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Entrevista

Drogas e adolescência

por Lívia Perozim — publicado 08/11/2010 09h40, última modificação 09/11/2010 16h09
O psiquiatra Dartiu Xavier alerta para o aumento de consumo de crack e defende uma prevenção na escola menos policialesca
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"As classes mais abastadas também estão consumindo crack. Nessas classes, a situação de abandono psicológico e descaso é algo muito presente" (Foto: Masao Goto Filho)

O psiquiatra e especialista em dependência química Dartiu Xavier alerta para o aumento de consumo de crack e defende uma prevenção na escola menos policialesca

Um estudo inédito sobre o perfil e a quantidade dos usuários de crack no Brasil está sendo preparado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), subordinada ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. O mapeamento vai analisar os 26 estados brasileiros, o Distrito Federal e as nove regiões metropolitanas e é reflexo de um grave problema de saúde pública. Embora sejam escassas as pesquisas sobre o crack, sabe-se que o consumo da droga derivada da cocaína (restrito a São Paulo na década de 90) vem se espalhando pelo País em diferentes classes sociais – não se restringe mais aos moradores de rua e grupos menos favorecidos. Além do aumento da apreensão de crack no Brasil (de 200 quilos, em 2002, para 580 quilos, em 2007, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), os serviços de atendimento a dependentes químicos relatam que a droga já é a segunda maior causa de procura por atendimento nos centros do SUS especializados em abuso de álcool e drogas, o Caps-AD. Nesses locais, o crack só perde para a bebida. É uma realidade que o psiquiatra Dartiu Xavier, da Faculdade Paulista de Medicina, conhece bem. Coordenador do Programa de Orientação e Tratamento a Dependentes (Proad) há mais de duas décadas, ele vem realizando estudos na área. Um deles foi interrompido pela polêmica que gerou. A experiência consistiu em acompanhar um grupo de 50 usuários de crack que passaram a utilizar maconha na tentativa de conter o impulso de consumir crack. Conforme os dados, 68% deles haviam trocado de droga depois de seis meses. Passado um ano do início do tratamento, quem fez a substituição deixou também a maconha. Nessa entrevista, Xavier fala sobre os fatores de risco que podem levar adolescentes e jovens a se viciarem em drogas, explica as características do crack e defende a quebra de paradigma dos programas de prevenção às drogas.

Carta na Escola: Em todo o Brasil, houve aumento da procura por serviços de atendimento a dependentes químicos do crack. O número de apreensões também cresceu, o que aponta para o aumento do consumo. O que causou esse aumento?
Dartiu Xavier: A questão do consumo de drogas é multifatorial e, no caso do crack, é um fenômeno que ocorre no mundo todo, não só no Brasil. E tem a ver com os fatores de risco. Alguns são identificáveis: situações de exclusão social e desfavorecimento. Por outro lado, as classes mais abastadas também estão consumindo crack. O que acontece é que mesmo essas classes mais favorecidas têm uma série de problemas. A situação de abandono psicológico e o descaso são algo muito presente. Claro que, para um adolescente de rua, essa situação de abandono é patente.

CE: Os jovens são mais vulneráveis às drogas?
DX:
São, por uma série de motivos. Primeiro, tanto o adolescente quanto o adulto jovem estão numa fase de transgressão, contestação e experiência pelo novo. Isso marca muito para o bem e para o mal. Ajuda no desenvolvimento psicológico deles – a gente só consegue ser adulto com uma identidade própria quando contesta o modelo de pai e mãe. Existe também a questão da alteração de consciência promovida pela droga, que é um fascínio. Ser outra pessoa ainda que seja por algumas horas. Mas estamos falando de um uso experimental. Uma minoria se tornará dependente.

CE: O que vai fazer um indivíduo ser um usuário ocasional ou dependente?
DX:
Se esse indivíduo está passando por uma situação de dificuldade, seja psicológica, social ou de saúde, o risco de ele ficar dependente é alto. Se o jovem ficar só na curiosidade, o risco é baixo.

CE: Isso tem a ver com o tipo de droga usada? O Ministério da Saúde lançou a campanha “Crack, Nunca Experimente”. O risco de dependência do crack é mais alto?
DX:
Sim, o risco de se viciar em crack é muito maior do que de se viciar em cocaí-na, por exemplo. O pó da cocaína é cheirado: entra pela mucosa nasal e pela corrente sanguínea, pelo lado venoso. Faz um trajeto enorme pelo corpo até chegar ao cérebro, que é o lado arterial. Ao passo que, ao fumar crack, a droga vai direto para os alvéolos pulmonares e, em seguida, para o cérebro. É muito mais intenso e, portanto, muito maior o risco de dependência, porque, quando a concentração da droga no organismo atinge um pico muito grande, a queda da concentração que se segue também é grande e abrupta. É assim que a droga desperta a sensação de fissura pela droga.

