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Educação

Coluna Econômica

A educação e seus cabeças de planilha

por Luis Nassif publicado 23/10/2013 11h23
O que vende jornal é o personagem que vende fórmulas mágicas e enganadoras

Na segunda-feira passada, o programa Brasilianas.org da TV Brasil foi sobre educação. Participaram o professor da Unicamp Reginaldo Moraes, o vereador do PSDB de São Paulo Floriano Pesaro - que ocupou uma das secretarias do MEC (Ministério da Educação) na gestão Paulo Renato de Souza - e o secretário de Educação Básica do MEC Romeu Caputo.

Houve consenso sobre a importância de aprimorar o modelo federativo, com a União utilizando as verbas do Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica) para monitorar o ensino municipal e estadual; os avanços continuados no setor que eliminaram as influências políticas sobre a destinação das verbas; a importância dos indicadores de acompanhamento e da melhoria da gestão nas escolas.

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A roda emperra em alguns ângulos do gerencialismo - o modelo que pretende aplicar à educação métodos de avaliação de empresas privadas. Não pelo princípio em si, mas pela visão tosca e mecanicista de alguns dos gurus do gerencialismo.

Há anos, a "reengenharia" foi extirpada do universo das modernas empresas brasileiras. Consistia em assumir uma empresa, desconstruí-la, demitir os funcionários e começar do zero, em cima de indicadores fechados em cada departamento, sem visão de conjunto.

Mas é mantida no setor de educação como se fosse o estado da arte em matéria de gestão.

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Os avanços de gestão consagraram novos modelos:

1. Foco no cliente. Todos os processos devem ser estudados a partir dos impactos no  produto final. No caso escolar, na melhoria do ensino dos alunos.

2. A conquista de corações e mentes. A base inicial é a estrutura de pessoal existente.  Devem ser convencidos, ouvidos, avaliados e participar da construção dos novos modelos.

3. Gestão colaborativa. O modelo da competição entre funcionários ou departamentos foi sepultado nos anos 90. Era corrosivo. Desde então, na partida os programas de gestão procuram definir a missão da empresa, incutir alma na corporação, e fazer as partes entenderem como contribuem para o resultado final.

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O modelo educacional brasileiro tem produzido pensadores de peso, como Cláudio Moura Castro, Simon Schwartzman, Fernando Haddad, o próprio Reginaldo.

Mas visões complexas da realidade não atendem ao marketing da notícia. O que vende jornal é o personagem que vende fórmulas mágicas e enganadoras.

É o caso de Gustavo Iochpe, transformado em guru pela revista Veja, que apresentou como ideia salvadora a proposta de obrigar cada escola a exibir na porta o seu índice IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) para que a competição se incumbisse do restante.

Ora, o ponto central de estímulo ao aluno, especialmente de baixa renda, não é a síndrome do videogame, mas a convicção de que, estudando, escapará da sina familiar de miséria. É essa a "missão" a orientar especialmente as escolas públicas.

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Nos anos 90, a então Fundação Cristiano Ottoni - dirigida por Vicente Falconi, um dos pais da moderna gestão no Brasil - buscou implementar métodos gerenciais mais sofisticados em uma escola pública da Pampulha, Belo Horizonte. O primeiro passo foi levantar a auto-estima dos alunos - chamados de "sopões" pelos alunos de escolas privadas - evitando comparações diretas com os colegas das escolas privadas, dada a enorme disparidade de condições entre ambos.

O segundo ponto foi o envolvimento de toda a comunidade - pais, alunos e professores -  tanto na definição dos currículos como na avaliação dos professores. Era um trabalho de convencimento, não de imposição; e trabalho coletivo, não de gabinete.

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Alguns anos atrás, a consultoria McKinsey assessorou Minas e São Paulo na implementação de novos modelos educacionais,  baseados na meritocracia. Minas foi bem sucedida; São Paulo, não. A diferença básica é que Minas fez um trabalho de convencimento dos professores; em São Paulo, a Secretária Maria Helena Guimarães de Castro  tentou enfiar goela abaixo dos professores. Tipo, "eu conheço o be-a-bá da gestão, logo eu tenho a força".

Pesaro reconheceu os avanços do modelo participativo em Minas, mas disse que em São Paulo há enorme dificuldade porque: os professores são invencivelmente corporativistas; os pais de alunos não sabem avaliar as escolas; nem os alunos sabem.

Quem sabe se invente um dia um sistema escolar sem alunos, sem pais de alunos e sem professores.

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Na gestão Gabriel Chalita na Secretaria da Educação - primeiro governo Alckmin -, as escolas passaram a ser abertas em finais de semana, com reflexos positivos até no índices de criminalidade. Eleito governador, José Serra mandou fechá-las. Pesaro justificou a medida, alegando que eram utilizadas apenas para lazer.

Tinha-se o mais difícil para qualquer trabalho pedagógico: a comunidade reunida. Pouco importa se para utilizar as quadras esportivas, fazer bailinhos ou jogar truco. Houvesse um mínimo de inteligência pedagógica, o passo seguinte seria envolver a comunidade em projetos culturais, teatro, música. E, na sequência, na discussão do conteúdo escolar.

Jogou-se tudo fora, inclusive para impedir a ascensão política de Chalita.

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A visão de Pesaro foi rebatida por Caputo, que falou o óbvio: sem a adesão dos professores, nada se faz. Mencionou  exemplos concretos de como, desafiados, os professores souberam responder positivamente. Falou da importância de se canalizar o sindicalismo e o corporativismo para a busca de objetivos comuns, de melhoria do ensino.

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As próprias dificuldades enfrentadas pelo Governo Federal nos programas de concessão, apontam para o óbvio: não se constroem políticas públicas duradouras sem o envolvimento objetivo de todas as parte.

Seria importante que a comunidade da Educação exorcizasse o setor dos vendedores de Bíblias e se dedicasse a uma discussão aprofundada sobre o modelo gerencial eficiente para melhorar a educação brasileira.