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Vivendo perigosamente

por Thomaz Wood Jr. publicado 10/12/2011 08h22, última modificação 06/06/2015 18h57
Além do petróleo, o recente vazamento na costa doRio de Janeiro traz à tona um ponto de atenção: o apetite por riscos das empresas. Maior o risco, maior o prêmio
chevron vazamento afp

Em novembro, vazamento na Bacia de Campos jogou 2,4 mil barris de petróleo no mar. Foto: AFP

O mês de novembro assistiu aos primeiros capítulos de mais uma saga corporativa da série “Empresa multinacional desalmada provoca acidente ecológico, tenta ocultar os fatos, enganar o governo e ludibriar a opinião pública”. Muda o palco, mudam os atores, mas o roteiro continua o mesmo.

O remake temcomovilã a gigante Chevron, repetindo o papel interpretado, em 2010, pela BP, no Golfo do México. Nas telas: óleo vazando, ativistas irados, executivos evasivos e o meio ambiente ameaçado.

A Chevron é uma das maiores empresas do setor de energia do mundo. Está presente em mais de 180 países, tem 62 mil funcionários e faturou 205 bilhões de dólares em 2010. Suas atividades incluem cada elo das cadeias produtivas de petróleo e gás. A empresa também investe em fontes alternativas, taiscomoenergia geotérmica, solar e eólica.

Sua história confunde-se com a expansão do capitalismo norte-americano. Foi marcada por inúmeras fusões e aquisições, inclusive a compra da Texaco, em 2000, e da Unocal, em 2005.Como no caso de outras grandes empresas, sua história foi também marcada por controvérsias e escândalos. Nos anos 1950, juntamente com a General Motors e a Firestone, a Chevron foi acusada de comprar e desmantelar os sistemas de transporte público urbanos de grandes cidades norte-americanas, baseado em bondes elétricos, para facilitar a entradas de frotas de ônibus.

A empresa foi também acusada de manter um sistema de evasão fiscal, de1970 a2000, usando um projeto na Indonésia, de tentar bloquear o desenvolvimento de carros híbridos e de provocar danos ambientais na Califórnia, emAngolae no Equador (uma herança da Texaco).Comosabem até mesmo os roteiristas deHollywood, óleo e política misturam-se de forma nem sempre cândida, com resultados frequentemente cruéis para o meio ambiente e para as comunidades.

 

Além do petróleo, o recente  vazamento na costa doRio de Janeiro traz à tona um ponto de atenção: o apetite por riscos das empresas.Comorezam os bons manuais de gestão, toda atividade empresarial envolve riscos. O pequeno industrial corre riscos ao comprar uma nova máquina para ampliar sua produção. O banqueiro corre riscos ao ampliar sua oferta de crédito. O executivo da empresa de infraestrutura corre riscos ao escavar o fundo do oceano. Maior o risco, maior o prêmio. Quem não quer correr riscos, não deve se estabelecer.

O dilema enfrentado diariamente por empresários e executivos refere-se a que grau de risco deve ser aceito. Qualquer operação pode ser projetada para tornar-se (quase) à prova de riscos. Porém isso tornará seus custos proibitivos e o negócio, inviável. Por outro lado, uma operação sem salvaguardas pode ser extremamente lucrativa, porém vai expor seus responsáveis a riscos astronômicos. Então, o desafio para as empresas é dominar a tal ponto seus processos e tecnologias que seja possível gerenciar (quase) cientificamente os riscos, minimizando os custos de controle e maximizando os lucros. Na prática, isso equivale a caminhar por uma corda bamba. Qualquer pequeno deslize pode provocar uma queda.

Certas empresas, em razão de sua história e cultura organizacional, são mais avessas a riscos. Contratam executivos mais conservadores e tomam decisões fundamentadas em análises cuidadosas. Outras empresas são mais propensas ao risco. Atraem executivos mais agressivos, que seguem seus instintos. Quando operam em mercados pouco regulados ou com governos corruptos, tais empresas encontram um ambiente propício para correr riscos. Quando o prêmio é grande e a pena é leve, aumenta o apetite por riscos.

 

Nas duas últimas décadas,  o avanço das tecnologias da informação e da comunicação, combinado com maior sensibilidade coletiva para questões sociais e ambientais, provocou impactos consideráveis sobre o mundo corporativo e sobre o comportamento de empresários e executivos. Hoje, uma denúncia de trabalho escravo na Ásia pode causar a perda de contratos na Europa; um acidente ambiental na África pode derrubar o preço das açõesem Nova York.

Imagem e reputação, os chamados ativos simbólicos, subiram na escala de prioridades executivas. Nas grandes empresas, aumentou a preocupação com o impacto social, multiplicaram-se as áreas de responsabilidade social corporativa e cresceu o orçamento de projetos sociais. A partir do bolso, o espírito selvagem dos capitalistas vai sendo domesticado, se não na essência, ao menos na aparência. Efeito colateral: uma redução do apetite por riscos.

A saga da Chevron ainda ganhará alguns capítulos. O comportamento dos atores está sendo observado de perto pela plateia e pelos colegas de palco. A epopeia da exploração do pré-sal dará ensejo a muitas sagas. Preparemos o estômago! •