CE: No caso do sucesso do tratamento, a questão da idade tem influência?
DX:
Não é exatamente a idade. Com os melhores tratamentos temos uma taxa de 30% de usuários que realmente deixam a droga; 70% não conseguem fazê-lo. Isso nos melhores serviços de tratamento do mundo. Antigamente, estes 70% eram considerados uma taxa de fracasso. Hoje, a gente desenvolveu objetivos intermediários através de estratégia de redução de danos: não consigo fazer com que o usuário largue a droga, mas que passe a assumir comportamentos menos danosos para ele.

CE: O senhor realizou um estudo que gerou polêmica na época, mas obteve -resultados: -que foi substituir o crack pela maconha até a desintoxicação. Esses estudos foram paralisados?
DX:
Eles não foram formalmente continuados por uma série de problemas políticos, inclusive. Em linhas gerais, era um grupo de dependentes que começou a usar maconha para tentar sair do crack. Era uma terapia de substituição, já que a maconha seria menos danosa. E o que a gente documentou é que 68% deles abandonaram totalmente o crack. Mais surpreendente ainda foi que eles também largaram a maconha. Eles a usaram como uma porta de saída. Para dar continuidade ao estudo, eu precisaria ter um grupo de controle, que fosse submetido ao consumo para poder comparar. Precisaria de uma regulamentação da Anvisa, do Ministério da Saúde. Mas houve uma polêmica em cima disso. E só agora o professor (Elisaldo) Carlini, da Unifesp, está retomando a questão de fundar uma agência medicinal de uso terapêutico da maconha, que já existe no EUA, Canadá, Holanda e vários países da Europa. Mas aqui ainda encontra resistência.

CE: A política de tratamento brasileira se aproxima mais da redução de danos ou do isolamento do dependente?
DX:
A atual gestão do Ministério da Saúde é totalmente pró-redução de danos, que é o que cientificamente vem se provando mais adequado e eficiente. Mas o que existe ainda é um grupo de pessoas muito arraigado às concepções antigas, que formam uma barreira e fazem resistência forte às diretrizes do Ministério. Embora já se tenha evidência científica de que esse modelo repressivo e carcerário de tratamento não funciona para dependência nenhuma.

CE: Os primeiros relatos de consumo de crack no Brasil datam de 1989. Foi um aumento repentino ou foi dispensada pouca atenção à questão?
DX:
Sem dúvida, o crack foi subestimado. De 1991 a 1993, houve um boom, mas, na época, se supunha que seria um fenômeno paulistano. Hoje o crack está em todo lugar: no Sul, em Brasília, no interior, no Nordeste. No Recife, a situação é pior do que em São Paulo. O que aconteceu foi que técnicos e profissionais que trabalham com isso ficaram nessa briga que eu comentei, para ver quem detém o saber, e quem sofre com isso é o usuário de drogas. Na década de 90, montei o Projeto Quixote para crianças de rua. São Paulo tem um exército de menores de rua viciados e a pergunta é: o que se faz efetivamente por eles? Essa briga entre autoridade e profissionais é uma coisa ridícula. Sobretudo, porque temos medicina basea-da em evidência e nos estudos de metanálise que comprovam essas teorias. Não é só uma questão de opinião. Existem maneiras de verificar isso cientificamente. Eu acabei de orientar a tese de um aluno da Unifesp, o Francisco Rocha, sobre o uso terapêutico da maconha. Por que fui orientar? Porque ficava essa polêmica. Vamos aplicar toda a metodologia científica disponível e fazer uma revisão sistemática. O uso terapêutico da maconha é bom ou ruim? Se for ruim, a gente engaveta. Se for bom, continuamos pesquisando. E o que a tese mostrou foi que o uso terapêutico da maconha é algo muito promissor. É uma área muito promissora, mas negligenciada por preconceito.

CE: No caso do tratamento para dependentes de crack, qual a causa do sucesso da substituição por maconha?
DX:
A gente tem apenas hipóteses por enquanto. Para se ter certeza, precisaríamos de mais estudos que a gente não consegue fazer porque não existe uma regulamentação do uso terapêutico da maconha. Estamos atrasadíssimos nisso. O que se supõe é que a compulsão que o dependente tem pela droga se relaciona com os índices de serotonina cerebral. Por algum motivo, as medicações que aumentam a serotonina do cérebro são pouco eficazes na dependência do crack, diferentemente da maconha, que talvez ajude o dependente a segurar a vontade de usar crack. Essa é uma hipótese neuroquímica que explicaria bem, mas ainda é preciso comprovação científica.

