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Alunos tipo exportação

por Clarice Cardoso — publicado 14/03/2013 15h22, última modificação 19/03/2013 15h16
Intercambistas exaltam oportunidades fornecidas pelo Ciência sem Fronteiras, mas criticam falta de diálogo entre universidades

 

Morar em outro país e ter a chance de lá estudar não eram, até pouco tempo, algo imaginável para Ana Lívia Castelo Brando de Oliveira. “Nunca vi isso como uma possibilidade. Tive bolsa no Ensino Médio e frequento uma universidade pública, meus pais sempre tiveram dificuldades para custear meus estudos”, afirma a aluna do curso de enfermagem da Universidade Federal do Piauí (Ufpi) que está na Espanha como parte do Ciência sem Fronteiras, ambicioso programa que vai custear 101 mil bolsas de estudo fora do País. Oportunidade semelhante apareceu para Barbara Villela, aluna de Farmácia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araquara. O primeiro contato com o intercâmbio veio cedo: aos 8 anos, ela se mudou com a família para os Estados Unidos, quando seu pai foi aceito num pós-doutorado. A experiência alimentou a vontade de passar um tempo estudando fora do País, mas arcar com os custos da empreitada era um impedimento. Motivada, a jovem conseguiu, no terceiro ano de curso, uma bolsa da Universidade de Cambridge para estágio de dois meses em um laboratório. “Voltando, vi que gostaria de ficar mais tempo em uma universidade fora do Brasil e estudar, não apenas trabalhar.” A chance de realizar o sonho veio finalmente pelo programa do governo federal e da bolsa para o Canadá.

Tido como uma bandeira pessoal da presidenta Dilma Rousseff, o Ciência sem Fronteiras prevê 101 mil bolsas de graduação, pós-graduação e pesquisa em áreas consideradas prioritárias (engenharias, ciências exatas, biomédicas e do complexo industrial da saúde) em um período de quatro anos. Em contrapartida, quer atrair para cá pesquisadores que queriam se fixar no Brasil ou estabelecer parcerias com locais. Além de custear as mensalidades, oferece também auxílio instalação e material didático, seguro saúde e um adicional para cidades de alto custo. As universidades de destino são escolhidas com base em rankings internacionais como o Times Higher Education e o QS World University Rankings. Além disso, especialistas podem referendar a qualidade de cursos de outras instituições quando for o caso. No total, já foram concedidas em todo o mundo 654 bolsas de doutorado, 3.140 de doutorado sanduíche, 1.940 de pós-doutorado e 15 mil bolsas de graduação sanduíche.

Ao menos em termos quantitativos, essas últimas podem ser consideradas um importante foco do programa. Para conseguir se candidatar, é preciso ter concluído de 20% a 90% do curso e ter certo nível de conhecimento do idioma (a fluência depende do país de destino e da instituição). E, em caso de demanda maior que a oferta, é preciso ter conseguido média mínima de 600 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio e ter bom aproveitamento acadêmico. Também são elegíveis participantes de Iniciação Científica e premiados em olimpíadas de Matemática ou Ciências, Feiras Científicas e atividades similares.

Intercambistas com os quais Carta na Escola conversou relataram dificuldades em conseguir informações, problemas nos sistemas eletrônicos de inscrição, excesso de burocracia para conseguir uma vaga e problemas antes de conseguir finalmente embarcar. Uma vez lá, cursos intensivos de línguas e encontros e eventos promovidos pela comunidade acadêmica local tentam minimizar dificuldades de adaptação. Muitos, contudo, consideram que a seleção não foi muito rigorosa. “O início do processo foi bem confuso, a própria universidade no Brasil não quis aceitar minha inscrição, tive de fazer muitas ligações e ler e reler as regras do programa para ter certeza e comprovar que eu era elegível. Tive dúvidas que nunca foram bem resolvidas”, conta Marília Cucolicchio, que estuda Engenharia Ambiental na Unesp de Rio Claro e está atualmente na Itália. “Acho que os critérios de seleção estão bons e são suficientemente rigorosos, mas acredito que eu só tenha passado no programa por uma provável baixa procura nesse edital, que era ainda muito recente. Eu não preenchia com satisfação a todos os critérios de seleção”, explica.

Para os estudantes, as diferenças entre os estilos de aula, na relação entre professores e alunos, nos métodos de estudo e nos sistemas de avaliação foram estranhamentos que acabaram enriquecendo a experiência. Porém, são comuns relatos de dificuldades para continuar desenvolvendo ou dar início a projetos de pesquisa, já que, em muitos países, costuma-se priorizar alunos de pós-graduação.

“Posso dizer que no Brasil temos mais investimento em pesquisa, pelo menos no curso que faço. Aqui, por causa da crise, muitas coisas foram cortadas ou reduzidas, como projetos de Iniciação Científica. Não há programas para alunos de graduação, já que as poucas vagas que existem são destinadas prioritariamente a alunos de mestrado e doutorado”, pontua Léia Madeira Sabóia, aluna de Biomedicina da UFPI, que está em Portugal.

Para driblar as dificuldades em continuar suas atividades científicas, Ana Lívia iniciou um estudo com uma professora da área e outra estudante do Ciência sem Fronteiras. “Voltarei ao Brasil e continuarei a trabalhar com elas, planejamos inclusive desenvolvê-lo futuramente com uma amostra populacional brasileira”, conta.

Cá e lá

A crítica a um processo seletivo que, na visão dos estudantes, tem suas falhas não raro vem acompanhada de considerações em relação aos colegas escolhidos. Diferenças culturais como a não exigência de presença nas aulas e a concentração das avaliações em alguns períodos colabora, segundo eles, para que alguns jovens levem pouco a sério a experiência e usem a bolsa para viajar.

“Acho que o programa deveria ser mais rígido na seleção dos bolsistas, tanto no quesito idioma quanto no desempenho acadêmico, prezando mais pela qualidade do que pela quantidade de estudantes beneficiados. A verba destinada ao programa não é muita e não deve ser desperdiçada”, pondera Lucas Aguilar, aluno de Engenharia Civil na Unesp de Guaratinguetá, que está na Alemanha.

Nos primeiros meses de programa, foram noticiados problemas com os pagamentos das bolsas e questões estruturais pontuais. Ainda assim, os alunos defendem as oportunidades únicas que o programa oferece. É o caso de Thallys Ivan Amaral Gonçalves, aluno de Engenharia de Produção na Ufpi, que já voltou de uma temporada nos EUA. Do posto de quem já passou pela experiência, ele conta que, graças ao programa, conseguiu explorar áreas diferentes no curso. “Depois de voltar, criei um maior interesse em demonstrar habilidades estratégicas e organizacionais da Engenharia de Produção em áreas que muitas vezes não são relacionadas ao curso. Além disso, durante meu intercâmbio participei de conferências reconhecidas mundialmente do Instituto The W. Edwards Demming”, relata.

Barbara também conseguiu, pelo programa, oportunidades que não teria de outra forma. “Nos poucos meses que fiquei no Canadá, consegui um auxílio do centro acadêmico da universidade para participar de um congresso na Holanda, o International Pharmaceutical Students’ Federation (IPSF) World Congress. Também, ao ser voluntária na IPSF Pan American Regional Office, me foi dada a oportunidade de participar da 57th Commission on the Status of Women, que ocorrerá nas Nações Unidas. Caso estivesse no Brasil neste momento, sem qualquer bolsa, não teria condições financeiras de participar desse evento”, comemora.

A estudante ecoa, porém, uma crítica comum que diz respeito à falta de diálogo entre a universidade daqui e a de lá, o que não só implica questões de tutoria (que poderia enriquecer o trabalho de estudos e pesquisas), mas também questões práticas, como a incompatibilidade acadêmica ou de calendários letivos entre os dois países. “Uma forma de melhorar isso poderia ser a criação de tutores ou orientadores de intercâmbio nas universidades brasileiras, de tal forma que cada bolsista tivesse um professor que pudesse desempenhar esse papel. Outra sugestão seria incorporar os programas de intercâmbio nos projetos pedagógicos de cada curso, concedendo assim créditos aos bolsistas pela participação em tais programas e flexibilizando os calendários acadêmicos permitindo que os bolsistas não percam seus créditos que começaram a cursar no Brasil e tiveram de interromper para estudar no exterior”, sugere.

Ou seja, é indiscutível a relevância de um programa que promove um importante trânsito de estudantes e pesquisadores do e para o Brasil. Segundo Ana Lívia, ele tem ajudado também a mudar a imagem da educação no País lá fora. “Quando falo sobre minha experiência e lembro que existem tantos outros estudantes desse programa por todo o mundo, afirmo que nós somos o Brasil, que está em construção, e é dessa forma que meus professores e colegas de turma veem, como um país que acredita e investe em educação e consideravelmente mais em pesquisa. Os espanhóis, ao menos, enchem os olhos de respeito por nosso desempenho científico já começar na graduação”, explica.

Por dentro do Ciência sem Fronteiras

O que é? Programa de intercâmbio com universidades estrangeiras, promovido pelo governo federal, que concede bolsas de estudo a alunos de graduação e pós-graduação matriculados em universidades públicas e privadas.

Quem pode concorrer a uma bolsa de graduação? Brasileiros ou nacionalizados que estejam regularmente matriculados em cursos relacionados às áreas prioritárias do Ciência sem Fronteiras, tenham concluído de 20% a 90% do currículo, tenham bom desempenho acadêmico e tenham atingido nota de no mínimo 600 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio. Alunos que receberam prêmios em olimpíadas científicas ou bolsistas de iniciação científica ou tecnológica do CNPq ou da Capes terão preferência.

Áreas prioritárias Engenharias e demais áreas tecnológicas; Ciências Exatas e da Terra; Energias Renováveis; Tecnologia Mineral; Formação de Tecnólogos; Biotecnologia; Petróleo, Gás e Carvão Mineral; Nanotecnologia e Novos Materiais; Produção Agrícola Sustentável; Tecnologias de Prevenção e Mitigação de Desastres Naturais; Fármacos; Biodiversidade e Bioprospecção; Tecnologia Aeroespacial; Ciências do Mar; Computação e Tecnologias da Informação; Indústria Criativa (voltada a produtos e processos para desenvolvimento tecnológico e inovação); Novas Tecnologias de Engenharia Construtiva; Biologia, Ciências Biomédicas e da Saúde.

Benefícios Mensalidade de bolsa; auxílio instalação; passagens aéreas; auxílio material didático, seguro saúde e adicional para cidades de alto custo.

Quanto dura 12 meses, podendo chegar a 15 se incluir curso de idioma

Onde estudar As universidades estão entre as escolhidas por rankings internacionais, como o Times High Education e o QS World University Rankings.