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A escola vai à cidade

por Carta na Escola — publicado 13/01/2013 08h46, última modificação 06/06/2015 18h23
Projeto interdisciplinar leva alunos a conhecer o centro de São Paulo e discute a história e os problemas da região mais antiga da capital
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Projeto interdisciplinar leva alunos a conhecer o centro de São Paulo e discute a história e os problemas da região mais antiga da capital. Foto: Amanda Perobeli

 

Por Rafael Urano Frajndlich*

Segunda-feira, 7 horas da manhã. Os alunos do segundo ano do Ensino Médio acomodam-se no auditório do Colégio Arquidiocesano. No escuro, não se pode identificar o que acontecia no palco, viam-se apenas silhuetas de pessoas segurando guitarras elétricas. As luzes se acendem e a música começa a soar em alto volume para uma plateia atônita. Uma voz ao microfone anuncia: “Começou o Órbitas Urbanas 2012”.

Os músicos, na verdade, são professores da casa, e as canções entoadas sobre São Paulo, como Música Urbana, do Legião Urbana, e Sampa, de Caetano Veloso, marcam o início da segunda edição do projeto Órbitas Urbanas, feito pelo Colégio Marista Arquidiocesano: durante uma semana, todos os professores param as suas aulas para organizar séries de visitas ao centro de São Paulo e discutir as questões ligadas à cidade. A intenção é que os estudantes, organizados em grupos, apresentem no fim da semana suas conclusões e leituras sobre a cidade. O formato é livre e diversificado: mapas, fotografias, ensaios e mesmo manifestos propositivos.

Realizar visitas guiadas a partes da cidade, museus e parques é relativamente protocolar dentro das estruturas de ensino, especialmente nos currículos de Geografia e História. Entretanto, a proposta dos jovens professores do Colégio Marista difere do caráter puramente turístico que esse tipo de atividade pode ter. Em primeiro lugar, porque o passeio não tem pontos objetivos de visita – trata-se simplesmente de passear a pé por diversos lugares do centro paulistano. Segundo, porque os professores de todas as disciplinas são envolvidos, o que faz com que os alunos eventualmente sejam acompanhados no passeio por docentes não especialistas no assunto, como biólogos, matemáticos e físicos. “Tive de estudar a história do centro para ir ao passeio”, conta o professor de Matemática Alexandre Anzilotti, sobre a preparação para levar os alunos.

Finalmente, o passeio é todo feito por metrô. Segundo os professores, poucos são os alunos que utilizam o transporte público como meio efetivo de trânsito pela cidade.

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Durante o passeio, percebe-se que o centro de São Paulo não é completamente estranho aos jovens de classe média. Os estudantes do Marista, na sua maioria habitantes do bairro de Vila Mariana e arredores, conseguiam facilmente pinçar determinadas experiências vividas dentro da área histórica, especialmente nas instituições restauradas, como a Pinacoteca do Estado, o Museu da Língua Portuguesa e o Mercado Municipal, entre outros. Alguns já utilizaram os comércios centrais, como lojas de produtos e brindes, para organizar festas. No entanto, frequentar o centro é um exercício de exceção, mais ainda caminhar livremente por suas ruas e vias afastadas dos novos institutos culturais restaurados.

Nas visitas, os alunos encontraram o centro da cidade em mais um dia de semana, com ruas cheias, trânsito corrido e infraestrutura levada ao limite. Alguns roteiros exploraram regiões menos turísticas, como a Avenida Rio Branco, as imediações da Rua São Caetano – a conhecida “rua das noivas”. Acompanhando o grupo do professor de Geografia Paulo Mendes, um dos idealizadores do projeto, os alunos passaram em frente aos quartéis da polícia localizados na Avenida Tiradentes, às margens do Rio Tamanduateí, um dos mais importantes marcos geográficos da construção da cidade, até chegar nos comércios específicos da Rua São Caetano, como máquinas de costura, manequins e vestidos de casamento.

Cruzando a Avenida Tiradentes, os jovens entram em contato com a parte mais crítica do tour, ao resvalar na Cracolândia através da Rua Mauá, até chegar diante da Praça Júlio Prestes. “Conhecia melhor a parte do centro mais próxima da Praça da Sé. Aqui está bem mais abandonado”, conta o aluno Lucas Meira. Ali, a precariedade finalmente toca os alunos, para os quais chama a atenção o fato de os moradores de rua serem um “pessoal da nossa idade”, resume a estudante Daniela Saliba. Soma-se a esse caráter negativo a presença do antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social, palco de inúmeros abusos e torturas no passado recente da cidade, que rendeu uma explanação do professor acerca do violento passado político da cidade.

O passeio se encerra na Praça da República, perto do Edifício Copan e do Terraço Itália, parte mais amigável do centro, já na subida do Espigão Central, onde está a Avenida Paulista. Os registros do itinerário foram traduzidos, em uma gincana de dois dias, em diversos desenhos, fotos e textos. A apresentação do produto final não é só analítica: os professores pedem que os grupos redijam um texto-manifesto propondo soluções efetivas para as questões vistas no roteiro. No fim da semana, na sexta-feira, o projeto terminou com um encontro com vereadores e jornalistas, discutindo o centro de São Paulo.

O exercício proposto pelo conjunto dos professores para o segundo ano conhecer a região central da cidade é interessante pela multiplicidade de experiências. Entretanto, a necessidade de uma tão ampla preparação para a visita, que requer a parada das aulas e vários artifícios para destacar os alunos do cotidiano, é uma mostra da cisão que os jovens de classe média têm em relação à vida nas ruas da cidade. Na Europa, em capitais como Paris, Viena e Roma, não é incomum ver crianças com seus professores tomando metrôs e caminhando pelo centro, como parte de seu aprendizado infantil. Em São Paulo, a viagem é feita com os jovens já próximos da vida adulta, e com várias ressalvas, vide as orientações de segurança, como atenção às posses pessoais e o fato indispensável de se usar uniforme.

É uma iniciativa que, como outras realizadas por colégios particulares da capital paulista, procura reaproximar os alunos da cidade. “Acho que não devemos levar as coisas da cidade à escola, a escola é que deve ir até elas”, conclui Paulo Mendes. Os meandros desse desafio surgem na prática, e se sobressaem no projeto que mostra que São Paulo causa fascínio. Esse contato com a cidade educa os alunos acerca da importância de sua participação futura na vida urbana. Aprender nas cidades, e assim compreender seus problemas e sua história, é parte indispensável do processo para decidir no futuro o que fazer com elas.

* Arquiteto e doutorando do departamento de História e fundamentos da arquitetura e urbanismo na FAU – USP