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Educação

Reportagem

Currículo empobrecido

por Tory Oliveira publicado 10/06/2013 08h42
Escolas em tempo integral paulistas eliminam História, Geografia e Ciências dos anos iniciais do Fundamental, o que é visto com desconfiança por especialistas
Márcio Fernandes / Estadão Conteúdo
Lisete Arelaro

Para Lisete Arelaro, da FE-USP, ideia que pauta mudanças é datada: "Essa discussão surgiu nos anos 1960, e nos 1980 era difícil encontrar quem defendesse que só Português e Matemática alfabetizam"

Alunos das escolas de tempo integral da rede estadual de São Paulo não terão mais disciplinas específicas de História, Geografia e Ciências Físicas e Biológicas nos três primeiros anos do Ensino Fundamental. A mudança, publicada no Diário Oficial em janeiro, causou polêmica entre professores e profissionais ligados à educação. De acordo com a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, o objetivo das alterações é fortalecer a alfabetização em Língua Portuguesa e Matemática, disciplinas cujo desempenho dos alunos é alvo de avaliações externas como o Saresp e a Prova Brasil, e tornar o ensino mais atraente. Há quem questione, porém, a eficácia de focalizar os esforços e as aulas apenas em Português e Matemática, abordando as demais apenas de forma transversal nos primeiros anos dessa etapa do ensino. A desvalorização das disciplinas fora da grade, a concepção de alfabetização e a influência excessiva das avaliações nas escolas também foram questionadas por especialistas ouvidos pela reportagem.

Nas duas propostas curriculares sugeridas pela Secretaria Estadual de Educação e publicadas no Diário Oficial em 19 de janeiro, o espaço indicado na tabela para as disciplinas História, Geografia e ­Ciências aparece ocupado com um traço. Já Língua Portuguesa, Educação Física/Artes e Matemática aparecem formalmente na grade, com a porcentagem da carga horária indicada. No 4º e 5º ano, as disciplinas excluídas voltam a corresponder, cada uma, a 10% do total do tempo em sala de aula. Nos anos finais, as disciplinas também aparecem.

A mudança causou estranhamento entre os professores e profissionais das áreas de História, Geografia e Ciências. Especialistas de disciplinas que ganharam mais ­espaço no ­novo currículo, como Língua Portuguesa e Matemática, também se manifestaram de maneira contrária à nova resolução. “Nós estranhamos muitíssimo. Até porque é uma modificação que atinge exatamente as escolas de tempo integral, que teriam ­tempo em dobro para trabalhar essas questões”, ­observa Lisete Arelaro, diretora da ­Faculdade de Educação da USP.

A justificativa do projeto de fortalecer o ensino de Língua Portuguesa e Matemática não convenceu a professora da Faculdade de Educação da USP e especialista em alfabetização Silvia Colello. “Eu sou contra, porque acho que não existe língua desvinculada de um conteúdo”, afirma. Na avaliação da especialista, o ideal seria que as disciplinas fossem trabalhadas de forma dialética: o aprendizado da Língua Portuguesa favoreceria a aquisição de conhecimentos oriundos das demais disciplinas e, por sua vez, o interesse pelos conteúdos motivaria a alfabetização e a aquisição da linguagem. Para Lisete Arelaro, essa concepção de ­alfabetização é considerada superada na educação desde os anos 1980. “Essa discussão começou na década de 1960 e na de 1980 já era difícil encontrar alguém da área de Educação que defendesse a posição de que só Português e Matemática alfabetizam.”

Para o historiador Arnaldo Pinto Júnior, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o movimento explicita a ideia de que as disciplinas de História, Geografia e Ciências não contribuem para o processo de alfabetização e letramento das crianças. “Essas disciplinas são consideradas supérfluas. A ideia é que elas não qualificam a formação dos alunos em geral, o que nós achamos inverídico”, afirma o professor, que também é um dos coordenadores do GT de Ensino de História e Educação da Associação Nacional de História.

A Secretaria de Educação, porém, informou que não houve nenhuma mudança nas disciplinas da base comum. “O que houve foi um aperfeiçoamento da parte diversificada, com a implementação de atividades complementares e oficinas curriculares com novos temas nas quatro áreas de conhecimento (Linguagem, Matemática, Ciências ­Humanas e Naturais)”, informou a assessoria de imprensa. A Secretaria Estadual de Educação insistiu que as disciplinas já não constavam formalmente na grade nos últimos anos, mas não estão excluídas e são abordadas pelos professores nas demais aulas.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental consideram obrigatórios conteúdos de Ciências da Natureza (Físicas e Biológicas) e Humanas (História e Geografia), além de Português, Matemática, Arte e Educação Física. No entanto, o documento admite a possibilidade de que esses componentes sejam oferecidos de modo interdisciplinar.

Para Arnaldo Pinto, a noção de que é possível trabalhar conhecimentos históricos, geográficos e científicos em outras aulas desvaloriza essas disciplinas: “Se sou um professor que está sendo cobrado para dar aulas sobre letramento, leitura e compreensão e sobre soma, subtração e multiplicação, o que vou fazer? Não vou trabalhar com ­Geografia, História e Ciências”.

Para Antonio Simplício de Almeida Neto, professor do Departamento de História da Unifesp, a mudança elimina a possibilidade de concretização de um movimento que vinha acontecendo nos últimos anos nos cursos de Pedagogia, responsável por formar profissionais para Educação Infantil e Fundamental. A maioria das faculdades de Pedagogia reserva poucos semestres para o ensino de História, geralmente dividido com Geografia. No entanto, nos últimos anos, os cursos estavam ampliando o número de aulas específicas de formação de professores para o assunto. “Os cursos de Pedagogia estavam acordando para a importância de ampliar o número de aulas de formação de professores com maior especificidade no ensino de História”, conta.

Apesar da celeuma causada pela oficialização da nova matriz curricular, Helenice Ciampi lembra que o ajuste faz parte de um processo em curso pelo menos desde 2008, quando outra resolução estabeleceu diretrizes para o currículo do Ensino Fundamental nas Escolas Estaduais de Tempo Integral. Segundo Helenice, as escolas só receberam orientações para o segundo ciclo do Fundamental e para o Ensino Médio na área de História. Quanto à informação de que os conhecimentos seriam trabalhados durante as outras aulas, Helenice é cética: “Esses conhecimentos podem ser abordados em outras disciplinas, mas o professor não se sente obrigado nem é preparado para isso, pois não há orientação”.

Realizado em março, o Fórum São Paulo sem Passado reuniu professores ligados à área na capital paulista para discutir a reforma curricular. Uma das questões levantadas pelos educadores foi a possibilidade de que a mudança no currículo em São Paulo influencie os demais estados. “O que é feito em São Paulo ainda exerce influência em outros estados”, afirma Helenice Ciampi. “São Paulo trouxe a questão do ensino apostilado, por exemplo, que se espalhou depois pelo Brasil.”

Ligado à área da Matemática, Nilson Machado classifica a nova orientação como equivocada. Na opinião do professor da ­Faculdade de Educação da USP, é preciso uma formação básica inicial, em todas as séries, em História, Geografia e Ciências. “O que me parece é que uma medida como essa tem como objetivo pragmático melhorar os resultados em avaliações que cobram Português e Matemática, como o Saresp, no caso de São Paulo.”

Para Machado, as avaliações não deveriam ser tratadas como um fim, mas sim como um meio. “Hoje, não só ela é considerada um fim como passa a pautar os conteúdos que serão abordados nas escolas. Está tudo invertido.”

Para a diretora da Faculdade de Educação da USP, Lisete Arelaro, a corrida pela alfabetização na idade certa e por melhores resultados em avaliações externas tem pressionado as escolas a só ensinar a ler, escrever e contar “como era antigamente”. “É uma visão saudosista do que significa os anos iniciais”, pondera.

Silvia Colello afirma que a medida é uma tentativa desesperada para resolver o grande desafio da alfabetização. O tiro, porém, pode sair pela culatra. Segundo a especialista, estudar assuntos oriundos das demais disciplinas abre um leque de conhecimento de mundo para as crianças e dá sentido ao processo de alfabetização. “Acho que não se pode alfabetizar sem dar para o aluno uma razão para ele aprender a ler e a escrever, e a razão é justamente contar histórias, descobrir o mundo”, pondera.

A nova resolução, na opinião de Lisete, demonstra um retrocesso e um desconhecimento a respeito do processo de alfabetização e da concepção dos anos iniciais do Ensino Fundamental. “Voltamos à ideia de que as séries iniciais existem apenas para alfabetizar e o que alfabetiza é Português e Matemática, o resto é estória, com ‘e’ e não com “h” maiúsculo.”

Outras mudanças

Os alunos do Ensino Fundamental das escolas de tempo integral da rede estadual de São Paulo também serão afetados por outras mudanças. No modelo anterior, havia maior separação entre as disciplinas básicas e as oficinas temáticas, oferecidas sempre no contraturno. A nova diretriz prevê que as disciplinas regulares e as atividades complementares sejam distribuídas de modo alternado ao longo dos dois turnos de funcionamento das unidades, aumentando sua integração. O novo currículo define outros dez temas para as oficinas curriculares, que podem ser obrigatórias ou eletivas, a critério da escola. Nos anos iniciais, as escolas deverão ter pelo menos oito das dez oficinas e nos finais, pelo menos seis. Além disso, atividades complementares como hora da leitura, produção de texto e experiências matemáticas passam a ser obrigatórias para o primeiro ciclo (1º ao 5º ano), assim como o ensino de língua estrangeira.