CE: O senhor se afastou do estudo do uso terapêutico da maconha?
DX:
Não é que eu me afastei. Estou fazendo isso em outros níveis. Com ratos e não com humanos, para não esbarrar no questionamento ético.

CE: Por que o crack tem efeitos tão devastadores?
DX:
Os efeitos são basicamente os mesmos da cocaína, o que altera é a intensidade. Temos de lembrar – e isso é algo que incomoda a gente – que 40% de quem usa crack não se vicia. Da mesma forma, 90% dos usuários de álcool não se tornam alcoolatras. É claro que ninguém recomendaria arriscar. Mas só o fato de existir esse fenômeno intriga muita gente. Por que existem pessoas que conseguem usar uma droga desse potencial e não se tornam dependentes? Há a vertente biológica e a suscetibilidade psicológica. Se eu sou uma pessoa deprimida e uso uma substância que me bota para cima, meu risco é maior. Esse foi o tema da minha tese de doutorado: o quanto a depressão pode ser o gatilho para a dependência de cocaína. Certa vez, eu estava fazendo uma palestra sobre drogas numa escola e discutia aspectos sociais e antropológicos da questão. Existe uma coisa na nossa sociedade que é o hedonismo, o culto ao prazer, à beleza, ao sucesso. Esse é o modelo que transmitimos a nossos filhos. Todos os pais esperam que os filhos sejam ricos, maravilhosos, inteligentes etc. Não é humano, não é real. A vida não é assim. Provoquei a plateia: o único jeito de o jovem sentir o que a gente espera dele é cheirando cocaína! Por incrível que pareça, é exatamente isso que a intoxicação por cocaína te leva a sentir. É a única forma de os filhos atingirem as expectativas dos pais. É claro que isso eu digo de uma forma provocativa e jocosa, mas é para os pais pensarem um pouco o quanto eles estão conversando com os filhos sobre os fracassos e dificuldade deles. E não ficar apenas em um discurso de cobrança eterna. Tanto que a prevenção nas escolas, com palestras aterrorizantes sobre o perigo das drogas, não funciona.

CE: Que tipo de programa de prevenção é eficiente nas escolas?
DX:
Antes de falar o que funciona, vou dizer o que não funciona. Qual é o efeito dessas palestras? Primeiro, que são frequentemente feitas por pessoas que têm uma visão muito repressiva e vão falar mentiras. O jovem que já experimentou drogas ou tem um amigo que usa não acredita naquilo, pois o que ele ouve não bate com a vivência dele. Aliás, já se comprovou que, para quem não tem informação, esse tipo de palestra pode ser um instigador para usar drogas. Justamente porque você está falando com uma população que tem essa necessidade de transgressão. Na verdade, o paradigma da prevenção passa a mudar quando se abre mão da prevenção policialesca e se parte para uma prevenção na linha da redução de danos. A prevenção deixa de ter esse objetivo utópico de exterminar as drogas do mundo e passa a ter o objetivo de abordar o jovem para, caso este experimente a droga, ele conte com mecanismos de proteção para não se tornar dependente. O foco mais importante não é mais evitar a primeira experiência com droga, mas o uso indevido, a dependência. Como se faz isso? Trabalhando coisas que, aparentemente, não têm nada a ver com droga: autoestima, Autoimagem, relação com o corpo, com sexualidade, com os modelos que adultos representam. Se esse adolescente estiver bem consigo mesmo, ele pode até mesmo experimentar drogas sem que necessariamente ele vá ficar dependente. Quem vai se viciar é que aquele que está se sentindo o mais feio, o mais burro, o que não arruma namorada, e assim por diante. Esses seriam fatores de risco.

CE: Quais são as drogas ilícitas mais usadas pelos jovens?
DX:
Maconha e solventes, lança-perfume benzina, acetona. Isso foi uma surpresa.

CE: Em relação ao álcool e ao cigarro, damos menos importância a um consumo que também é alto?
DX:
O cigarro vem diminuindo, o que é um dado positivo. Existe uma conscientização maior da população. Já o consumo do álcool é algo impressionante, que vem subindo. Justamente porque a permissividade é enorme.

CE: O que se sabe da relação do jovem com o álcool?
DX:
O padrão de uso não é diário, é menos frequente. Mas o usuário-problema é aquele que bebe mais de uma vez por semana. O álcool tem uma ação neurotóxica seriíssima. E, mesmo o uso de álcool apenas nos finais de semana, em grandes quantidades, é sempre preocupante pelos danos envolvidos neste padrão de consumo.