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Carta Fundamental

Reportagem

É mais do que esporte

por Tory Oliveira publicado 10/05/2012 17h25, última modificação 10/05/2012 17h25
Estudo mostra que professores de Educação Física são bem qualificados e estão satisfeitos com o trabalho, mas estigma de que a disciplina se resume a jogos competitivos deve ser superada
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Estudo mostra que professores de Educação Física são bem qualificados e estão satisfeitos com o trabalho, mas estigma de que a disciplina se resume a jogos competitivos deve ser superada. Fotos: Olga Vlahou

Mulheres de meia-idade, com pelo menos uma década de experiência em escolas e contentes com sua vida profissional. Esse é o perfil médio dos professores de Educação Física no Brasil. A maioria deles, segundo uma pesquisa recente do Ibope, está feliz com o ganha-pão: 74% declaram-se “muito satisfeitos” e atribuíram nota 8,2 para o emprego. Por outro lado, para 21% a disciplina não tem sido tão valorizada quanto as demais, fato expressado também no alto índice dos que reclamam que os alunos “faltam muito”: 41%.

Os achados são de um levantamento feito pelo Ibope em 458 escolas municipais, estaduais e federais, entre outubro e novembro de 2011, a pedido do Instituto Votorantim, da ONG Atletas pela Cidadania e do Instituto Ayrton Senna. Ao investigar uma disciplina que ainda carrega o estigma de ser voltada primordialmente para a prática esportiva, sem maiores contribuições para a vida escolar e futura do aluno, o estudo demonstra que diretores e vice-diretores são levemente mais otimistas quanto à importância dada a ela: eles são 87%, ante 71% dos professores.

Professor da rede pública no bairro paulistano do Jaraguá, Daniel Reis, 29 anos, conta que, apesar de não fugir das habilidades específicas da disciplina, seu maior objetivo é formar alunos autônomos, críticos e com valores. Sobre o reconhecimento da disciplina na escola, ele é lacônico. “As pessoas não falam, mas fica meio implícito, né?”

A pesquisadora da Faculdade de Educação Física da Unicamp Helena Altmann baseia-se em números para tentar explicar os motivos dessa percepção. “O desprestígio da Educação Física escolar fica evidente quando olhamos para a frequência das aulas”, analisa. A oferta das aulas varia de acordo com os níveis de ensino. Durante o Fundamental I, é feita, em média, 1,9 aula por semana; no Fundamental II, o número sobe para 2,2 aulas semanais, mas cai no Ensino Médio para 1,7 aula. Segundo a especialista, como o Ensino Médio é muito voltado para o vestibular, a disciplina acaba em segundo plano.

Por outro lado, a noção de que a Educação Física escolar significa necessariamente suor, jogos competitivos e esportes precisa ser superada – algo que já acontece entre os estudiosos –, explica o professor e pesquisador da Faculdade de Educação Física da USP Marcos Neira. As mudanças começaram ainda na década de 1980 e hoje já se encontram cristalizadas em muitas propostas curriculares estaduais e municipais. “A ideia hoje majoritária no campo é que a Educação Física deve ser a disciplina que ajude os alunos a entenderem e produzirem as manifestações corporais, como as danças, as lutas, a ginástica e também os esportes”, explica.

A disciplina foi incluída no currículo escolar pela primeira vez em 1851, quando a Reforma Couto Ferraz tornou obrigatória a Educação Física nas escolas. Ligada a questões médico-higienistas, as aulas no começo do século 20 não eram consideradas parte do trabalho escolar e incluíam conteúdos de anatomia e fisiologia. O Exército
também passou a influenciar a área a partir da década de 1930, quando os militares eram os principais professores das então chamadas aulas de ginástica, cujo objetivo era formar indivíduos fortes e com boa resistência física.

O esporte passou a ocupar papel central a partir da década de 1940, com a busca pelo desenvolvimento de habilidades como desempenho, resistência e velocidade. Essa ligação com a Educação Física escolar acentuou-se ao longo das décadas de 1960 e 1970 com a valorização da descoberta de talentos esportivos individuais que pudessem representar a escola em competições.

