus, zona leste de São Paulo. 

Secretaria de Estado promete que a "reorganização" irá preservar a distância de até 1,5 quilômetro de distância entre a casa do aluno e a escola, conforme previsto em lei.

A cada ano, a rede estadual paulista tem menos alunos. O sistema chegou a ter mais de 5,5 milhões de estudantes no final dos anos 1990 e hoje tem, segundo a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), 3,8 milhões de matrículas. De lá para cá, cerca de 700 mil alunos migraram para as redes municipais, quase 300 mil para a rede particular e houve redução da população na faixa etária. 

Outros protestos estão marcados na capital e no interior de São Paulo até o dia 14 de novembro, quando o anúncio de fechamento de escolas será oficializado. Na capital, o próximo protesto acontecerá na Praça da República, na terça-feira 20.

“O governo está deslocando forçosamente alunos para outras escolas e está sucateando a escola pública. Nós estamos aqui para barrar essa reorganização e lutar por uma educação pública de qualidade”, resume o aluno Thiago dos Santos, da Escola Técnica Estadual (ETEC) Getúlio Vargas, no bairro do Ipiranga.

Protesto esudantes

No final do ato de hoje, por volta das 13h, a maioria dos estudantes já tinha ido embora quando um grupo de dez manifestantes forçaram o portão de entrada do Palácio dos Bandeirantes, depredaram luminárias e atiram rojões contra a Polícia Militar. A PM respondeu de dentro dos portões com bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha para dispersar o grupo. Segundo acompanhou a reportagem, ninguém ficou ferido. Foi o único incidente da manifestação, que foi pacífica durante todo o seu percurso.

Na última quarta-feira 14, o Ministério Público do Estado abriu inquérito civil solicitando explicações do governo paulista sobre a "reorganização" das escolas estaduais. A ação foi seguida pela Defensoria Pública, que solicitou informações à Secretaria de Estado da Educação sobre o processo. Por enquanto, contudo, o governador tucano Geraldo Alckmin não deu nenhuma sinalização de que pode voltar atrás.