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Depois de junho, chapas ensaiam mudanças no DCE da USP, mas não empolgam estudantes

por Renata Galf — publicado 14/04/2014 17h23, última modificação 15/04/2014 15h10
Eleição para representante discente na maior universidade do País mobiliza apenas um terço dos alunos
Renata Galf
DCE/USP

Estudantes da USP escolhem representantes do DCE

Eleita, na semana passada, com 48% dos 10.401 votos em disputa, a chapa "Para a USP Virar do Avesso" assumirá a gestão 2014 do Diretório Central do Estudantes (DCE) da USP. A universidade, ao todo, tem 58.303 alunos matriculados na graduação.

Adiada devido à última greve estudantil, as eleições deveriam ter acontecido no ano passado, por isso, desde o início de 2013 o DCE está sendo gerido por uma Comissão de Centros Acadêmicos, responsável por organizar as eleições e a calourada unificada, evento de recepção dos ingressantes da USP.

Ao total, 8 chapas concorreram nas eleições que aconteceram entre os dias 8 e 10 de abril.

O número de votos dessa eleição cresceu em quase 4 mil em relação à última eleição. Já comparado às eleições para a gestão de 2012, realizadas no ínicio daquele ano, os votantes diminuiram (foram 13.139 participantes na ocasião).

A segunda colocada foi a chapa USPInova, um programa de direita que recebeu 23,1% dos votos. Já a chapa "Compor e Ouvir", com programa semelhante ao da vencedora, foi a terceira colocada, com 20,3% dos votos.

As demais, com programas mais à esquerda, não tiveram votação expressiva. "Autonomia Universitária: Fora Zago! Fora PM", "Maré Laranja", "Pra Fazer a Diferença", "Território Livre" e "Frente Poder Estudantil" obtiveram juntas 7% dos votos. Os votos brancos e nulos representaram 1,6% das cédulas.

Apesar de alguns pontos em comum, cada chapa apresentou uma ideia distinta de como o DCE deve atuar. Para boa parte dos estudantes da USP, as diferenças ainda não são claras.

Para o estudante Airton Makoto, do primeiro ano de Engenharia Elétrica, o período eleitoral foi a primeira vez em que ouviu falar do DCE. Até a última quarta-feira ainda não sabia em quem votar. Desde fevereiro, quando entrou na universidade, não teve contato com a entidade estudantil. “Em vez de apresentar propostas, parece que elas ficam apenas trocando acusações entre si. Aí não sei no que acreditar.”

As estudantes do primeiro ano de Administração Talita Hidani e Victoria Gerenutti assistiram ao debate entre as chapas e disseram ter saído do encontro com dúvidas.

Mas não eram apenas os calouros que estavam em dúvida. Mariana dos Santos, aluna de Letras do 9º ano decidiu  não votar nessas eleições: "Estou vindo pouco para a universidade e não tenho muito tempo, então não estou muito a par das chapas”, diz Gerenutti.

Natália de Souza, do 4º ano de Letras, reconhece a importância do DCE. Mesmo assim, ela diz não se aproximar do movimento. “Moro em Campinas, trabalho, não tenho tanto interesse.” Segundo ela, como as pessoas são muito ocupadas no dia a dia com trabalho e estudo, acabam não percebendo o impacto real do movimento estudantil e relegam-no ao segundo plano.

De acordo com o cientista político da Unesp Marco Aurélio Nogueira, autor do livro “As Ruas e a Democracia”, a situação é contraditória. Ele aponta que, atualmente, os estudantes têm mais acesso à informação e mais possibilidade de expor suas ansiedades. Segundo ele, as pessoas sentem, ao mesmo tempo, vontade de se envolver nas questões coletivas e de se afastar, o que ele vê como reflexo do nosso modo de vida atual. Ele vê como um dilema a ser resolvido o fato de as pessoas quererem participar das decisões como cidadãs, mas se verem impedidas diante de longas jornadas de trabalho e demorados trajetos entre a casa, o trabalho e o local de estudo. Para Nogueira, a rotina dos indivíduos corre em descompasso com a velocidade das instituições e organizações, mais lentas em razão do debate democrático.

As jornadas de junho e o Movimento Estudantil.

Apesar da apatia da comunidade estudantil, o discurso das chapas ganhou novas cores desde as manifestações do último ano. Para Gabriel Regensteiner, estudante de ciências sociais, integrante da última gestão do DCE e da chapa vencedora deste ano, “muitos estudantes têm interesse em participar, mas se afastam por debilidades do movimento estudantil como fóruns que não são atrativos, assembleias que não funcionam como espaço para dar opinião e que acabam sendo ambientes opressores".

Tomaz Magalhães, da chapa "Compor e Ouvir”, acredita que, depois de junho, os estudantes saíram da apatia e querem militar, mas não pelo movimento estudantil. O que, para ele, se deve à forma como a entidade tem atuado nos últimos anos.

Na opinião de Caio Gaya, estudante de engenharia civil e membro da USPInova, os protestos mostraram que o estudante até quer participar e se manifestar, mas prefere fazer isso sozinho: "O problema é quem está à frente".

Para Bruna Portela, da Faculdade de Educação e integrante da chapa "Maré Laranja", junho deixou muitas lições. Uma delas é que, hoje, lutar não é um ato criminalizado. "Antes, minha mãe, que é faxineira, reclamava quando eu ia para os protestos. Hoje ela acha certo que eu vá.”

Já o professor Marco Aurélio Nogueira acredita que junho foi “uma explosão” e “estamos aprendendo a agir nessa nova sociedade". Para ele, o déficit de participação da sociedade civil ainda é muito grande: "Precisamos de mais pessoas dispostas a participar dos vários espaços e fóruns da cidade."

Fato é que, mesmo após as eleições, boa parte dos estudantes continua desinteressada do movimento estudantil. Com um calendário eleitoral apertado, as chapas tiveram apenas o período de 31 de março a 7 de abril para fazer campanha e participar de debates.

“Os movimentos organizados não sabem convidar as pessoas, o discurso é anacrônico”, diz Nogueira.

 

*Foram entrevistadas para esta matéria, membros das chapas: "Para USP Virar do Avesso", "USPInova", "Compor e Ouvir", "Maré Laranja" e "Território Livre".

 

Números totais:

"Para a USP Virar do Avesso" - 4991 votos ( 48%)

"USPInova" 2405 votos ( 23,1%)

"Compor e Ouvir" 2107 votos ( 20,3%)

"Maré Laranja" 387 votos ( 3,7%)

"Território Livre" 182 votos ( 1,8%)

"Pra Fazer a Diferença" 86 votos ( 0,8%)

"Frente Poder Estudantil" 46 votos ( 0,4%)

"Autonomia Universitária: Fora Zago! Fora PM" - 29 votos (0,3%)

Brancos e Nulos  168 votos ( 1,6 %)