A partir dos anos 80, o campo passou por uma mudança fundamental: transferiu-se da área de ciências biológicas para as ciências humanas. Questões como democracia, contexto sociocultural e direitos humanos passam a fazer parte da disciplina, que se tornou mais inclusiva ao deixar de almejar o bom desempenho em exercícios físicos.

Ainda hoje, porém, aspectos tradicionais da atividade física e do esporte convivem com a recente valorização de aspectos socioculturais. Para Helena Altman, ainda existe uma associação bastante direta entre Educação Física e esporte. “O esporte é um dos conteúdos trabalhados pela disciplina, mas não deve ser o único”, diz ela. Ao lado de futebol, vôlei e basquete entram em cena as lutas olímpicas, a dança e o hip-hop.

Professora na escola Anésio Cabral, da rede pública de Osasco, na Grande São Paulo, Cindy Cardoso, 31 anos, está trabalhando três modalidades de luta com seus alunos do 5º ano: judô, esgrima e luta olímpica. O objetivo da professora e membro do Grupo de Pesquisas em Educação Física Escolar da FE-USP foi aproveitar a proximidade dos Jogos Olímpicos de Londres para estudar justamente as modalidades de luta presentes na competição. Além das quadras, a brinquedoteca, o pátio e a sala de informática são espaços ocupados pela professora e pelos estudantes. As aulas também abordam as pesquisas produzidas pelos alunos, com exibição de vídeos sobre as modalidades e discussões em classe. “A intenção é trazer um atleta paraolímpico para conversar com as crianças”, conta.

Antigas concepções, porém, ainda povoam o senso comum e contaminaram inclusive a pesquisa citada, na opinião de Neira. “Um dos problemas é que o estudo não levou em conta o acúmulo de conhecimentos sobre a área. Os professores foram entrevistados de acordo com uma perspectiva já superada.” Em resposta enviada pela assessoria de imprensa das três ONGs responsáveis pela encomenda do estudo, “a pesquisa reconhece a diversidade de abordagens e não considera que Educação Física seja sinônimo de esporte e atividade física, mas sim uma disciplina fundamental no processo educativo para o desenvolvimento humano”.

Outros achados
Por telefone, professores de educação física e diretores das escolas foram entrevistados pelos técnicos do Ibope com o objetivo de mapear como está sendo feito o ensino da Educação Física nas escolas públicas brasileiras.

Infraestrutura disponível para as aulas;o professor; a prática de Educação Física e os papéis das redes de ensino foram os quatro campos abordados pela pesquisa. Na questão da infraestrutura, o destaque foi dado para a existência de um local específico para as aulas: 30% das escolas responderam que não existe um local destinado às aulas de Educação Física e não há quadra poliesportiva em 45% delas.

Na Região Nordeste, esses mesmos números aumentam para 51% e 77%, revelando desigualdades regionais. Ainda de acordo com essa primeira parte da pesquisa, os itens mais comuns nas escolas são: bolas de futebol (87%), cordas (81%), bolas de vôlei (79%) e bolas de handball (71%). O alto índice de escolaridade do profissional foi outro dado revelado pelo estudo: 94% têm curso superior e 44% fizeram pós-graduação ou especialização. Ao mesmo tempo, dos professores que disseram não ter curso superior (6%), a maior parte dos docentes está na área rural (82%) e no Nordeste (74%). Contudo, a alta escolaridade nem sempre se traduz em qualificação docente. Isso porque a Educação Física escolar não é objeto privilegiado de análise dos cursos de graduação. Muitas vezes, o curso prepara bem o estudante para trabalhar na área de saúde ou com treinamento físico, mas pouco ensina a respeito da prática docente. A pesquisa apurou que 78% dos
professores declararam já ter participado de algum tipo de formação continuada.

No que diz respeito ao mapeamento das práticas de ensino do professor, a pesquisa destaca o tempo de aula gasto em cada uma das atividades realizadas pelo professor. De um total de 50 minutos, 29 são gastos com as atividades de Educação Física propriamente ditas e 14 com organização dos alunos e explicação a respeito do exercício proposto. Os professores também responderam que costumam dedicar, em média, 5 minutos a ações disciplinares e burocracias, como fazer a chamada. Apesar de quase metade reclamar da quantidade de faltas, 11% relataram que os alunos se interessariam mais pela disciplina se as atividades propostas fossem mais diversificadas.