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Sacolinhas na berlinda

por Carta na Escola — publicado 22/11/2011 16h56, última modificação 22/11/2011 16h56
Na esteira de outros países, o Brasil começa a adotar em 2012 leis que restringem a distribuição de sacos plásticos. Conheça mais sobre os dois lados dessa discussão
SACOLAS

Na esteira de outros países, o Brasil começa a adotar em 2012 leis que restringem a distribuição de sacos plásticos. Foto: Paulo Pinto/AE

Aproximadamente 12 bilhões de sacolas plásticas são distribuídas todo ano no Brasil segundo estimativa da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS). No mundo, a cifra pode se aproximar de 1 trilhão. Apesar das feições inocentes, são saquinhos que até podem ser reutilizados para fins como a acomodação de lixo doméstico, mas que, depois, se transformam em um dos materiais mais poluentes de rios e mananciais.

Tidas por muitas organizações como grandes vilãs do meio ambiente e estandartes da cultura de consumo irresponsável, elas já foram alvo de uma campanha do governo federal, lançado em 2009, que evitou o consumo de 5 bilhões de unidades. Para desestimular o uso, em países como a China e a Irlanda é preciso pagar pela sacola.
E, na esteira de lugares como a Itália, diversas cidades brasileiras já criaram leis proibindo o uso de sacolas. É o caso de Belo Horizonte, primeira capital a adotar a medida, em abril deste ano, e da capital paulista, onde elas estarão banidas a partir de de 1º de janeiro do ano que vem. Estados como Rio de Janeiro, Paraná e Espírito Santo também adotaram leis restritivas.
Consideradas polêmicas, as medidas dividem não só a opinião de consumidores como também de ambientalistas e setores da indústria. Para o vereador Gilberto Natalini, que assinou o texto da lei em São Paulo, a legislação, apesar de poder ser considerada impositiva, torna-se válida porque a fabricação e distribuição são feitas de maneira “incontrolável”. “É muito difícil fazer a educação de reuso de um objeto que é produzido de uma forma banalizada, absurda”. Já Miguel Bahiense, presidente da Plastivida (Instituto Sócio-Ambiental do Plástico), é contra as proibições, argumentando que a questão é complexa e envolve fatores como a má qualidade dos produtos, o consumo irresponsável e as deficiências na coleta seletiva. “A solução é a redução do desperdício associada à forma de coleta de resíduos”, afirma.

Em entrevista a Carta Fundamental, ambos expões suas perspectivas e os dois lados dessa discussão:

A favor:  Gilberto Natalini, vereador do PV, assinou o texto da Lei das Sacolas Plásticas. "Sacola está banalizada" 

CARTA FUNDAMENTAL: Proibir é a melhor maneira de conscientizar?
GILBERTO NATALINI: Acho que não há outro caminho. Como é que você vai conscientizar a respeito de um objeto que é altamente contaminador do meio ambiente? É muito difícil. Como existem formas de substituição, proibir foi a melhor forma. Assim como proibiram o amianto, por exemplo. Ele está banido em São Paulo. É uma metodologia de legislação impostiva, vamos dizer assim, que em determinados casos é absolutamente válida.

CF: Como ficam as pessoas que usam a sacola plástica para acondicionar lixo doméstico?
GN: Usar sacola plástica para lixo doméstico é proibido. O saco de lixo doméstico não está proibido, o uso de sacola plástica comum para lixo doméstico é que está. Para ele, é preciso usar aqueles sacos pretos apropriados, grossos, que não furam, não derramam e são mais resistentes. A utilização de sacola plástica para descartar lixo doméstico é absolutamente fora da lei. E muito nocivo, porque elas se rompem com muita facilidade e, mesmo antes de o lixeiro passar recolhendo, muitas já estão rompidas e o lixo está derramado na rua.

CF: A sacola plástica foi rotulada como uma grande vilã do meio ambiente. Mas não é o descarte incorreto que causa danos?
GN: É o descarte incorreto e é também porque ela é muito banalizada. A quantidade da sacola plástica produzida e distribuída é quase incontrolável. A gente as encontra em todo o território nacional, nos lugares mais diversos e mais absurdos. As matas do entorno de São Paulo são verdadeiros varais de sacola plástica. Então, é muito difícil fazer a educação de reuso de um objeto que é produzido de uma forma banalizada, absurda. E existe uma solução técnica e correta para a substituição no supermercado, é a sacola retornável. Eu na minha casa, por exemplo, só uso sacola retornável. Faço questão de usá-la no meu dia a dia. Tenho algumas há cinco anos.

