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Ensino de robótica não é só coisa da cidade

por Ingrid Matuoka publicado 15/12/2015 05h20
No Rio Grande do Sul, a escola pública rural Zeferino Lopes de Castro ensina programação e robótica a seus alunos do ensino fundamental
Fundação Telefônica Vivo

No meio de uma estrada de terra em Viamão, Rio Grande do Sul, a escola pública rural Zeferino Lopes de Castro incluiu tablets, computadores e ensino de programação à grade curricular de seus alunos do 1.º ao 9.º ano.

A diretora da escola, Rosa Maria Stalivieri, explica que eles não queriam uma mera substituição do caderno por um computador, mas algo mais motivador. Para isso, criaram uma feira de ciências em que os alunos apresentam trabalhos de tecnologia e robótica desenvolvidos ao longo do ano em quatro horas semanais que se somam ao período de ensino curricular. 

A iniciativa oferece aos 135 alunos da Zeferino mais uma ferramenta que pode ser utilizada nos âmbitos profissionais e acadêmicos. Além disso, foi instituído que nos projetos os alunos poderiam estudar o que tivessem curiosidade, integrando disciplinas diversas e trabalhando com alunos de outros anos.

“Queremos abrir um mundo de oportunidades e escolhas para os alunos, com uma aprendizagem voltada para o interesse deles”, diz Rosa Maria.

Águia
Alunos de 9 anos programam robô em forma de águia para mover as asas por meio de um sensor (Fundação Telefônica Vivo)

E as oportunidades oferecidas não se limitam a questões acadêmicas. Para João Viana, 13, que morava em Canoas mas mudou-se para Viamão só para poder estudar na Zeferino, poder usar um computador em sala de aula significa muito mais. João tem necessidades especiais porque nasceu aos seis meses de gestação, o que lhe dá dificuldades motoras. “Com o teclado eu escrevo mais rápido e gosto muito de estudar aqui”, diz o jovem.

Sua mãe, Iana Viana, 28, relata que na outra escola ele estava se sentindo oprimido, mas na de Viamão foi bem recebido: “Além de usar cadeira de rodas, ele era o único que não conseguia escrever à mão. Agora, aqui, vejo uma evolução enorme na sua capacidade de aprendizado e no envolvimento com os colegas”.

A edição deste ano da feira de ciências, que aconteceu em 21 de novembro, trouxe 23 trabalhos, quase todos relacionados a questões do campo, respondendo a curiosidades dos alunos: Como funciona o universo? Por que as lontras nadam dando rodopios? Como seria uma casa sustentável? Como se comportam as águias? Acompanhando os projetos, os alunos também desenvolveram uma página na internet acessível por um QR Code que explica mais sobre os trabalhos.

João-Viana
João, ao centro, mudou-se para Viamão só para poder estudar na Zeferino (Ingrid Matuoka)

A inserção da tecnologia na Zeferino teve início em agosto de 2013 como parte do Escolas Rurais Conectadas, da Fundação Telefônica Vivo, que oferece gratuitamente tablets, netbooks e kits de robótica a escolas públicas do Brasil.

A Fundação, em parceria com a prefeitura e a Secretaria de Educação, instalou conexão de fibra ótica de alta velocidade no local e contratou a Hard Fun para auxiliar os professores com o processo de mudança curricular.

Juliano Bittencourt, membro da equipe da Hard Fun, explica que procura ajudar os docentes a entender como fazer a mediação dos estudantes com a tecnologia, ao invés de só explicar o funcionamento dos aparatos digitais.

A partir desse contato com a sala de aula, Bittencourt percebeu que se instalou um processo na escola: “Eles estão deixando de ser as pessoas que procuram informações prontas para serem as pessoas que se deslumbram com o mundo e sabem fazem perguntas, e esse é o grande desafio da ciência e do ensino científico”.

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A EMEF Zeferino Lopes de Castro, na região metropolitana de Porto Alegre (Ingrid Matuoka)

Leonardo Silveira, 14, do grupo que estudou maneiras de aprimorar a triagem do gado por meio do uso de chips na orelha dos animais, explica que o modelo desenvolvido por eles poderia ser aplicado no campo com poucas mudanças, e que o processo não foi fácil, mas gratificante.

“A gente errou também, mas cada acerto era muita alegria. E o Juliano também não sabia como funcionava o mecanismo com o chip, mas a gente aprendeu juntos”.

No último ano do ensino fundamental, Letícia Silva, 15, comenta que desenvolver o projeto, em que estudou gado e ovelhas, a ajudou a alimentar a vontade de ser veterinária. “Depois que começou o projeto, comecei a ficar mais por dentro da tecnologia, tanto é que essa semana meu computador parou de funcionar e eu consegui formatá-lo sozinha”.

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Parte do grupo que estudou como o leite se forma no corpo da vaca (Ingrid Matuoka)

Já Gabriela Silva, 7, está no primeiro ano e queria entender como o leite se forma dentro do corpo da vaca. A dúvida surgiu após uma visita dos “curiós” a uma fazenda, onde ordenharam o animal. De volta à escola, com a ajuda da professora Jamile Rodrigues, fizeram pesquisas para entender o processo e procuraram imagens para reproduzir, em escala, o trajeto do alimento pelo corpo da vaca e sua transformação em leite.

Para Jamile, essa é uma oportunidade para as crianças aprenderem conteúdos fora de suas faixas etárias, como conceitos mais avançados de matemática e biologia. “Eles se interessam porque estudam uma curiosidade deles. E eu me sinto mais motivada, isso tem trazido mudanças para nossa prática”.

Maria Rosa conta que houve uma resistência por parte dos alunos e da comunidade em aceitar a transição, porque estavam acostumados ao modelo tradicional de ensino, mas a mostra de projetos divertiu os jovens e mostrou resultado para os pais. Maria Inês da Costa, cujos três filhos apresentaram trabalhos na feira, diz que agora percebe que a mudança foi positiva, e complementa: “Eu não aprendi nada disso, mas eles, além de aprender, ensinam para nós, em casa”.

* A repórter viajou a Viamão a convite da Fundação Telefônica Vivo