educação

Língua Portuguesa

Analisar

por Sírio Possenti — publicado 03/01/2012 13h34, última modificação 06/06/2015 18h27
A aula típica faz com que os alunos não gostem de análise sintática. Aqui, duas sugestões para fazê-los tomar gosto

A maioria dos alunos não gosta de análise sintática. Na verdade, eles não ficam sabendo bem o que é isso. As aulas típicas mandam localizar partes de oração (ache o sujeito, sublinhe o objeto direto) ou atribuir uma função sintática a essas partes (o que é “livro” em “O menino leu o livro”?). Assim, temos é que encontrar uma boa explicação quando alguém gosta ou aprende...

Uma sugestão? Dou duas, que se completam.

a) A análise sintática supõe que a oração seja interpretada (nos casos em que o sujeito vem depois do verbo, isso é fundamental). Suponhamos que o “dado” a ser analisado seja “Vai-se a primeira pomba despertada”. A primeira atividade deve ser “descobrir seu sentido” (claro que a compreendemos, mas estamos “analisando”!).

Em português, o sentido fica “mais claro” se mudamos a ordem dos constituintes: “A primeira pomba despertada se vai” ou “vai-se”. Agora, é mais “fácil” encontrar o sujeito. Mas podemos ir além. Mude-se o sujeito para o plural: “As primeiras pombas despertadas...”: logo os alunos descobrirão que a continuação deve ser “... se vão / vão-se”. E que o sujeito agora é “as primeiras pombas etc.”. Uma coisa tem tudo a ver com a outra.

Para onde as pombas vão? O poema não diz (sim, é o primeiro verso de um poema). Mas podemos imaginar: suponha que não é um poema: para onde você as mandaria ou  imagina que vão? Ou: se o poeta fosse você, para onde iriam? Para a praça, a mata, procurar uma oliveira (lembre-se da arca de Noé!). Se escolheu um lugar, a oração também tem um locativo (um adjunto de lugar).

b) A análise sintática é mais bem sucedida se levar em conta mais de uma oração. Pelo menos as paráfrases, isto é, outras versões com o mesmo sentido, ou com sentido próximo. Construindo paráfrases, aprendemos a ler, a escrever e a analisar.

Para ver o interior de um corpo, nós o dissecamos. Se queremos ver o “interior” de uma oração, construímos paráfrases, a melhor maneira ver seu interior, sua estrutura.

Diversos problemas podem ficar claros se construímos orações sinônimas. Por exemplo, partindo de

Ele me mandou sair

pode-se chegar a

Ele mandou que eu saísse

Mandou eu sair

Mandou-me sair

Me mandou sair.

Digo que seria bom fazer uma atividade semelhante em cada aula de português. O material poderia ser uma passagem escolhida de algum texto escrito de aluno. Se houver um erro, aproveita-se para corrigir. Mas também vale a pena mexer na estrutura de construções corretas. Descobrem-se outras possibilidades e oferecem-se alternativas estilísticas. Entre “mandou-me sair” e “mandou eu sair”, qual é a construção mais adequada para uma argumentação formal? E para uma fala em peça de teatro? E para caracterizar um advogado? E um policial?

Assim, os objetivos seriam claros. Ou iriam ficando claros com o tempo.