CF: E quem não tem condições econômicas de comprar os sacos de lixo e sacolas?
GN: Nós não podemos, em nome das condições econômicas, desgraçar a natureza. Se usarmos esse argumento, temos que liberar o que vier. Na verdade, existem atitudes que exigem algum sacrifício. A proteção do meio ambiente é uma delas. O saco preto é o ideal para colocar o lixo, ele é resistente e não está proibido. O que está proibido são as sacolas fininhas, produzida aos milhões, que as pessoas botam em qualquer canto. Quem defende colocar lixo em sacola plástica para economizar está em um caminho muito errado. O que nós poderíamos fazer, talvez, seria trabalhar para baixar o preço do saco plástico. Uma pressão política, social, em cima da indústria que produz saco plástico de lixo.

Contra: Miguel Bahiense, presidente da Plastivida (Instituto Sócio-Ambiental do Plástico): “A nossa proposta é a educação. O problema é o desperdício, não a sacola.”

CARTA FUNDAMENTAL: Quais as vantagens da sacola plástica?
MIGUEL BAHIENSE: Estudos mostram que elas têm alguns aspectos ambientais bem interessantes. Recentemente, o governo britânico divulgou um estudo em que foram comparadas sacolas, ecobags, sacolas retornáveis de plástico, papelão, algodão e as biodegradáveis, oxidegradáveis. A conclusão foi que, em oito das nove categorias ambientais analisadas, as sacolas tiveram o melhor desempenho. Destaque para o menor consumo de matéria-prima e a menor emissão de CO2. A questão de ela ser descartável é muito questionada, mas, hoje, praticamente 100% da população a reutiliza para algum fim, seja para acondicionar lixo ou para colocar um sapato dentro da mala de viagem. Existem diversos tipos de uso. O problema é que os grandes varejistas começaram a demandar da indústria sacolas cada vez mais finas, pouco resistentes. Isso criou um problema de desperdício. Então, é um mix de questões: o varejo passou a demandar produtos sem qualidade, a indústria fabricou, o consumidor passou a consumir em excesso, gerando desperdício, e o poder público não apresenta alternativa interessante para a coleta seletiva. Isso tudo causou essa situação em que você vê sacola onde quer que passe. A nossa proposta é a educação. Porque o problema é o desperdício, não a sacola.

CF: Há muitas pessoas que pensam que a sacola é ruim. Por quê?
MB: Primeiro, por conta do preconceito contra o plástico. Há uma percepção equivocada do quanto ele é descartável. É preciso ter coleta seletiva e educação para fazer a triagem dentro de casa e, sobretudo, que de fato o poder público faça a coleta e a leve para a indústria de reciclagem. Há um fator econômico muito forte por trás disso: a sacolas, no Brasil, custam meio bilhão de reais por ano. Significa que, se houver uma proibição, os supermercados deixarão de gastar meio bilhão de reais. Mas como a população vai embalar o lixo? Quem tem dinheiro para comprar saco de lixo vai fazê-lo. Aquele que não tem, vai fazer o quê?

CF: A proibição das sacolas terá impacto econômico significativo para o consumidor?
MB: Sim. Sem sacolas, gasta-se de 30 a 40 reais por mês com sacos de lixo. A população mais pobre não tem condições de adicionar isso ao orçamento mensal. Empregos vão deixar de existir nas indústrias. E ainda há o fato de que os supermercados vão deixar de gastar meio bilhão e ainda vão vender sacolas retornáveis e sacos plásticos para os consumidores.

CF: O que poderia ser feito para minimizar o impacto das sacolas no meio ambiente. Quais as alternativas à proibição?
MB: Só gostaria de deixar claro que o impacto não é da sacola. Estudos mostram que isso não está tão claro. A solução é a redução do desperdício associada à forma de coleta de resíduos. E isso só pode ser feito pela educação, não tem outra forma. Não faz sentido deixar de usar esse produto só porque alguém acha que faz mal para o meio ambiente. Só que a solução da educação é muito mais complexa, envolve muitos fatores, é muito mais simples criar uma lei e proibir, simplesmente.

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