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O pensador da liquidez

por Carta na Escola — publicado 13/04/2012 14h58, última modificação 13/04/2012 14h58
Ao problematizar a modernidade, Zygmunt Bauman expõe como a escola cresceu de modo diferente do mundo para que deveria educar
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Ao problematizar a modernidade, Zygmunt Bauman expõe como a escola cresceu de modo diferente do mundo para que deveria educar. Foto: Juan Carlos Rojas/AFP

 

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Por Valter Bracht, Ivan Marcelo Gomes e Felipe Quintão de Almeida, professores da Universidade Federal do Espírito Santo e coautores de Bauman & a Educação (Autêntica)

Apesar da profícua produção intelectual e da atuação na vida pública desde os anos 1950, Zygmunt Bauman somente ganhou notoriedade no cenário sociológico mundial no fim dos anos 1980. No Brasil, seu reconhecimento é ainda mais tardio, fazendo-se aqui notar somente no fim dos 1990. Desde a repentina proliferação de seus escritos no País, o ecletismo característico de sua escrita sociológica tem despertado a atenção de muitos pesquisadores e do público “não profissional”. Apesar de ter se transformado numa espécie de best seller do mercado brasileiro, não houve, por outra via, um crescimento de investigações de maior fôlego de sua obra no País, ao contrário do que acontece no âmbito internacional.

Alguns estudiosos do sociólogo costumam dividir sua obra em três fases: a primeira, marxista, situa-se nos anos 1960 e 1970, quando as discussões sobre o capitalismo e o socialismo orientam suas análises. Nos anos 1980, dedica-se a uma crítica da modernidade e suas utopias/distopias (fase modernista), o que acabou o levando, por um lado, à aproximação com perspectivas que são interpretadas como pós-modernas e, por ou, desencadeou nele o interesse pelo tema da moral. Por fim, há os livros e análises sobre tópicos da modernidade na atualidade (globalização, comunidade, identidade, refugiados, consumo etc.) que compõem, para Tester (2004), sua fase mosaica.

Na transição da segunda para a terceira fase, Bauman evita, em razão das confusões semânticas, o uso da expressão “pós-modernidade”, propondo a metáfora da liquidez como chave de leitura que mais bem permite pensar as questões que acometem os habitantes do atual estágio moderno.

Fábrica da ordem
Embora não tenha escrito extensivamente sobre o tema, o sociólogo também aborda a educação de duas maneiras. Na primeira, como no livro Legisladores e Intérpretes: Sobre a modernidade, a pós-modernidade e os intelectuais, vai demonstrar-se, muito influenciado pela clássica interpretação de Michel Foucault, como a escola foi uma instituição funcional ao estabelecimento da ordem como tarefa da modernidade. Podemos pensar nela como o tempo-espaço em que as ambições legisladoras dos intelectuais modernos e as ambições ordenadoras do Estado se concretizaram sem disfarces.

A educação escolarizada representou um projeto capaz de fazer da formação dos indivíduos exclusiva responsabilidade da sociedade e, em especial, dos governantes. Isso pois é direito e dever do Estado formar seus cidadãos e garantir sua conduta correta, vale dizer, o comportamento na direção do projeto racional e, no caminho, introduzir ordem em uma realidade antes despojada de seus próprios dispositivos de organização. A escola era a sede a partir da qual se universalizavam os valores utilizados para a integração social. Os intelectuais (professores e/ou educadores) eram os únicos capazes de fornecer a receita aos incultos e vulgares do que seria uma vida correta e moral. E a educação, por sua vez, uma declaração da incompetência social das massas e uma aposta na ditadura do “professorado” (déspotas ilustrados), guardiões da razão, das boas maneiras e do bom gosto.

Não é de estranhar, portanto, que Bauman, naquele livro, tenha concebido a educação escolarizada como o conceito e a prática de uma sociedade amplamente administrada. Em um texto mais recente, publicado em A Sociedade Individualizada, o pensador retoma essa interpretação da educação escolarizada como fábrica da ordem, destinada à produção de corpos dóceis, disciplinados e eficientes, e a analisa levando em conta a “transição” da modernidade sólida à líquida (passagem outrora caracterizada pela oposição entre modernidade e pós-modernidade). A conclusão a que chega, pressuposta, porém não explicitada, em Legisladores, é que essa concepção da escola e da educação enfrenta uma grande crise desencadeada pela “falência” das instituições e da “filosofia” herdada da modernidade sólida.

A educação como um produto
Na segunda forma de abordar a educação, o autor desenvolve a tese de que, concebida para um mundo ordenado, em que tudo o que estava sólido se desmanchava no ar sob a promessa de estruturas ainda mais duráveis, a forma escolar moderno-sólida tinha em seu horizonte perspectivas de longa duração, baseadas em um processo educativo que, indiferente à novidade, ao acaso e à desordem, visava alimentar os aprendizes com uma educação para toda a vida. Nesse contexto, o conhecimento adquiria valor proporcional à sua duração e a escola tinha qualidade na medida em que fornecia esse saber de valor duradouro.

A educação escolarizada foi, assim, visua-lizada como uma atividade voltada para a entrega de um produto que poderia ser consumido hoje e sempre. Bauman compreende que, com a passagem da modernidade sólida à líquida, tanto a ordem imutável do mundo como a da “natureza humana” se encontram em apuros. Eram esses pressupostos que garantiam os benefícios da transmissão do conhecimento aos alunos e forneciam ao professor autoconfiança para “gravar” na cabeça daqueles a forma que presumia ser, para todo o sempre, justa, bela e boa – e, por isso, virtuosa e nobre.

Aprendemos com seu diagnóstico que esse tipo de ordem social imutável é tudo o que não temos na sociedade que fez da liquidez seu paradigma. Para o sociólogo, o “mundo do lado de fora” das escolas cresceu de modo diferente daquele para o qual elas estavam preparadas a educar. Assim, preparar para toda a vida adquire novo significado diante das atuais circunstâncias sociais. Ou, no mínimo, certa descrença em relação ao seu potencial aplicativo.

Em ambas as abordagens, todavia, a estratégia de Bauman é semelhante: tratar a educação a partir dos conceitos, categorias ou metáforas empregadas no seio de sua sociologia. O mesmo é verificado no tratamento que o autor confere a outros temas.

O potencial da sociologia de Bauman para pensar a educação no contemporâneo não se esgota no que o próprio autor escreveu sobre ela. Ao contrário, há em sua obra conceitos e/ou metáforas que podem ser utilizados (e têm sido) na perspectiva de se pensar a educação no contemporâneo. Não surpreende identificarmos, cada vez mais, referências a ele em congressos, dissertações, teses, seminários, artigos científicos etc. A ponto de seu nome já despontar entre as principais referências dos grupos ligados ao Grupo de Trabalho Currículo, da Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação.