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A vocação formadora na Unifesp

por Redação Carta Capital — publicado 04/09/2012 14h52, última modificação 04/09/2012 15h11
Que a história ocidental da instituição universitária seja a melhor fonte para a EFLCH buscar seu sentido
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Na Unifesp, os alunos entraram em greve em 22 de março por causa das condições precárias do campus. Foto: Olga Vlahou

 

por Juvenal Savian Filho*

 

Em 1986, quando a USP cogitava classificar seus docentes segundo critérios de eficácia e produtividade, Gérard Lebrun publicou um artigo na Folha de S.Paulo dizendo: “a universidade ainda existe, e acontece que em alguns lugares a sua vocação formadora não se exauriu por completo. Nessas condições, eu me espanto de ver que os médicos mais zelosos dessa velha senhora lhe prescrevem uma beberagem que lhe será fatal. Todos devem ter o direito de morrer em paz”.

Muito dessa mentalidade produtivista, no entanto, vingou no Brasil. Todavia, a instituição universitária aqui, sobretudo pública, ainda conserva uma vocação formadora e não foi totalmente metamorfoseada.

Ainda conseguimos, por exemplo, verbas consideráveis para filosofia e humanidades, quando, em alguns países, estudar filosofia virou artigo de luxo. Mesmo políticas brasileiras tão polêmicas como a da expansão das universidades federais e do REUNI conservam certos valores “clássicos” e “humanistas”, como, por exemplo, a especial atenção com a graduação, ampliando o acesso ao ensino superior e permitindo melhorias (ainda que tardias) de infraestrutura.

Guardadas cuidadosamente as devidas proporções, gigantes como as universidades de Paris e de Roma penam, depois da era Sarkozy-Berlusconi/Monti, vendo fechar boa parte de seus laboratórios de filosofia e ciências humanas.

Isso não quer dizer, obviamente, que elas se encontram em processo de dilapidação, mas chega a ser anedótico o fato de que, na maioria dos casos, elas sequer possam pagar a passagem de seus conferencistas convidados, oferecendo apenas duas ou três noites em hotéis decadentes. Enquanto isso, alhures, vigora o modelo universitário do patrocínio da iniciativa privada e não faz mais sentido falar em modelos públicos. Casos como o da vetusta Sorbonne seriam coisa do passado; típica das idiossincrasias francesas.

 

Instrumentalização e tecnicização da universidade. Não há dúvida, portanto, sobre certa tendência instrumentalizadora e tecnicizante da universidade no mundo contemporâneo. Mas é preocupante que haja também algo como o avesso dessa tendência: a instrumentalização que empunha a bandeira da “democracia” e termina por descaracterizar a tradição universitária ocidental quase milenar de transmissão dos saberes em nível superior. Na sociedade brasileira, por exemplo, e de dentro da própria universidade, tem surgido algo como a definição da formação universitária como um meio para lutar diretamente pela justiça social. Na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) isso tem aparecido com clareza nos debates sobre a conveniência de ela permanecer ou não no Bairro dos Pimentas, em Guarulhos.

É sintomático o ressurgimento de expressões como “especificidade da periferia”, “centro e periferia”, “centralidade”, “identidade brasileira”, “cultura brasileira”, “universidade comprometida com a realidade local”, “esgotamento do Velho Mundo”, “o Brasil como opção para o mundo”, “filosofias ultrapassadas” etc. Parecemos estar nos anos 1960, falando de “ideologia do desenvolvimento nacional” e visando a tomada de consciência das massas colonizadas pelo subdesenvolvimento, a fim de desfazer a metafísica universitária típica dos países decadentes do hemisfério norte, ao modo de algo como uma tradição “leninista” para a qual não haverá revolução sem teoria revolucionária. É preciso relativizar essas expressões, pois elas não designam nenhuma categoria ou substância, mas apenas construções históricas.

Porém, se a identidade secular da universidade foi o que lhe permitiu, até hoje, ser o espaço em que todas as formas de saber são respeitadas e protegidas igualmente, valorizando-se a transmissão das mais variadas “tradições”, não parece equivocado perguntar se o ideal “democrático” não oferece o risco de também instrumentalizar a universidade tanto quanto o ideal tecnicista. Não parece mais coerente conceber a universidade como uma instituição que não deve ceder a nenhuma forma de patrulhamento ideológico, mesmo proveniente de ideais ditos elevados? A história edificou-a sobre o valor inegociável de sua autonomia e de sua estrutura autárquica. Como pretender continuar falando de universitas e ao mesmo tempo justificar uma visão da vida universitária como voltada para outra coisa diferente do saber?

Não se trata de querer ver na universidade mais uma “caixa-preta”, entre as tantas existentes em nosso país, mas de compreender que ela talvez não tenha vocação para atender às necessidades sociais diretamente, e, sim, indiretamente, ou seja, ao seu modo próprio, que é o da reflexão em nível superior, oferecendo formação sólida e de espírito cosmopolita.

Assumir isso também não significa ter uma visão míope da universidade, como se ela não estivesse envolvida em dinâmicas socioeconômicas. Pelo contrário, é uma forma de prestar atenção a essas dinâmicas e ver que mesmo sob ideais “elevados” pode haver uma polarização do debate, resultando na falta de reconhecimento da intersubjetividade necessária à própria elaboração da ideia de universidade.

Democracia universitária e periferia. Sob o ideal de universidade “democrática” oculta-se ainda a busca de paridade no governo institucional. Sem entrar no teor dessa antiga reivindicação, não se pode deixar de destacar a curiosa situação em que se pretende discutir mesmo temáticas acadêmico-pedagógicas, tomando-se o corpo docente, o corpo discente e o corpo técnico-administrativo como votantes em “pé de igualdade”.

Não seria útil considerar uma possível confusão entre a democracia tal como ela se exerce na sociedade em escala maior e a democracia nas instituições? A primeira é a da igualdade por princípio; a segunda, a da igualdade circunstancial, pois os diferentes componentes de uma instituição não podem desempenhar, por sua natureza, o mesmo papel. Assim, na universidade, o corpo docente, encarregado da vida intelectual e da organização da complexidade dos conhecimentos em cada área e em diálogo com outras instituições sociais afins, concentra a diferença específica que dá a identidade universitária. Quanto ao corpo técnico-administrativo, alguns membros são mais próximos à área acadêmica; outros, menos. Em todo caso, em seu conjunto, sua atividade é “meio”; não é “fim”, como a vida intelectual (a qual, aliás, sendo a vida do espírito, extrapola as categorias e denominações profissionais).

Preconizar uma igualdade de princípio onde é necessário haver igualdade apenas circunstancial não seria transformar a universidade em mera instância de administração pública? Não seria adotar um estilo neoliberal, defendendo uma igualdade abstrata ao modo do mercado e ampliando-a para todas as instituições?

Ainda, com toda sinceridade, parece útil cortar na própria carne e perguntar se a defesa de uma universidade “na periferia, pela periferia e para a periferia” (lema de alguns colegas professores, estudantes e técnico-administrativos da EFLCH-Unifesp) não pode abrir espaço para posturas preconceituosas contra a ideia de universidade cosmopolita e aberta ao mundo (não a uma localidade específica).

Ademais, se se quer falar de justiça social, como não ver o caráter profundamente excludente da EFLCH atual, com seus 70% ou mais de alunos despendendo no transporte o precioso tempo da convivência acadêmica? Recorrer às dimensões territoriais e populacionais de Guarulhos para defender que a EFLCH continue por lá, quando seus alunos não vêm de lá, não pode ser visto como um argumento que flerta com o populismo? Em que momento se pensará na natureza da universidade? A população local não seria realmente beneficiada se, em vez de um campus alienígena, contasse com um grande centro de cultura, com políticas sólidas de difusão sistemática de bons trabalhos teatrais, cinematográficos, literários, plásticos, musicais etc. e de oficinas de incentivo à produção artística?

Mais grave será se se identificar nos discursos dos defensores da universidade “democrática” uma postura anti-intelectualista, como denunciam em vários contextos pensadores contemporâneos estrangeiros e brasileiros. Em todo caso, esse anti-intelectualismo explicaria bem a acusação de elitismo feita aos que se põem do lado da tradição universitária, como se estes almejassem apenas seu conforto egoísta e tivessem aversão pelas populações mais carentes do ponto de vista econômico.

 

A crise da EFLCH. Nos dias 3, 4 e 5 de setembro a EFLCH-Unifesp reunir-se-á para um grande debate em torno das causas de sua crise, considerando em primeiro plano o tema de sua localização.

Em parte, esse debate é resultado da reflexão suscitada pelo Dossiê sobre a crise da Escola de Humanidades da Unifesp e sua permanência no Bairro dos Pimentas, elaborado por um coletivo de docentes da EFLCH, protocolado junto à reitoria e às pró-reitorias da Unifesp e divulgado em primeiro lugar pela Carta Capital.

Como era de se esperar de um documento como o referido dossiê, a reação foi muito variada e bastante polêmica. Os próprios redatores possuíam divergências quanto ao texto final, mas, como este representava posicionamentos de muitos docentes, optou-se por manter itens mesmo menos consensuais, sobretudo porque o objetivo era contribuir para o debate e não fazer acusações, como se coubesse a alguém o ônus da prova. O caráter do documento era provisório; nunca se pretendeu que ele se tornasse a pauta do debate. Visava levar à Congregação da EFLCH algo como um diagnóstico e um possível prognóstico para a crise, a fim de que ela, a Congregação, revalorizada como instância realmente representativa da comunidade universitária (e evitando que as decisões continuassem a ser tomadas apenas entre a reitoria e a diretoria do campus), instalasse oficialmente o debate.

Seja como for e apesar de possíveis mal-entendidos, o dossiê já produziu frutos muito positivos, a começar por toda a movimentação e as polêmicas que convergiram para o debate da próxima semana. Conseguiu também que a Congregação fosse efetivamente consultada, ainda que nem sempre ouvida. Permitiu que a Comissão de Infraestrutura, que tem prestado serviços impagáveis à comunidade da EFLCH, ganhasse a expressão que merecia junto à Congregação e à reitoria, avaliando inclusive soluções que se apresentaram para aluguel de prédios provisórios. Trouxe ainda à tona temas tabus como as ameaças de ingerências diversas na instituição universitária, as tensões negativas internas e externas ao campus etc.

Independentemente do resultado do debate e do futuro que será construído para a EFLCH, o ganho é de todos, mesmo dos que discordam do dossiê ou da saída da EFLCH do Bairro dos Pimentas, pois finalmente se deu vazão à coragem de tocar em um assunto que permanecia reprimido nos subterrâneos de nossas relações mas continuava a latejar cada vez mais viva e intensamente.

Evitando extremos, pode-se dizer que, “ficando” no bairro ou “saindo” dele (como certas posturas maniqueístas resumem a reflexão), a EFLCH que será construída a partir desse debate terá condições de ser mais madura e mais forte. Caso seu futuro seja a divisão, esta também poderá fundamentar-se na capacidade universal de respeitar as diferenças individuais e departamentais, porque elas terão ficado explícitas, neutralizando a necessidade de nutrir desconfianças ético-políticas e subterfúgios administrativos.

Mas também não se pode fechar os olhos para a situação limite da EFLCH, principalmente com a deserção do processo licitatório por parte das construtoras. Aumentam o estado de alerta os discursos eleitorais pró-um e contra-outro que agora dizem pretender levar a Unifesp para cá ou para lá. Em vez de se resolver a crise da EFLCH, vampira-se a sua imagem, transformando-a em mote eleitoral-eleitoreiro. Passaram a pensar nas localidades onde pôr a Unifesp e não em como a Unifesp ficará quando posta nesses lugares. Fala-se de faculdade de medicina (que muitas vezes parece fetiche!), de cidade universitária, de milhões de habitantes, de metrôs que vão brotar da terra como cogumelos, de linhas de ônibus milagrosamente meteóricas que atravessarão as vias de trânsito saturadas, de trens, de projetos para cinquenta ou cem anos, do Bairro dos Pimentas que vai virar a “periferia mais desenvolvida das periferias”, das desapropriações de terras para moradia estudantil e creche, de hospital de primeiro mundo, de dinheiro da esfera federal, estadual e municipal, de projetos futuristas etc. Mas não se fala da universidade do aqui e agora, da pesquisa, da docência rigorosa, da convivência acadêmica, da transmissão e proteção dos saberes, do respeito ao corpo docente e sua valorização etc. Enquanto isso, não se chega a lugar nenhum nem com os prédios para alugar, mesmo com os meses e meses de tentativas. Ou melhor, há um galpão industrial alugado...

Sombrio quadro em tempos sombrios. Mas, quem sabe se dessa situação limite não surgirá alguma solução mediana? Quem sabe se da conjunção do debate da EFLCH com o processo eleitoral da reitoria da Unifesp e das prefeituras dos municípios da Grande São Paulo não pode surgir um resultado positivo? O risco é tudo ficar na ordem das boas intenções e a EFLCH seguir como está.

Como o imprevisível ou incontrolável age tanto ou mais na História do que as intenções, não é irracional ter esperança. Aquela que nutro explicitamente, neste momento, é que a história ocidental da instituição universitária seja a melhor fonte para a EFLCH buscar seu sentido. E que isso contribua, de alguma forma, para diminuir o impacto das beberagens testadas nessa velha senhora de nome universidade.

 

*Juvenal Savian Filho é Professor do Departamento de Filosofia da Unifesp