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É muito estranho

por Sírio Possenti — publicado 05/12/2011 10h56, última modificação 06/06/2015 18h27
Basta que alguém descreva fatos de língua para que o texto seja lido como apologia do erro. É o verdadeiro sinal de pouco interesse real pela língua

A reação, para mim, com anos de estrada, é  das mais previsíveis. Mas ela só ocorre no domínio da língua.

Se um zoólogo descreve um animal desconhecido, ninguém entende que se sugere que ele seja adotado e criado em casa, no lugar do gato, ou consumido, no lugar do peixe. Toma-se conhecimento da existência e de algumas características do animal. Enriquece-se o nosso catálogo. Sabemos mais do que sabíamos.

Se um médico explica que o consumo de determinados alimentos engorda, ninguém se sente convidado a comer o que não comia, nem dirá que o médico deu maus conselhos à população.

Se um geógrafo descreve uma região desértica e mostra suas ricas fauna e flora, ninguém se sentirá incentivado a transformar a mata atlântica num deserto, só para ter “acesso” a novas espécies.

Mas basta que alguém descreva fatos de língua (pode ser um traço de um dialeto, como uma pronúncia regional, ou a relação entre as pronúncias e previsíveis erros de grafia) e pronto: o texto é lido como apologia do erro.

Como isso se repete sempre, parece bom repisar: saber explicar um erro de grafia não é propor que ele seja aceito (na edição de um livro ou mesmo na prova ou redação de um aluno). É apenas explicar, é jogar alguma luz sobre as razões pelas quais os mesmos fatos se repetem por séculos e séculos. É mais fácil aceitar que se trata apenas de descuido dos alunos ou de falta de rigor das escolas. O fato é repetir isso por séculos e séculos sem ler nada sobre o assunto é o verdadeiro sinal de pouco interesse real pela língua.

Achar que uma língua se resume a sua escrita é sinal de incrível pobreza intelectual. Afinal, a língua e suas variedades são talvez o mais clássico tema da humanidade.

Considerar óbvia a relação som/letra só é possível pelo desconhecimento elementar das complexas relações entre os dois domínios (sons e sua representação gráfica). Ora, ela é tanto uma questão intelectual, em sentido amplo, quanto é questão, psicológica, pedagógica, neurológica, psicanalítica, histórica.

É até uma questão industrial. Lendo alguns textos históricos (documentos de épocas diversas), tomando conhecimento de certos aspectos da relação entre escritores e editoras em diversas épocas, nosso queixo pode cair.

É mau sinal que não se conheça uma explicação mínima para grafias como “muinto” ou “tumati” ou “agente” (por “a gente”). Pior do que isso é pensar que tais explicações nem devem existir. Ou que não pode ser esclarecidas aos mais interessados: os alunos.